Na Prática a Teoria é Outra Rotating Header Image

January, 2007:

Foucault e Hayek

Essa eu deixei passar, mas fui avisado a tempo pelo André: A The Economist (quem mais?) fez, na sua edição de final de ano, uma matéria sobre os pensadores pós-modernos e o capitalismo moderno. Brilhante. E vejam só essa:

“Os pós-modernos escreveram sobre praticamente tudo na sociedade – literatura, psicologia, punição, sociologia, arquitetura – exceto economia. Isso talvez fosse meio esquisito, visto que escreveram durante o mais longo boom econômico da história européia e no nascimento da cultura consumista. O único pós-moderno que tentou, tarde demais, lidar com essa ironia foi Foucault. Em uma de suas últimas palestras, em Janeiro de 1979, quatro meses antes de Margaret Tatcher chegar ao poder na Grã-Bretanha, ele chocou seus estudantes ao mandá-los ler os trabalhos de F.A. Hayek se quisessem conhecer “a vontade de não ser governado”.”

Unger e a Educação

Propostas do Mangabeira para a educação, formuladas em um artigo publicado na Folha em Dezembro:

“1. Assegurar piso salarial e plano de carreira aos professores em todo o país. O governo federal tem de se acertar com os Estados e Municípios e completar a diferença para as entidades federadas mais pobres.
2. Construir sistema nacional de “escolas normais” e de faculdades de educação para formar e atualizar os professores ao longo de suas carreiras, não só no início.
3. Medir várias vezes por ano o desempenho de todas as escolas. Discutir os resultados no país e em cada comunidade. O monitoramento não é apenas para suprir falhas. É também para propagar as inovações locais bem sucedidas.
4. Ter o governo federal como intervir e consertar quando, em períodos seguidos, o desempenho seja inaceitável.
5. Focar a formação dos professores e os textos escolares na pedagogia das operações conceituais básicas: análise de problemas, interpetação de textos, formulação de argumentos, uso de fontes de pesquisa.
6. Engajar as associações de pais no trabalho das escolas e na execucão de um plano de estudo para cada criança. E quando a família não tiver condições para participar, designar professor ou membro da comunidade que faça as vezes desse acompanhamento familiar.
7. Combinar o ensino direto com o ensino à distância e com a comunicação entre escolas. Cada estudante deve receber computador simplificado, ligado a rede nacional de internet pública dedicada à educação.
8. Oferecer programas especiais aos alunos, sobretudo pobres, mais talentosos e esforçados. Tais programas sacodem a mediocridade satisfeita. Acordam a genialidade calada.”

Mais PAC

Uma historinha bonitinha e fechadinha que eu pensei para explicar o PAC sem queda de juros.

1 – A política de juros altos, mesmo se necessária, traz uma armadilha: se durar muito tempo, não se faz o investimento necessário para retomar o crescimento quando os juros caírem (por exemplo, novos portos, novas estradas, novas fontes de energia, etc.), o que torna mais difícil derrubar os juros sem criar inflação. Se os juros caírem e faltar energia, por exemplo, os preços sobem. Portanto, antes de deixar os juros caírem, é preciso combater as consequências dos juros altos.

1 – Faltam no PAC medidas para melhorar o ambiente de negócios, e falta a queda de juros. Mas, se o ambiente melhorar, o Brasil cresce, e trava nos gargalos de infra-estrutura, em especial de energia. Estes gargalos são, em parte (mas não só), consequência da política de juros altos que frearam o investimento nos últimos anos.

2 – O PAC tenta eliminar esses gargalos. Talvez pudesse usar PPPs para trazer o setor privado para a área, mas está difícil chegar a um consenso sobre as PPPs, e o investimento não pode esperar esse debate. Portanto, vai com dinheiro público, mesmo.

3 – Na medida em que esses gargalos forem sendo eliminados, o efeito de uma queda de juros e da melhoria do ambiente de negócios sobre a inflação será menor. Por isso o governo opta por começar as obrar de infra-estrutura, mesmo que só para sinalizar que esta será a direção do investimento público de agora em diante.

Neste sentido, o PAC seria um esforço para remediar os efeitos colaterais da política de juros altos (que foi necessária), antes de abaixar os juros (e, talvez, implementar a agenda micro-econômica).

Bonitinha a história, não? Não estou dizendo que pensaram nisso antes de fazer o PAC, mas talvez o efeito seja este, se tudo for implementado (aí é que mora o perigo).

Mano Negra e Jello Biafra na Lapa

Rapaz, procurando o vídeo do Mano Negra, achei esse clássico, Mano Negra tocando com o Jello Biafra (Dead Kennedys) NOS ARCOS DA LAPA, no Rio, durante a ECO-92. As músicas são dois clássicos: I fought de Law (Kennedys) e Sidi’h’Bibi (Mano, em árabe).

Blog da The Economist!!!

Rapaz, mais um que eu já tinha que saber que existia: o blog dos jornalistas da The Economist: Free Exchange. Em breve linkado aí do lado.

E, a propósito, é excelente.

Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial está em crise. Há uma grande divisão entre os que acham que o evento deve virar um movimento (em geral, intelectuais da velha esquerda) e a turma das ONGs ( os brasileiros à frente) que querem que continue sendo um Fórum, um local de debates a partir do qual cada movimento siga seu caminho.

Eu tenho uma interpretação sobre isso (como, aliás, sobre tudo).

O que acabou com o FSM foi o 11 de Setembro. A partir dali, todo movimento político que se prezasse tinha que dar uma resposta consistente para a crise do sistema político mundial, e a turma de Seattle não tinha resposta (com alguma boa vontade, poderíamos dizer: não tinha ainda). Daí que o movimento de Seattle (sem dúvida uma das inspirações do Fórum) foi, em grande parte, sequestrado pela velha esquerda e suas teorias sobre o imperialismo ianque. Dêem uma olhada no site do Indymedia (site dos caras de Seattle, que costumava ter, ao lado de muita besteira, umas coisas interessantes) local. Os comentários políticos são de um nível completamente abissal, e sumiram os caras cujos textos rondavam Seattle (Negri e Hardt, Monbiot, etc.).

Em compensação, outro dia tinha um cara do PCO criticando o PSTU por se aliar ao PSOL,e as tiras do Latuff (3º lugar no concurso de charges sobre o Holocausto do Irã) fazem o maior sucesso. Isso é o pior: visto que, com essa história de descer o pau nos EUA, muita gente está resvalando para simpatizar com o jihadismo, volta e meia aparece um anti-semita por lá.

O FSM, naturalmente, é maior que o Indymedia, e melhor. Mas, pessoalmente, tenho um certo orgulho dos brasileiros estarem lutando para que não se traia a idéia inicial de um negócio meio bagunçado. Para se ter idéia, bagunça é bom. Para se implementar, precisa disciplina, mas aí cada movimento que tenha a sua.

Troféu "Melhor Debate Político do Ano"

Vocês vão achar que eu estou de sacanagem. Por algum motivo, os assessores mais próximos do Bush (Cheney, etc.) eram conhecidos como os “Vulcanos”, a raça do Dr. Spok no Jornada nas Estrelas, famosa por sua frieza e por seu apego à lógica. Até aí, nada.

Pois bem. Um deputado americano, David Wu, resolveu ir à tribuna do congresso dizer o seguinte:

“Nosso presidente deu ouvidos uns tais “vulcanos” da Casa Branca, os ideólogos. Mas ao contrário dos vulcanos de Star Trek, que tomavam suas decisões baseados na lógica e nos fatos, esses caras tomam decisões baseados na ideologia; eles não são vulcanos – SÃO KLINGONS na Casa Branca!!!

Mas, ao contrário dos Klingons reais de Star Trek, esses Klingons nunca lutaram uma batalha por si mesmos! NÃO DEIXE FALSOS KLINGONS MANDAREM AMERICANOS DE VERDADE PARA A GUERRA!!!!!”

O termo usado foi “Faux Klingons”.

Se você não acha que isso é hilariante o suficiente, o John Stewart, do Daily Show (CNN) fez uma seção especial do programa sobre o discurso, onde, inclusive, deixou claro que a constituição dos EUA garante que somente “Klingons de verdade” podem mandar americanos para a guerra. E a coisa vai entrar no terreno do maravilhoso quando vocês verem, no vídeo abaixo, quem são os especialistas que o cara chama para comentar a notícia.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=hQYgNdddPKk]

O Que faltou no PAC e em seus críticos

Mas o mais assustador no debate econômico não é o debate entre keynesianos e monetaristas, é a ausência total de Schumpeter, o grande teórico da inovação tecnológica. A ação estatal pelo desenvolvimento não virá de dar dinheiro pra empreiteira, mas de criar um sistema nacional de inovação bem bolado. Mas vejam só o que saiu na Folha:

“Indicador de patentes da indústria que a Unicamp divulga nesta semana mostra outro retrato do atraso do setor na área de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Ao já conhecido fato de a indústria brasileira patentear poucos produtos, a pesquisa acrescenta outro: nossas patentes são registradas por setores tradicionais, fora do eixo de alta tecnologia em que elas se concentram nos países desenvolvidos.

O setor de máquinas e equipamentos é o campeão em registro de patentes entre as áreas que compõem a indústria de transformação no Brasil, o que sugere que ele deve estar também entre os que mais inovam na indústria brasileira. Áreas de ponta, como farmácia, biotecnologia e comunicações, sequer estão no ranking dos dez maiores “patenteadores”.”

E o que a universidade brasileira tem a dizer sobre isso? Que precisa de mais dinheiro pra fazer a mesma coisa que está fazendo. Aí é foda.

Paloccismo sobrevive

Mas parece ainda haver defensores do paloccismo (como este blog) dentro do governo. Diz Tarcisio Godoy, secretário do Tesouro, também na Folha:

“FOLHA – O Tesouro Nacional vai apresentar uma proposta de reforma ao fórum criado para discutir mudanças na Previdência?

GODOY – Vamos advogar e mostrar que uma Previdência não equilibrada no longo prazo pode ter um custo muito maior para a sociedade. Vamos também discutir e apresentar qual é o melhor modelo de equilíbrio e sustentabilidade para a Previdência.

FOLHA – Esse modelo implica estabelecer uma idade mínima para aposentadoria?

GODOY – Defendemos, sim, que o modelo teórico inclua a idade mínima. É óbvio que um modelo que tem uma idade de aposentadoria muito baixa, que é o atual, e uma expectativa de vida aumentando tem um custo. Mas todos esses pontos serão discutidos pelo fórum.

FOLHA – O sr. defende a desvinculação entre o valor dos benefícios e o salário mínimo?

GODOY – O fato de o salário mínimo ser vinculado ao benefício da Previdência cria rigidez adicional e, nesse caso, ineficiências de financiamento. Ou o salário mínimo cresce num valor abaixo do possível ou o déficit na Previdência terá de ser suportado por tributos. “

Scheinkman

O José Alexandre Sheinckman, economista brasileiro fodão que dá aula em Princeton, publicou na Folha uma boa crítica do PAC. Melhores momentos, depois de reconhecer que investir é mesmo importante, havia a carência mesmo de investimento público em infra-estrutura, etc. :

“A ausência de uma proposta ambiciosa para atrair o capital privado parece refletir uma atitude ideológica de Lula 2 que, felizmente, estava menos presente no primeiro mandato -a de que o governo precisa ter um papel ainda mais ativo como investidor em “áreas estratégicas” e no direcionamento dos investimentos privados. As ambições do atual governo para o papel do setor público na economia defrontam-se com a sua incapacidade fiscal. Mesmo com a queda do superávit primário, o nível de despesas correntes deixa pouco espaço para financiar investimentos. Como a carga tributária já é absurda, o PAC se contenta com apenas R$ 67 bilhões de verbas públicas para este ano.”

Ou seja, o governo não tem muito dinheiro pra fazer muita coisa. Poderia, então, tentar melhorar a coisa criando um ambiente de negócios melhor, por exemplo, contendo o gasto público (que bate na taxa de juros):

“No final de 2005, após três anos em que o superávit primário, a exemplo do que já ocorria no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi mantido por meio de aumentos na arrecadação, os ministros Antonio Palocci Filho e Paulo Bernardo propuseram que as despesas correntes crescessem menos que o PIB por pelo menos uma década. Isso permitiria elevar os investimentos públicos e diminuir a carga tributária sem ameaçar o equilíbrio fiscal. Setores do governo pareciam encampar uma sugestão análoga do ex-ministro Delfim Netto de zerar o déficit nominal, isto é, já computados os juros. Infelizmente, essas propostas foram esquecidas, vítimas do “fogo amigo” da ministra Dilma Rousseff e da crise política. Em seu lugar, há uma promessa do governo de limitar o crescimento dos gastos com o funcionalismo em 1,5% ao ano mais o IPCA. O impacto dessa regra na participação dos gastos do governo no PIB vai depender do crescimento da economia, mas, se o país crescer 3% ao ano nos próximos dez anos, essa medida resultará em uma queda de menos de 1% das despesas do governo como proporção do PIB em 2016. “

E faltou a previdência, a reforma tributária, etc. Concluindo:

“Escrevi no final do ano passado que o presidente Lula parecia ter adotado uma agenda minimalista. Fui injusto. É verdade que a música de John Cage ou a arte de Donald Judd têm uma aparência de simplicidade, mas são produto de um alto grau de imaginação e disciplina, qualidades que faltaram aos autores do PAC”