Na Prática a Teoria é Outra Rotating Header Image

Dois posts que você tem que ler:

O André comentando um paper do IPEA sobre o quanto nóis paga imposto e ni qui qui o Lula os gasta. E Leo Monasterio discutindo a teoria das trocas desiguais (minha opinião: testar isso parece ser difícil pra cacete, conceitualmente).

Brad DeLong em defesa de Greenspan

Esse artigo é fundamental. Idéia básica: em retrospecto, o Greenspan errou em baixar os juros no começo dos anos 2000, inflando a bolha. Mas, se você estivesse no lugar dele, na hora, teria aumentado os juros - e causado desemprego, etc. - mesmo sabendo que a inflação já estava sob controle? Afinal, não é claro que os juros do Greenspan estivessem fora de compasso com a medida tradicional para estas coisas:

People claim that Greenspan’s Fed “aggressively pushed interest rates below a natural level.” But what is the natural level? In the 1920’s, Swedish economist Knut Wicksell defined it as the interest rate at which, economy-wide, desired investment equals desired savings, implying no upward pressure on consumer prices, resource prices, or wages as aggregate demand outruns supply, and no downward pressure on these prices as supply exceeds demand.

On Wicksell’s definition — the best, and, in fact, the only definition I know of — the market interest rate was, if anything, above the natural interest rate in the early 2000’s: the threat was deflation, not accelerating inflation. The natural interest rate was low because, as the Fed’s current chairman Ben Bernanke explained at the time, the world had a global savings glut (or, rather, a global investment deficiency).

O problema, portanto, seria o cruzamento “consumo alto nos EUA” x “poupança alta no resto do mundo” (o “savings glut”). Que é assunto pra outro post, pois ainda não li o debate todo sobre o que causou esse troço. O importante aqui é deixar claro que a decisão do Greenspan é perfeitamente coerente com o cara fazer o que era mais ou menos padrão. A situação é que pode ter sido inédita.

Império Mundial Argentino

Vocês reclamando da falta de uma organização política mundial, e já tem uma em pleno funcionamento, inteiramente capaz de impedir conflitos entre seus membros. Trata-se de uma entidade agressivamente imperialista, e inteiramente baseada no preconceito étnico contra os membros de outros grupos.

Direitos Civis Suspensos em Honduras

Do UOL:

“A medida autoriza a prisão de pessoas por mais 24 horas e suspende garantias como a liberdade de associação e reunião, e o direito de livre circulação”, declarou a deputada Doris Gutiérrez, do partido Unificación Democrática, de esquerda.

Marcia Villeda, do partido Liberal, acrescentou que a iniciativa apresentada pelo presidente interino “é basicamente uma restrição parcial, que estará vigente junto com o toque de recolher”, que acontece das 22h às 5h.

Rapaz, ainda bem que não foi golpe, porque, se fosse, hein?

Plano Real, 15 anos

Na festa de debutante do Plano, que foi, de fato, um marco e uma ótima idéia (ao qual eu me opus na época porque era burro pra cacete) ótimo post do André.

O “Manifesto Capitalista” de Fareed Zakaria

Um espectro ronda NPTO: o espectro de uma porrada de assuntos que eu só lembro de abordar quando já passou uma semana. O manifesto do Zakaria saiu na Newsweek da semana passada. Aliás, já tinha ouvido falar do novo formato da Newsweek, com mais artigos de opinião e menos noticiário, mas só agora vi: ficou bonzão. Naturalmente, faz tempo que estou na vanguarda dessa tendência, uma vez que aqui eu encho o saco de vocês com minhas opiniões, mas não lhes forneço uma única informação nova, a não ser, é claro, sobre a campanha do Suriname nas eliminatórias da copa.

O manifesto diz o seguinte:

1 - A crise é feia, mesmo, mas talvez já tenha estabilizado. Em crises recentes, também se achou que seria necessário reinventar o capitalismo de cima a baixo, mas não precisou, não. O Shiller, por exemplo, parece achar que nós precisamos é de mais derivativos, não de menos (resenha do Shiller aqui em breve).

2 - O capitalismo, se nos permitem a milésima paráfrase de Churchill (permitimos, Fareed, vai lá e fala!), é o pior sistema do mundo, à exceção de todos os outros. Para ficar só nos anos recentes, tirou centenas de milhões de pessoas da miséria extrema na Índia e na China. Mas tem mesmo esse problema de, bem, de vez em quando ter uma crise imensa e mandar tudo pro brejo.

3 - Mas aííííííííííí é que está! Não foi o capitalismo que nos mandou pro brejo: foi o mercado financeiro. A Coca-Cola, a Microsoft, o Wal-Mart e os Biscoitos Globo continuaram usando modelos de negócios mais conservadores, e, embora estejam apanhando por causa da crise, não causaram a crise. Como disse o Zakaria, mesmo a comparação com os cassinos é sacanagem com os cassinos, porque eles são obrigados por lei a reservar uma grana razoável para pagar o prêmio de quem ganha (o problema dos cassinos, naturalmente, é o George Clooney e a turma dele - NPTO). Aliás, quem também é obrigado a manter uma reserva razoável,  são os bancos no Canadá, que também não podem alavancar tanto assim,  e se saíram muito melhor do que os americanos na atual crise. O Zakaria poderia acrescentar o caso brasileiro.

4 - Ah, mas o governo americano ficou sem nenhum instrumento para regular a economia? Não, ainda tinha uma coisa que o Greenspan podia fazer quando tudo fosse para o saco: abaixar os juros para reativar a economia e evitar uma crise. Como era só isso que tinha pra fazer, foi só isso que ele fez: baixou os juros por causa da crise asiática, por causa da crise das dot.com, por causa do bug do milênio, por causa daquele maluco d’”A Fazenda”, enfim, bobeou, os juros americanos baixavam. Juro muito baixo favorece bolha.

5 - Enquanto isso, o capitalismo funcionava bem pra caramba na China e na Índia (e aqui, também), e os grandes países em desenvolvimento (como nós) juntaram umas reservinhas internacionais como pé de meia. Era dinheiro pra cacete, e nós íamos guardar onde? Claro, no investimento mais seguro do mundo, os títulos da dívida americana. Os títulos da dívida americana pagam esse juro do item aí de cima, que estava baixo, e quando todos nós aparecemos lá para comprar, a procura pelos títulos subiu, quem queria comprar topou juros menores (é equivalente a quando a procura faz aumentar o preço). Ou seja, os juros inflaram a bolha, mas eles caíram por causa de fatores estruturais pesados - a desregulação e o crescimento capitalista em BRICs e similares -, não porque o Greenspan seja uma mula, ou um comunista sem Deus.

6 - E o Greenspan também não atuou da maneira anti-cíclica que se esperava porque é difícil, em uma democracia, chegar para os eleitores e dizer, olha só, ainda não teve crise nenhuma, mas eu vou puxar o freio. O Zakaria não fala disso, mas eu acho que a crise também mostra que a independência do FED não era essa coisa toda. Duvido que não tenha havido pressão política sobre o Greenspan, ou que ele tenha sempre resistido a ela. O fato de que ninguém freou o consumo, aumentou impostos e reduziu programas governamentais durante o boom sugere falha do sistema político.

7- Há também uma crise moral: tudo (bem, quase tudo) que os investidores, contadores, auditores, banqueiros, e políticos fizeram era dentro da lei (ou pelos menos assim nos asseguram seus tão-éticos-quanto-eles advogados). Mas era sacanagem do mesmo jeito. O investidor que já sabia que ia dar merda, mas continuou apostando o dinheiro, não é um criminoso, mas fez algo errado. Acho essa parte do argumento menos convincente, mas talvez porque seja mais difícil extrair dela um conselho sobre o que fazer.

8 - Enfim, a crise é uma falha da globalização. Os últimos dez anos foram excepcionalmente bons: a renda per capita mundial teve o maior aumento jamais registrado, e a inflação se manteve sob controle. Mas a política se globalizou bem menos rápido que a economia. Diz o Zakaria:

More broadly, the fundamental crisis we face is of globalization itself. We have globalized the economies of nations. Trade, travel and tourism are bringing people together. Technology has created worldwide supply chains, companies and customers. But our politics remains resolutely national. This tension is at the heart of the many crashes of this era—a mismatch between interconnected economies that are producing global problems but no matching political process that can effect global solutions. Without better international coordination, there will be more crashes, and eventually there may be a retreat from globalization toward the safety—and slow growth—of protected national economies.

Esse último ponto não é bem explorado além dessas generalidades, entretanto, e é aí que o artigo não consegue ser “O” artigo que de nós estamos precisando. Enfim, como manifesto está bom. Falta “O que fazer?”.

UPDATE: foi mal, os comentários estavam desabilitados, já consertei. Valeu, He will be Bach!

Solidariedade a Honduras

 

(imagem do sempre excelente Alto Volta)

Golpe em Honduras

 
(esse post era para ter sido publicado ontem, não apareceu porque fui atualizar o wordpress e ele não chegou a entrar no backup; o mesmo aconteceu com alguns de meus comentários, e talvez com algum comentário de leitor; se seu comentário sumiu, foi mal)

De Teerã para Tegucigalpa: o presidente eleito de Honduras foi derrubado pelos militares. O Zayuela, que caiu, é uma figura algo estranha, porque foi eleito pela direita, mas acabou se aproximando do chavismo. O golpe foi no dia em que um plebiscito não-vinculante sobre uma nova assembléia constituinte seria realizado.

Duvido que gostasse muito do Zayuela se o conhecesse melhor, mas a hora é de se opor à violação das normas democráticas, como já fez, bem, todo mundo (inclusive os EUA). Embora essa política de plebiscito para permitir reeleição não seja um sinal de vitalidade democrática, bem, golpe de Estado é pior.

No Andrew Sullivan tem uns caras escrevendo “Honduras não é o Irã”, querendo dizer que em Honduras o golpe até que tem lá suas razões que a própria razão desconhece. Vou mandar o e-mail pra lá agora, vamos todo mundo: Teerã, Tegucigalpa, o mesmo combate. Nenhuma democracia é perfeita, temos que ficar do lado das opções menos imperfeitas, e o debate esquerda/direita é um debate que se deve fazer depois que se concordou com a democracia.

Quando souber de manifestações de solidariedade semelhantes às que apoiaram os manifestantes iranianos, postarei aqui (se alguém souber de algo, avise!).

O Idelber anuncia que manterá as atualizações pelo Twitter. Depois desse negócio do Irã, talvez seja hora de eu arrumar um negócio desses.

Dia de Solidariedade aos Trabalhadores Iranianos

 

 

 

              

Hoje é dia de solidariedade global aos trabalhadores iranianos presos pelo regime ultra-reacionário de Teerã. A manifestação foi convocada após a feroz repressão às manifestações do Primeiro de Maio, mas ganha novo significado depois da insurreição anti-Ahmadinejad, e, em especial, no momento em que o regime escancara a repressão mais selvagem contra os manifestantes.

Para mandar mensagem de protesto às autoridades iranianas, ou obter mais informações sobre o caso, é uma boa ir lá na Anistia Internacional.

A propósito, circula por aí a idéia de que, bem ou mal, não há provas de fraude na eleição iraniana. Bem, provas só haveria se deixassem auditar a eleição independentemente, o que, evidentemente, não rola. Mas os estudos de padrões estatísticos de votação no Irã mostram desvios ridículos do padrão recente. É como se hoje houvesse eleição no Brasil para presidente e Lula tivesse só 5% dos votos dos pobres e nordestinos (ou se ganhasse na seção casa do Bolsonaro com 90%). Vejam aqui e aqui. Para uma análise não-estatística de especialista na área, chequem o Juan Cole. Para medir a credibilidade média do regime, vejam isso.

Putaqueopariu, morreu o Michael Jackson!


Rapaz, nem sei o que dizer. Pra quem foi adolescente nos anos 80, era o maior fenômeno pop de todos os tempos. Cantava pra cacete, dançava pra caralho, mas, infelizmente, era doidaço. Intrigará os historiadores da cultura por séculos. Que Deus o tenha.

Rapaz, é como se tivesse morrido minha quinta série. Meu irmão sabia fazer o melhor “moonwalking” que eu já vi. Nessas horas, como nas outras, é bom ir ouvir o Sullivan. Havia uma dessas bandas “gastamos toda a criatividade pensando no nome da banda” que se chamava “Pop will eat itself”. Pois é. Também vale a pena ler o Trabalho Sujo, expert in all things pop.

O vídeo é de “Beat It”, minha música favorita do cara, com direito a arranjo de guitarra do Eddie Van Halen na guitarra.