Na Prática a Teoria é Outra Rotating Header Image

Marcelo Néri

Excelente entrevista do Marcelo Néri no Estadão de ontem, é até difícil escolher que trechos destacar. Fico com três:

A desigualdade caiu bastante:

Nos números da Pnad de 2001 a 2008, se observa uma queda muito forte na desigualdade. Ela só tinha se alterado significativamente no Brasil uma vez: nos anos 60, e para cima. A desigualdade aumentou na época do milagre econômico. Por isso o (economista) Edmar Bacha cunhou o termo “Belíndia” (segundo o qual, em termos sócio-econômicos, o Brasil seria uma mistura de Bélgica e Índia). Apenas de 2004 para cá, 32 milhões de brasileiros subiram para a classe ABC. Em cinco anos, 19,3 milhões saíram da pobreza. Então, a boa notícia é que dá para transformar o País rapidamente, aos saltos. A má é que a desigualdade continua grande: ela ainda precisa cair três vezes para convergir ao nível norte-americano, que já é muito alto.

A classe média cresceu bastante:

O crédito pode ter feito a roda da economia girar mais, gerando mais renda. Mas esse é um efeito extra. O que aconteceu de fato foi o que já chamei de “o segundo Real”. O grande marco da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi o Plano Real. No Ipea, nós fomos os primeiros a mostrar que o Real tinha diminuído a pobreza. Um ganho veio da estabilidade, do fato de o cidadão poder prever o futuro, sair da inflação de 40% ao mês. Em certo sentido, isso se repetiu em 2003, quando Lula assumiu a Presidência e mostrou aos mercados que manteria as regras e contratos. Depois vieram os programas sociais em grande escala e a volta do crescimento econômico. A classe C no Brasil aumentou de 32% para 37% com o Plano Real. Com o “segundo Real”, agora, passou de 37% para 52%.

E, para quem gosta de taxa de crescimento de dois algarismos, lá vai:

O crescimento da renda per capita dos pobres de 2001 a 2008 foi de 72%. Fazendo uma conta simples, dá quase 10% ao ano – semelhante aos índices chineses. Com uma diferença. O (economista Carlos Geraldo) Langoni (diretor do Centro de Economia Mundial da FGV), que esteve na China recentemente, me disse que ela parece o Brasil dos anos 60: crescendo muito, mas com a desigualdade aumentando. O crescimento geral da economia brasileira é menor em quantidade, mas melhor em qualidade, em relação à China. Somos uma democracia – e vimos ao longo da década de 80 o quanto aprender a ser uma democracia gera custos econômicos -, nosso tratamento ambiental é melhor, ainda que com problemas, e o caráter desse crescimento é outro, distributivo.

Só para repetir: o crescimento da renda dos pobres em menos de uma década foi de 70%!!!

A propósito, tem um negócio que me deixou meio confuso:

Economistas como Claudio Dedecca, da Unicamp, afirmam que não se pode falar em queda de desigualdade, uma vez que a diferença entre a renda do capital e do trabalho continua crescendo no País…

Discordo. Primeiro porque a gente não sabe bem o que houve com a desigualdade entre capital e trabalho: há problemas de medição, é muito difícil captá-la. E existe toda uma tradição de linha marxista com esse foco, que abomina o crescimento do capital no Brasil como se ele fosse o problema. Minha linha é outra: precisamos de um “choque de capitalismo” para os pobres. A pergunta da Pnad é simples: Quanto dinheiro você tem no bolso? É a soma da renda do trabalho, do que o aposentado da família ganha de pensão, do valor recebido dos programas sociais. Para o cidadão comum, é isso o que importa: o conforto que ele leva para a casa da família. E você nota que o bolso do pobre cresceu mais, proporcionalmente, que o do rico.

Faz um tempo que eu ouço essa história de que a desigualdade não caiu porque a diferença capital/trabalho cresceu. Eu nunca comentei muito isso porque nunca entendi o que queria dizer; jamais me passou pela cabeça que viesse do Marx. Alguém tem um texto teórico que explique isso?  Minha impressão inicial é que está erradaço. Aquelas proporções d’O Capital não são medidas de bem-estar individual, servem para outra coisa.

O Néri parece ser um dos poucos caras que estão prestando atenção no que se passa, um dos poucos caras acordados.

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Super Bowl

O New Orleans Saints, para alegria do Idelber, ganhou o Super Bowl. Eu não entendo muita coisa de futebol americano, mas a virada foi emocionante, mesmo.

E é legal ver a cidade se reerguer depois da tragédia que foi aquela aberração da natureza causando aquela devastação toda e deixando todo mundo se afogando no esgoto. E depois do Bush ainda teve um furacão desses aí por lá.

Falta perguntar ao Pat Robertson se a vitória foi por causa do Vodu. Certo, a maior parte da população lá é cristã, e o coitado do Idelber é um ateu que não se mete nessas brigas, mas, quando tem furacão, não é disso que lembram.

Fiquei curioso também de saber qual é o time de futebol da cidade de São Luis de Paraitinga para apostar na loteria, já que o Olavo de Carvalho falou que Vodu, Exu, Saci, Harry Potter, Obama, é tudo a mesma coisa, tudo parada nascida no Quênia que faz o pau cair.

UPDATE: Rapaaaaaaaaz, olhem só quem pegaram fazendo pacto com o capeta!

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O Lulismo

Em artigo recente na Novos Estudos CEBRAP (leiam esse negócio), o André Singer (cientista político, ex-porta-voz do Lula) apresenta uma análise sobre o “lulismo”, fenômeno que definiremos em um instante. Esse é o tipo de artigo de que nós andamos precisando, uma coisa um pouco mais distanciada da briga política mais imediata, mas que dá mais consistência à discussão. Vamos aos argumentos.

1.

Houve um descolamento muito grande de votos ocorrido entre 2002 e 2006. Embora Lula tenha vencido Serra e Alckmin pelos mesmos 20 milhões de votos, não são os mesmos 20 milhões de votos. Em 2002, embora Lula tenha tido muito mais votos que na eleição anterior, repetiu o perfil que vinha desde 1989, vencendo nas cidades maiores, e com mais votos entre eleitores com maior nível educacional e maior renda.

[rápido esclarecimento: o Brasil é um país muito pobre, de modo que, nas classificações utilizadas para pesquisa, o grupo de maior renda não é milionário, não, é o pessoal que ganha mais de 4 ou 5 mil]

Em 2005, exatamente enquanto eclodia a crise do Mensalão, um deslocamento tectônico acontece, e, ao mesmo tempo em que Lula começa a cair entre os formadores de opinião, começa a disparar entre os eleitores muito pobres (50% da população). O artigo traz um excelente resumo das políticas que produziram esse resultado: BF, obviamente, Salário Mínimo, obviamente, mas também crédito consignado, Luz para todos, o sucesso da política econômica, etc.

Em 2006, Lula ganha com o voto desses pobres. Mas o que justifica falar em lulismo é que o PT mantém exatamente o mesmo padrão anterior: continua ganhando nas maiores cidades e perdendo nas menores.A grande contribuição do artigo é mostrar esse deslocamento, que é algo raro.

Mas como devemos interpretar esse deslocamento? Nessa tarefa muito mais difícil, o Singer se sai menos bem.

2.

Pesquisas do começo do ano 90 sugerem que o eleitorado muito pobre (50% do eleitorado) tem perfil conservador. Por exemplo, entre os muito pobres havia muita gente disposta a usar o exército para reprimir greves. E a auto-identificação esquerda/direita em pesquisas brasileiras constantemente dá que há muito mais direitistas que esquerdistas (nesse caso, as pesquisas apresentadas são mais recentes).

No que se refere ao segundo ponto, se eu entendi direito a Tabela 5, os eleitores de direita defendem mais a intervenção do Estado do que os de esquerda. Na pesquisa de 2006, Lula vence disparado, com a mesma proporção, na esquerda e na direita (tem menos votos no centro). E aí é que vale lembrar que, nessas pesquisas sobre valores, é sempre importante tentar entender o que é que as pessoas acham que está sendo perguntado.

Como nota o Singer, os mais pobres parecem estar fazendo o corte esquerda/direita na linha de desordem/ordem, não na linha igualitarismo/liberalismo. Assim, não lhes parece contraditório votar entusiasmadamente em Lula, que agora é o presidente, uma figura da ordem, que manteve a política econômica do FHC e não subverteu muita coisa, para que ele distribua renda, algo que desejam fortemente, como seria de se esperar.

O Lulismo, então, seria a combinação de uma aspiração por igualdade associado à aversão à contestação mobilizada, característica da parcela da população pobre “desorganizada” (fora de sindicatos, associações de bairro, etc., o que não quer dizer que não tenham suas próprias formas de solidariedade: lendo o Singer, pensei no sucesso do Lula entre setores evangélicos, além, é claro, da tradicional base católica progressista).

O problema com esse procedimento, naturalmente, é que, quando você diz, digamos, que 60% dos pobres votam no Lula, e 60% dos pobres torce pelo Flamengo, você não sabe se são os mesmos 60%. Certamente há eleitores do Lula que torcem pelo Flamengo, mas eles podem, inclusive, ser minoria. Em um exemplo extremo, pode ser que os 40% dos malditos não-flamenguistas sejam eleitores do Lula. Nesse caso, 2 em cada 3 dos Lulistas se decepcionarão todo campeonato.

Há casos em que é fácil distinguir com bom senso (se 50% forem judeus, e 50% anti-semitas, não é muito provável que haja muito overlap). Mas esse talvez não seja um desses casos. Assim, embora a maioria dos pobres seja conservadora, e a maioria dos pobres vote no Lula, nada prova que seja a mesma metade nos dois casos. Eu apostaria, sim, que tem um overlap grande, mas não sabemos o tamanho.

[Se não me falha a memória, o Gary King, fodão da balaxita em Harvard, tinha um método qualquer para lidar com isso. Se alguém se interessar, dê uma olhada]

3.

Suponhamos, com o Singer, que há um enorme contingente de pobres que apóiam Lula com entusiasmo, mas não são de esquerda, nem votam no PT. Há, naturalmente, algo de populismo nisso:

Árbitro acima das classes, o lulismo não precisa afirmar que o povo alcançou o poder ou que “os dominados comandam a política”, como na formulação que Oliveira foi buscar na África do Sul pós?apartheid.Ao incorporar tanto pontos de vista conservadores, principalmente o de que a conquista da igualdade não requer um movimento de classe auto-organizado que rompa a ordem capitalista, como progressistas, a saber, o de que um Estado fortalecido tem o dever de proteger os mais pobres, independentemente do desejo do capital, ele achou em símbolos dos anos de 1950 a gramática necessária. A noção antiga de que o conflito entre um Estado popular e elites antipovo se sobrepunha a todos os outros poderá cair como uma luva para o próximo período. Agora enunciada por um nordestino saído das entranhas do subproletariado, ganha uma legitimidade que talvez não tenha tido na boca de estancieiros gaúchos. Por isso, se a hipótese do realinhamento se confirmar, o debate sobre o populismo ressurgirá das camadas pré?sal anteriores a 1964, em que parecia destinado a dormir para todo o sempre.

Essa tendência existe: vejam esse editorial da Carta Capital sobre discurso do Lula elogiando Vargas. Resta saber se isso é Lula se rendendo ao Varguismo ou Lula reinterpretando o Varguismo para dentro do discurso petista. No primeiro caso o PT passa a ser só corrente de transmissão de Lula, no segundo o Lulismo, o mito político Lula, abre caminho para uma expansão do voto no PT. Não sabemos ainda para que lado isso vai.

Mas isso nos traz à última, e mais importante, dimensão do problema: o risco de despolitização, abordado pelo Giannotti em artigo do Estadão de domingo passado. Embora esse Lula tenha dado uma série de coisas aos mais pobres, não lhes deu poder. Os mais pobres não estão mais organizados depois do governo Lula.

Isso é importante, porque, a princípio, o deslocamento do voto da esquerda para os mais pobres era o objetivo da esquerda desde o início, e é coerente com o que se vê ao redor do mundo. Vejam esta citação de Lula em 1990, logo no começo do artigo do Singer:

A minha briga é sempre esta: atingir o segmento da sociedade que ganha salário mínimo. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra nós, e não há porque perder tempo com ela: não adianta tentar convencer um empresário que é contra o Lula a ficar do lado do trabalhador. Nós temos que ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir pela promessa fácil de casa e comida16.

A questão, naturalmente, é que espera-se que a liderança entre os pobres seja conquistada através da mobilização política, não de políticas públicas. Esse bonapartismo lulista correria o risco de ser uma ressureição do populismo, em que o caudilho paira como “pai dos pobres”, distribui benesses, mas não lhes dá acesso ao poder, e reprime sua organização.

Bom, em primeiro lugar, essa análise abstrai fácil demais a diferença entre, como diz o Singer, o retirante e o estancieiro que viram líderes populares. O retirante virou líder popular através de um longo processo de luta política altamente sindicalizado, inteiramente “de baixo para cima”. Embora o PT tivesse bons resultados eleitorais nas áreas mais desenvolvidas (onde, inclusive, havia um proletariado industrial mais forte), ele organizava os de baixo.

Ainda é cedo para saber o efeito do lulismo sobre a organização popular. Pode ser, por exemplo, que o voto no PT siga com atraso a mesma trajetória, e, com o PT, chegue a cultura de mobilização que, muito antes de FHC, em São Bernardo, acabou com a “Era Vargas”. Os sinais de indefinição política observados pela pesquisa, como o número de pessoas que não sabe se definir no espectro direita/esquerda, pode simplesmente refletir um iminente realinhamento ideológico.

É desnecessário dizer que esse realinhamento deveria ser um dos principais focos do PT no Pós-Lula. Mas eu tenho sérias dúvidas a respeito da possibilidade de sucesso aqui. Porque o PT tem que entender que, em muitos aspectos ele foi ultrapassado ideologicamente pela população mais pobre, que está agora à sua frente nos debates. Se o PT resolver ser tucano com os mais pobres, e achar simplesmente que não tem nada a aprender, o PT não serve mais pra porra nenhuma.

E o que os “lulistas” têm a ensinar ao PT? Em primeiro lugar, que eles devem ser prioridade para a política de esquerda, com o que quero dizer: não são os funcionários públicos a prioridade, não são os estudantes universitários a prioridade. Os funcionários públicos devem receber exatamente a mesma atenção reservada aos demais trabalhadores, e, quando seus interesses contrariarem os do conjunto dos trabalhadores, a escolha tem que ser fácil. Os estudantes universitários que, por idealismo, quiserem apoiar a esquerda, serão bem-vindos. Mas ninguém precisa deles como cartório.

Nenhum partido vai ser idiota de alienar os setores que o defendem com mais vigor, e o PT tem uma forte base no funcionalismo público. Mas é preciso ter visão, porque a base social do partido não pode se limitar a esses setores altamente organizados. O PT deve ser o lugar da negociação entre os setores organizados e desorganizados, deve se mover a passos lentos, mas a direção é clara: ampliar a base do partido para além dos setores mais organizados, organizando-os.

O caso mais difícil é o dos trabalhadores sindicalizados que, indiscutivelmente, ainda são a base da esquerda em toda parte. Pois é preciso enfrentar a questão da informalidade do trabalho, que, volta e meia, gera conflitos entre os formalizados e os informalizados. O Mangabeira tinha um esboço de proposta de desoneramento da folha de pagamento que poderia ser um bom ponto de partida para esse diálogo.

E, finalmente, o ponto em que os lulistas estão milhas à nossa frente é em aceitar a política econômica responsável. Não adianta você dar cinquenta reais por mês de BF para o cara e deixar e inflação transformar em 30 em três meses. Não adianta aumentar o mínimo em 10% ao ano se você deixar a inflação ser mais que isso. É preciso dar atenção à reinvindicação de estabilidade por parte dos mais pobres, inclusive no campo da segurança pública.

Os muito pobres defendem a estabilidade porque eles são os caras na posição mais frágil: qualquer sacudida no barco, eles vão pro fundo. O pessoal, especialmente dentro do PT, que pede uma política com mais emoção, sei lá, menos careta, antes tem que nos provar que não vai afundar essa galera.

PS: O Chico de Oliveira andou dizendo que o Lulismo é a hegemonia às avessas: a classe trabalhadora exerce o poder, mas implanta o programa do capital. Só vi citado, não li no original, mas, a princípio, Navalha de Ockham: isso seria a glória suprema da hegemonia capitalista, não algo que exija um novo conceito.

PSTU: citado no artigo do Singer, artigo de célebres blogueiros brasileiros!

PSTUdoB: vou deixar para comentar as reportagens sobre os 30 anos do PT na Folha em outro post.

PSOL: com um sono miserável, não vai dar pra editar muito o post, não. Quem achar erro, avise.

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Momento Japajato

Para animar o fim-de-semana, o comentário do Japajato no post em que eu perguntei se era possível que post com muito comentário atraísse mais spam:

Acho que se você adotasse uma linha mais extrema em seus posts ao invés de equilibrá-los bem, fazendo os contrapontos devidos (diferente de ser neutro) e com cavalheirismo [Ladyboys who want to "meat" you!!!] como você faz, muitos dos comentadores nem viriam aqui.

Por isso adorei o post sobre Stalingrado, cara, só não comento lá porque não tenho nada a acrescentar, só senti falta de mencionarem a influência dos desdobramentos da Guerra Civil Espanhola [Las transchicas más hermosas del mundo están esperando por ti!!!] .

Quero dizer: acho que as pessoas com opiniões mais extremas comentam mais em blogs que estão mais para fiéis da balança[Lose 50 pounds in 2 weeks!!!] do que em blogs no lado oposto do espectro ideológico.

Quanto ao spam, é isso mesmo, os caras tem uns applets que listam posts mais comentados e dirigem o spam é impossível manter um blog sem passar um pente fino [No dice for lice!!!] na caixa de comentários. Ouvi dizer até que alguns spambots editam comentários já postados de acordo com palavras chave e perfil do comentador.

Um abraço do Japa[Whining about your wiener? Gain 6 inches in 3 weeks!!!]jato.

Japajato é bom no que faz, mas o que ele faz não é nada bom.

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Como se faz jornalista

Olha só, não quero parecer colonizado e baba-ovo de gringo, mas, sem sacanagem, olhem essa chamada para ser estagiário da The American Prospect:

Applicants are asked to submit the following:

A short critique of:
1) one of the following three pieces: “Don’t Blame the Billionaires,” by Dalton Conley; “Gentrification Hangover,” by Alyssa Katz; “The Ultimate Test Case,” by Tim Fernholz
2) one additional Prospect piece of your choosing.
This portion of your critique should engage with the argument of the pieces.
A short critique of our group blog TAPPED. This critique should address style, clarity, readability, voice/place in the political dialogue, as well as more substantive questions of content. What works? What doesn’t?
Two written recommendations.
Three to four writing samples. These can include newspaper and magazine clips, academic papers, blog posts, and unpublished pieces — anything that demonstrates exceptional writing and analytical ability.
Three story ideas for The American Prospect.
Your resume.
Your college and (if applicable) graduate school transcripts.

Maneiríssimo, não? Tá aí, fica a sugestão para as revistas brasileiras: copiem essa idéia. Se alguém aqui se achar elegível, eis o link do processo de seleção.

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Eleições 2010: a amostra das pesquisas (II)

 

O Cristiano respondeu ao meu post anterior. Como a resposta é interessante, e minha tréplica ficou grande demais para o Intense Debate, aqui vai ela:

Cristiano, obrigado pela resposta. Eu ia te mandar um email, mesmo, porque, ao contrário do cara lá do sapato, seu texto sugere que você entende desse troço, e está sinceramente interessado no aspecto estatístico da questão. Vamos lá:

Por exemplo. Imagine que desejamos saber a demanda por shampoo masculino e sabemos que 50% dos homens tem cabelo e 50% são carecas, em uma população de 100 homens. Daí resolvemos sortear 10 homens aleatoriamente. Rodamos a urna e escolhemos 9 carecas e 1 cabeludasso. Qual a probabilidade de esse sortei ocorrer? Muito baixa. Qual o valo desta pesquisa? Também muito baixo, porque eh pouco representativo da populacao.

Bem, creio que com um tamanho adequado de amostra, um sorteio que desse essa proporção seria um freak of nature total, não? Porque deveríamos supor que isso ocorreu agora? Lembrando, nós saberíamos que a amostra dos carecas estava errada só se soubéssemos, ou pelo menos tivéssemos uma boa idéia, de qual a amostra real. No caso da pesquisa, naturalmente, não sabemos.

Lembremos que as características que estão sendo discutidas se referem a cidades (este é o meu ponto), não a pessoas; se o número de entrevistados  analfabetos, por exemplo, fosse 30 pontos percentuais maior que o número de analfabetos na população, aí, sim, estaria tudo furado. Se as cidades sorteadas tiverem analfabetismo 10 pontos acima da média, isso pode não querer dizer nada, porque, inclusive, nada garante que os entrevistados naquela cidade são analfabetos.

Aparentemente a pesquisa do Vox Populi sorteou cidades com um perfil de educação, renda etc (nem entro na questao de como foi a votacao na eleicao passada, ou como eh a distribuicao do bolsa familia) que não representa a populacao. Esta é a critica. Ou seja, ao rodar a urna, um evento de probabilidade baixa ocorreu.

Repito: só pelos dados que estão sendo discutidos, não sabemos se a amostra do VP, ou da Sensus, não são representativos. A propósito, nos bancos de dados que eu já vi (um dos quais por looooongos sete anos), no livro-código do banco de dados, ou em algum relatório que o acompanha, há a comparação dos indivíduos amostrados com dados do censo, justamente para checar essas coisas. Não sei se no Brasil se faz isso, mas deve existir algo assim. Aí, sim: se a amostra do Instituto tiver duas vezes mais, sei lá, pobres, ou negros, ou adoradores de Elvis, enfim, qualquer característica que nos pareça relevante nesse caso, está furado.

Mas, com o risco de ser repetitivo, repito (pois é): a amostra tem que ser aleatória para os indivíduos, não para as cidades.

A questao que mais me intrigou foi a distribuicao dos votos do Ciro entre Serra e Russeff, quando o primeiro sai da pesquisa. Este resultado também tem probabilidade muito baixa, dados os historicos de pesquisas anteriores.

Ah, sim, esse resultado é muito interessante. Mas, se você pensar, não é tão improvável, não. Na tabelinha aí de baixo tem os resultados de Serra, Dilma, Marina e Indecisos, com e sem Ciro (que tem 11,9% das intenções), e a diferença entre as duas colunas(dados tirados o ótimo arquivo de pesquisas do UOL):

          S/   Ciro           Ciro   Diferença
Serra 40,7 33,2 7,5
Dilma 28,5 27,8 0,7
Marina 9,5 6,8  2,7
Indecisos 21,4 20,4 1
Soma das Diferenças 11,9

A conclusão simples, e excelente para sua candidatura, é que Ciro começou a tirar voto de Serra. Isso pode ter acontecido, pode não ter acontecido, mas  não é absolutamente improvável. O Ciro não tem perfil de petista. E, , se o cara não quer votar na Dilma, vai ter que votar no Ciro, porque Serra continua Missing in Action.

Mas, claro, pode ser ponto fora da curva, vamos ver. Por exemplo, na margem de erro, essa queda de 12 pontos de diferença para 6 pode ter sido de, digamos, 4 pontos, ao invés de 6.

De qualquer maneira, valeu, aí, Cristiano, pela resposta, e parabéns pelo blog.

PS: na primeira pesquisa encomendada pela candidatura Marina Silva, o resultado é praticamente igual aos de Vox e Sensus, com diferença de 5 pontos entre Serra e Dilma na estimulada (com Ciro).

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Eleições 2010: as amostras das pesquisas

Pelo Igor, cheguei no Gustibus, do Gustibus cheguei no Cristiano Costa, e de lá cheguei no bizarramente nomeado Coturno Noturno, atrás de uma denúncia de viés na amostragem das últimas pesquisas, nos dois últimos blogs.

Eu não sei, sinceramente, se entendi a crítica feita. Eu entendi que o Cristiano e o Coturno estão criticando a amostra da pesquisa porque ela inclui um número desproporcional de cidades onde Lula venceu em 2006. Ou seja, reformulando a proposição, a amostra das cidades não é aleatória. Eu tenho quase certeza de que isso é o que disse o Coturno, estou menos certo a respeito do Cristiano. Vou supor que seja o caso, se não for, vocês me avisam, eu retiro a objeção.

Se essa for a crítica, ela está errada. Na verdade, me parece tão obviamente errada que eu que devo ter entendido errado. Porque não imagino porque a distribuição das cidades deveria ser aleatória. Aliás, se estou entendendo certo isso tudo, a pesquisa seria inútil se a distribuição das cidades fosse aleatória.

Imaginem o seguinte: o DataCoturno faz uma pesquisa e quer refletir exatamente a proporção de cidades que foi para cada candidato. O razoável, nesse caso, seria sortear as cidades, simplesmente. Calculem agora a probabilidade de uma amostra recolhida assim não incluir as grandes capitais. É bem razoável. A distribuição do tamanho das cidades tem  poucas cidades grandes e um imenso número de pequenas cidades. Haveria uma probabilidade razoável da amostra ter apenas cidades pequenas. É bastante provável que São Paulo não entrasse na pesquisa.

De que valeria essa pesquisa? De nada, obviamente. A unidade a ser amostrada são indivíduos, não cidades. O que tem que estar amostrado aleatoriamente são os indivíduos. Olha só, eu acho óbvio o que eu estou dizendo, de modo que o sono deve estar atrapalhando meu julgamento.

Não vou mentir pra vocês que eu fui no site do TSE checar como foi feita a pesquisa, mas, se não for nada muito heterodoxo, eles devem ter sorteado as cidades de modo a que as cidades maiores tivessem maior chance de ser sorteadas (weighted, não sei como traduz isso). Isto é feito porque a amostra pretende refletir a distribuição da população, e parte disso é que a população é distribuída de maneira desigual, beeeeem desigual, entre as cidades.

Tá errado isso que eu estou dizendo? Me parece óbvio. Desçam o pau aí se estiver errado. Vou dormir.

PS: não estou dizendo que a amostragem está certa, para saber disso teria que fazer uma continha miserável. Só estou dizendo que esse argumento para dizer que está errado está, bem, errado.

PSTU: nessa de ir lá no tal do Coturno, acabei descobrindo uma história espetacular sobre Arres Ésoj . Parece que o Vox Populi apresentou ao TSE uma cópia do disco de papel utilizado para apresentar os nomes dos candidatos aos entrevistados (é redondo para evitar vantagem para quem aparecer primeiro) no qual aparecia o nome do Serra escrito ao contrário. O VP disse ao Noblat que a transmissão do arquivo ao STE deu errado, e isso aconteceu também em Goiás. O cara do Coturno não levou fé, deu uma esculhambada no Noblat, e continua achando que a entrevista foi feita com esse papel. Pessoalmente, ficaria surpreso se Arres Ésoj tivesse conseguido ficar em primeiro na pesquisa. Naturalmente, o teste disso é ver se o VP discorda muito das outras pesquisas. O Sensus saiu mais ou menos igual, creio eu.

PSTUdoB: fui dormir mas voltei porque me ocorreu o seguinte: Sem nem olhar para os dados (que beleza, não?), chuto que a explicação para o padrão encontrado pelo Coturno é a seguinte: Lula se saiu melhor nas cidades pequenas que nas grandes. O número de cidades pequenas é bem maior que o número de grandes, logo, mesmo com os weights (ponderações?), a probabilidade de uma cidade pequena ser sorteada é maior. Lembrando sempre que o número de entrevistados não é o mesmo em cada cidade. Se alguém tiver saco de testar isso, me diga se está certo. Deus queira que eu não esteja escrevendo qualquer merda achando que estou escrevendo um puta troço. Bom, boa noite de novo.

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Laerte de novo

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Aviso

Pessoal, somando a despedida do Hermenauta e a aula que vocês estão me dando nos comentários sobre Stalingrado, ontem foi, disparado, o dia em que chegaram mais comentários aqui (inclusive em posts mais antigos). Ao mesmo tempo, chegou uma inundação de spam (será que tem a ver uma coisa com a outra? Os robots do spam procuram posts com muitos comentários? Sei lá), de modo que vou demorar um pouco para liberar os que tiverem ficado parados na fila do antispam. Se o seu sumiu, avise na caixa desse post que eu procuro na fila e publico. Abração, e valeu!

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Hermenauta

Pois é, o melhor blog do Brasil hibernou. A aiaiai conseguiu tirar do cara a informação de que é porque ele vai ter filho, de modo que as notícias são, de fato, excelentes. Criança é a melhor coisa que existe.

Mas, na mesma semana em que o Alto Volta acabou, não deixa de dar um certo desânimo. A blogosfera é uma rede e um debate, e sempre cai o nível quando os melhores nós saem.

Concordo com o Sergio Leo, que disse uma vez que o Hermenauta era o único blog brasileiro comparável aos grandes lá de fora. Em vários momentos, doutrinou completamente a grande imprensa: na verdade, eu fiquei alguns meses, durante o final da última revisão da tese, me informando exclusivamente lendo o Hermenauta. Antes de eu ter Google Reader, ele e o Torre de Marfim eram os únicos blogs que eu ia checar todo dia, em geral, mais de uma vez.

Uma das coisas que eu já vi gente que não concorda com o Hermenauta em nada admitir é que o cara aprendeu a utilizar a linguagem de blog muito mais rápido do que os outros. Algumas coisas básicas que os novos blogueiros podem aprender lendo o arquivo do cara: alternar posts longos e curtos, leves e densos, de política conjuntural e de coisas mais distanciadas; como inserir imagens e vídeos pertinentes ao assunto (muitas vezes, colocando legendas engraçadas); e, algo que eu, por exemplo, não sei fazer direito, começar discussões com outros blogs brasileiros. Tudo bem que o Marginal Revolution e o Andrew Sullivan são feras, mas só vai haver blogosfera brasileira se houver discussão brasileira.

A verdade é que boa parte da blogosfera política brasileira ainda não pegou bem a manha do jeito que os gringos pegaram. Os jornalistas ainda escrevem artigos, os acadêmicos ainda escrevem posts muito longos. Melhorou bastante nos últimos tempos, mas ainda não amadureceu. Assim como o David, do Alto Volta, sabe usar imagens muito melhor que a gente, o Hermenauta sabe montar o texto bem melhor do que a gente.

Muita gente reclamava do Hermenauta ficar o tempo todo criticando o Reinaldo Azevedo. Pessoalmente, acho que ele deve ter enchido o saco disso. Mas alguém tem que fazer, galera. O Krugman é muito melhor que os supply side guys, mas, se ele disser, ah, não, só discuto com quem também tem Nobel, os supply side ganham a eleição. É até sacanagem comparar a Sarah Palin com o Andrew Sullivan, mas o Sullivan sabe que, se ninguém for atrás, a dona ganha controle do arsenal nuclear.

Eu não fico discutindo o Reinaldo Azevedo porque não tenho QI suficiente para perder dez pontos cada vez que leio uma de suas colunas e continuar sendo capaz de lembrar que cor do sinal de trânsito quer dizer o que. Mas vamos ter que bolar um revezamento, agora.

E aproveito para esclarecer um negócio: em certos círculos, o Hermenauta ficou com fama de radical de esquerda por criticar os “anaeróbios”. Polêmicas à parte, me parece que o cara era um “liberal” americano: um cara de centro-esquerda bem centrista, a favor do laicismo, que acabou ficando meio chocado com a predominância da galera do Olavo no começo da blogosfera brasileira. É o tipo de cara que o PSDB recrutaria se o PSDB ainda tivesse alguma identidade social-democrata, ou, enfim, se servisse para alguma coisa. Vários dos meus amigos têm esse mesmo perfil.

A blogosfera política brasileira ainda é pouco densa para gerar as oportunidades profissionais que a equivalente gringa gera. Não é questão de ser ProBlogger (nada contra, tampouco), mas os blogueiros gringos de destaque vendem cem vezes mais livros do que venderiam sem blog (Tyler Cowen), passam a ser atores políticos de peso (Daily Kos), e têm imensas oportunidades de networking. Isso tudo existe no Brasil, mas ainda em proporção muito menor. Enquanto for assim, a tendência é os blogueiros entrarem e saírem da blogosfera periodicamente, revezando com outras obrigações profissionais e familiares.

Enfim, eu às vezes acho engraçado pensar que eu não sei o nome do Hermenauta, nem nunca vi esse cara. Tenho a impressão de que tive mais discussões inteligentes com ele do que com boa parte das pessoas que eu conheci pessoalmente (e olha que eu conheço gente inteligente). A maior homenagem que eu vi fazerem a um blogueiro foi um colega meu que apostou que o Hermenauta era várias pessoas, ninguém ia conseguir escrever tanto sobre tantas coisas diferentes. Tem cara de ser um sujeito muito fera, para quem certamente devem aparecer oportunidades interessantes toda hora.

Por isso, seja lá quem você for, chefia, obrigado por tudo e boa sorte!

PS: quando o (a) garoto (a) crescer, pode deixar que já está registrado.

PSTU: Matamoros, se for acabar com a Torre, espera uns meses. Se eu ficar só fazendo despedida de blog, ninguém mais vai ler isso aqui.

PSTUdoB: ando meio com medo de isso tudo ser uma “rapture” de bons blogueiros, e de eu ter ficado para trás. Puta Merda.

UPDATE: último comentário lá n’O Hermenauta, abaixo do fold.

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