Constrangedor o artigo do Magnoli hoje na Folha. Por cortesia profissional, minha tendência seria deixar passar, considerar só como um episódio folclórico, como a gravação da Lúcia Hippólito. Todo mundo tem seu dia de escrever besteira, ou de tomar umas biritas. Mas, já que me meti nessa com o post anterior, e por causa da gravidade do fato do texto ter sido publicado como foi pela Folha, e como, enfim, não tenho lá esse caráter todo, vou comentar.
Vejam bem, aqui no blog o texto é cheio de palavrão, esculhambação dos outros, etc. Mas é meu blog, e é um blog: vocês que lêem provavelmente esperam um tom informal. Quem não aguenta esse tipo de coisa, não lê. A Folha, assim como os grandes jornais de grande circulação, tem um público que provavelmente espera um tom formal. Se me chamarem para escrever em um jornal, não vou escrever como escrevo aqui, da mesma forma que não escrevo assim em artigo acadêmico, que é um negócio ainda mais formal.
Pois bem: eu nunca tinha visto um texto em jornalão como o do Magnoli. Aquilo é um post de blog de movimento estudantil. O título do artigo chama os jornalistas da Folha de delinquentes. Ao longo do artigo, são chamados de, pela ordem, falsificadores, autores de um “panfleto disfarçado de reportagem”, inescrupulosos, jornalistas que abominam os fatos, manipuladores e mentirosos a serviço do poder (o “black power”, talvez).
Contrastem a decisão da Folha publicar este negócio deixando passar isso tudo com sua reação às cartas dos intelectuais que reclamaram da “ditabranda”.
Mas vamos ao artigo. Depois da introdução “Maldita PIG petista!”, lemos o seguinte:
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Bom, Magnoli, vamos lá. O Demóstenes (e você) estão dizendo o seguinte: não se pode dizer que a escravidão foi feita pelo branco contra o negro, porque os negros africanos escravizavam outros negros africanos. Logo, não se pode dizer que os brancos brasileiros devam algo aos negros brasileiros. Logo, um dos argumentos a favor das cotas, o da reparação histórica,é falso.
Se os africanos que vendiam os outros africanos não fossem negros, que força teria esse argumento? Nenhum. Digamos que traficantes árabes fossem os principais vendedores de negros para os portugueses. Se você dissesse isso em um debate sobre cotas, todo mundo criticaria a falta de um “off-topic:” antes do seu depoimento. Isso só parece relevante porque, se negros tiverem sido co-responsáveis pela escravidão, bem, já dá para começar a argumentar que não foi um caso de brancos contra negros (mas daí também não sai nada, como veremos abaixo).
E, segundo o sujeito que o DEM escalou para ir lá, negros foram co-responsáveis pela escravidão. E é exatamente esse o título da matéria da Folha. Logo, os jornalistas simplesmente reproduziram o que ouviram, com um pouco mais de articulação lógica do que o seu artigo de hoje. Parabéns à Folha, que já cansei de criticar aqui.
E eu espero que o Magnoli esteja sendo desonesto quando diz:
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
Porque se ele não estiver sendo desonesto, ele é devagarzinho. Demóstenes está tentando interpretar uma parte dos fatos históricos (mais sobre isso em um momento) para defender um argumento cuja melhor expressão possível em português é o título da matéria da Folha. Nada errado aqui, Magnoli.
E daí em diante não tem nem graça criticar o Magnoli, porque é aqui que ele, na ilusão de ter dado uma tremenda lição nos dois jornalistas (o que, como já vimos, é absolutamente falso), fica animado, resolve dar o moonwalk da vitória (copyright: Japajato), e vai reclamar do Luis Felipe Alencastro, professor de história do Brasil na Universidade de Paris, doutor pela mesma universidade com uma tese sobre tráfico negreiro. Vamos só olhar os jogadores em campo e ver a diferença entre o craque e o amigo do dono da bola.
O Magnoli acusa o LFA, fundamentalmente, de desonestidade, por dizer que os africanos não organizaram o tráfico, apesar de saber que eles fizeram isso. Diz o Magnoli:
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (“África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.
Aí você vai lá ler o Alencastro, e, enquanto sente o choque com a diferença de nível nas duas argumentações, lê:
“Havia, sim, tráfico de escravos na África. Mas a escravidão atlântica teve uma intensidade tal, uma integração tamanha com o capitalismo moderno, que acabou exacerbando os mecanismos de exploração interna no continente africano.”
O historiador diz que há registros de 37 mil viagens de navios negreiros para as Américas. “Nenhuma delas em navios de propriedade de negros. Toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais.”
Segundo Alencastro, o Brasil teve uma posição “excepcional” no tráfico negreiro atlântico. “Os colonos do Brasil foram os únicos que fizeram expedição negreira na África. Os americanos não tinham essa logística, os cubanos também não. Mas os brasileiros invadiram Angola em 1648 para relançar o tráfico negreiro.”
Ou seja: o tráfico transatlântico, que é o que abasteceu o Brasil, era organizado por europeus (e “brasileiros”, o que é meio que um anacronismo). É um caso clássico de produção artesanal local que ganha escala quando se integra no mercado mundial.
Mas minha parte favorita é a invasão de Angola. É verdade, os reinos africanos abasteciam o tráfico. Mas, se eles não o fizessem, os europeus só não tomariam essa tarefa para si se fosse caro demais. Ninguém teria o menor escrúpulo de fazê-lo. Quando o Demóstenes diz algo como “Imaginem, os brasileiros indo lá na África sequestrar os negros”, está sugerindo que uns caras que sem problema nenhum em prender essas pessoas no tronco, estuprá-las nas horas de lazer, e botá-los para trabalhar até morrer, teriam problemas em sequestrá-los. Não parece razoável.
O Demóstenes não disse o que estava “no registro histórico”, onde tem muito mais coisa escrita. Entendo perfeitamente que o Demóstenes não saiba disso, eu também não sei (mas não fui no STF discutir com especialistas), e é claro que o LFA sabe. Mas, se o Magnoli sabe, ele foi intelectualmente desonesto.
No Domingo, o LFA voltou à carga, com um dado especialmente revoltante. Boa parte dos escravos brasileiros foi escravizada contra a própria lei brasileira da época (uma vez que o tráfico era ilegal). Mas, vejam que espetáculo, os sequestradores dessas pessoas (era como eram definidos pela lei brasileira – fala Demóstenes!) foram, hehehe, anistiados. Que bonito.
Agora, gastar o LFA para refutar o Magnoli é completamente desnecessário, é bem mais fácil a coisa.
Magnoli, digamos que cada um dos escravos brasileiros tivesse sido entregue nas senzalas brasileiras pelo Daomé Delivery embrulhado na bandeira do Congresso Nacional Africano. Em seus mais alucinados delirios de grandeza, esse argumento não consegue ser uma pálida caricatura de algo que tenha a mais remota importância para o debate sobre as cotas. Porque, como disse aí embaixo, é razoável supor que a imensa maioria dos negros brasileiros descende dos que foram escravizados, não dos que foram escravizadores (embora deva haver alguns desses, também). Uma vez no Brasil, eles não eram apenas mantidos escravos; só eles podiam ser escravos. Havia uma cota de 100% para negros nas senzalas.
Isto é, durante a maior parte de nossa história, uma parcela importante de nossa população foi designada, enquanto raça, para a senzala. É claro que raça é uma construção cultural. Mas sintam-se livres para esmurrar os dentes de quem disser “só” uma construção cultural. Sociologia 101, primeira aula, Durkheim: o fato social é uma coisa, como se descobre quando se tenta ir contra ele. A construção cultural continua aí, produzindo efeitos. Se as cotas não forem a melhor solução – e deixo o debate para quem tiver estudado isso – alguma outra coisa tem que ser criada.
Taí, o tema “ação afirmativa” valeria a pena como tema de leitura. Mas duvido que eu tenha tempo. Enfim, se alguém tiver, eu leio.
PS: continuo com o problema dos parágrafos que de vez em quando aparecem repetidos. Mal aí.
PSTU: credit where credit is due. Belo artigo da Miriam Leitão sobre o Demóstenes. Reproduzo: baseado no argumento do Demóstenes, “ (…) se há no Brasil casos de trabalho escravo e degradante, isso permite aos outros povos que façam o mesmo conosco. Qual o crime? Se brasileiros levam outros brasileiros para áreas distantes e, com armas e falsas dívidas, os fazem trabalhar sem direitos, qualquer povo pode escravizar os brasileiros. (…) O senador Demóstenes é um famoso sem noção e com ele não vale a pena gastar munição e argumentos. Que ele fique com sua pobreza de espírito.”
PSTUdoB: só para reafirmar o que disse nos comentários ao post abaixo, sou fanaticamente defensor das cotas sociais. Se tem que ter também cotas raciais é que eu não sei.



