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O muro do Cabral

Sérgio Cabral resolveu fazer um muro demarcando as fronteiras das favelas da Zona Sul com áreas de preservação ambiental. Pode ser uma boa idéia, pode ser uma má idéia.

É um problema sério, e a esquerda tem que aceitar que, às vezes, o interesse dos pobres também vai conflitar com a necessidade de preservar o meio-ambiente.

Mas a reação à idéia do Cabral foi completamente desproporcional. O Saramago, que está me saindo meio Niemeyer pós-100, resolveu me mandar essa:

Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?

Eu posso ter entendido a proposta errado, mas o que eu entendi é que o muro separará a favela do mato, não do asfalto (parece ser o que o Arranhaponte entendeu, também). Não é um muro “ao redor” da favela. É um muro atrás da favela. Se não for isso, o que se segue está tudo errado.

O muro de Berlim mantinha preso uma população inteira sob ditadura totalitária. O muro do gueto de Varsóvia encerrava uma população em um curral até sua transferência para campos de concentração. O muro de Israel foi uma tentativa descarada de roubar terra dos Palestinos. Se você disser que o muro do Cabral é igual a isso, está fazendo (visto que, Se A=B, B=A)toda essa galera parecer menos má.

“Cara, o Hitler era tão mau que não deixava os judeus devastarem o habitat do mico-leão!”. “Rapaz, os opositores do Stalin eram foda, se você não mandasse eles pro Gulag, eles iam lá e construíam ilegalmente no manguezal”. É isso mesmo que vocês querem dizer?

Bem mais comedido que isso, como seria de se esperar, o Elio Gaspari usa dados do Instituto Pereira Passos para contestar a idéia de que essas favelas têm se expandido significativamente. Nesse caso, o muro seria irrelevante, não um terrível atentado aos direitos humanos, ou algo a que se deva fazer oposição por princípio.

Aliás, onde o Gaspari tem razão é em cobrar a promessa de implantar o Bilhete Único no Rio, que foi solenemente ignorada por todo mundo até agora. Essa, sim, seria uma medida que combateria a favelização, que é, entre outras coisas, um problema de transporte público.

Visto que o transporte na periferia é trágico, e na periferia há poucos empregos, ou o cara se faveliza perto do trabalho ou não consegue ir trabalhar. A importância desse fator varia em diferentes favelas, mas nas que serão muradas isso é claro.

O argumento do Gaspari é um passo na direção certa, discutindo racionalmente uma questão séria. Mas se vocês querem ver tudo ir para o caralho de novo, vejam o que saiu no Ex-Blog do César Maia hoje:

“MURO DO CABRAL, OU CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO, OU AUSCHWITZ, “A SOLUÇÃO FINAL”!
             
1. Na ocupação da Alemanha, uma área com abundância de carvão atraiu os nazis e empresas (IG-Farben). A construção de um campo de concentração para prisioneiros da frente soviética (1940) seria usada em trabalho escravo na fábrica. Vieram os prisioneiros políticos poloneses. Auschwitz cresceu. A SS elaborou um projeto para ter uma grande base sua ali. A morte passou a ser a rotina do campo de concentração. Depois vieram os portadores de deficiência para serem eliminados. Depois as práticas de extermínio foram sendo sofisticadas até as câmaras de gás (“a solução final”). Então chegou a vez dos judeus, primeiro os “estrangeiros” e finalmente os alemães. (Alugue documentário em seis partes da BBC: Auschwitz, a Solução Final.) 

Valeria explicar porque é que para construir Auschwitz foi só murar um negócio que já estava lá enquanto o CM administrava a cidade.

Sou contra fazer o muro, pelo menos se for antes do bilhete único, antes da reurbanização da periferia, da regularização dos lotes dos pobres (outra coisa pela qual o Gaspari se bate heroicamente, solitário entre nossos colunistas, que não defendem proposta nenhuma). Se for para optar entre ter mais um favelado ou mais um cara que não consegue emprego porque não tem dinheiro para o ônibus, pelo menos no quadro em que estamos, ainda aceito a favelização.

Mas reconheço que a preocupação com a preservação ambiental é perfeitamente legítima, e não vou chamar ninguém de nazista se esse ordenamento de preferências, diferente do meu (que perdi uma eleição limpa, a propósito), prevalecer.

PS: Claro, deve ter um monte de gente apoiando o muro com a não-tão-secreta esperança de que eventualmente ele circule a favela e guetifique a população favelada. Se isso acontecer, convocarei a população ao levante violento, e que se arraste as carcaças das autoridades pelas ruas. Me comprometo a participar pessoalmente de ambas as atividades. Mas, até lá, estou tranquilo. 

PSTU: desnecessário dizer, é preciso ir atrás dos condomínios da Barra que não tratam esgoto, com dez vezes mais rigor, visto que os empreiteiros tinham muito mais opções de ação do que o cara que se faveliza. Uma coisa não exclui a outra.

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7 Comments on “O muro do Cabral”

  1. #1 Japajato
    on Apr 7th, 2009 at 12:19 am

    Realmente é geral a má vontade na leitura da proposta do muro, porque estámais que claro que não vai ser em torno de toda a favela. Se é uma prioridade ou apenas mais um elefante branco, aí é outra história.

    Fico pensando se há algum grupo com interesses políticos no avanço da favela sobre a área de conservação mas não parece o caso, os críticos do Sergio Cabral (ou seja, todo mundo) apenas viram um alvo fácil com chance de trocadilho mais fácil ainda e desceram a lenha. E o fato de terem começado a construção pela Zona Sul não ajudou muito na desmistificação.

    Agora cá entre nós, esse muro não vai servir pra nada. Quem vai fiscalizar para que ninguém abra um buraco nele e faça uma nova "área de serviço" pro barraco? Tá certo que existe vigilância aérea mas os caras fazem um buraco e cobrem com um "muro" com papel machê igual a Fuga de Alcatraz.

    Cara tive uma idéia genial: vc podia compor um sambinha do muro, com Cabral, caravela, muro, maçonaria, Felipe Massa, "olha o breque!". Que tal? :-)

  2. #2 Amiano
    on Apr 7th, 2009 at 7:36 am

    Eu acho que mais do que legítima, a preocupação em impedir o avanço das favelas sobre a mata é essencial. Eu entendo de ecologia tanto quanto entendo de botânica, e não é à toa que nenhuma planta dura mais do que 3 horas aqui em casa – morre de sede ou afogada. Mas uma coisa eu acho que podia ser feita: construir um muro em torno dos condomínios de luxo, novos empreendimentos imobiliários, etc etc que desde 1970 destruíram o alto da Gávea, o Leblon, a Barra, o Recreio, etc etc. Meu exemplo é da periferia, Niterói, terra onde urubu voa de costas pra não ver o que está acontecendo lá embaixo: desde que a estação do catamarã foi inaugurada em Charitas, uma série de edifícios foi construída no morro, espremendo a favela que estava lá. A mesma coisa na Boa Viagem. Isso aconteceu durante a administração petista, mas já estava rolando na região oceânica durante o primeiro reinado de Jorge Roberto. O Príncipe Charles uma vez chamou a ala Sainsbury da National Gallery de Londres "uma espinha no rosto da mulher amada". Chegar em Nterói de Catamarã é como ver que essa mulher amada foi retalhada por um açougueiro, porque além de tudo os prédios são absolutamente um atentado à arquitetura.
    Voltando ao assunto principal (hehe): acho que a combinação muro sem bilhete único tem mais a ver com especulação imobiliária do que com proteção da natureza.

  3. #3 João Paulo Rodrigues
    on Apr 7th, 2009 at 1:43 pm

    Ô Celso: desce do muro rapaz!
    Agora sério: após ler este post e as respostas do Arranhaponte, meu viés anti-muro baixou um pouco (não chegou a ser essa baboseira de novo Muro de Berlim). Todavia, pode-se argumentar que a proposta não é de cercar totalmente a favela porque ela, obviamente, não tem como crescer sobre o asfalto. Não há como o pessoal do D. Marta erguer barracos, puxadinhos ou casas na São Clemente.
    Daí que a imagem de cerco não seja tão infundada.

  4. #4 NPTO
    on Apr 7th, 2009 at 4:59 pm

    Ah, sim, o motivo que leva o governo a fazer alguma coisa é frequentemente sacanagem. O negócio é já dar o desconto que é isso mesmo e discutir se essa sacanagem específica produz efeitos sociais positivos.

  5. #5 NPTO
    on Apr 7th, 2009 at 5:05 pm

    Bem, eu acho que a turma do Saramago supôs que haveria limites à mobilidade das pessoas, mesmo: daí a comparação com o muro da Palestina. Suspeito que o muro não tenha lá muita utilidade, e, se fosse pra fazer alguma coisa sobre isso, eu faria outras coisas. Mas fiquei de saco cheio com a reação exagerada (principalmente a do César Maia, cujo boletim anda insuportável).

  6. #6 Fique por dentro Favela » Blog Archive » O muro do Cabral | Na Prática a Teoria é Outra
    on Apr 10th, 2009 at 4:02 pm

    [...] Zona Sul com áreas de preservação ambiental. Pode ser uma boa idéia, pode ser. fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  7. #7 dani
    on Nov 30th, 2009 at 11:58 am

    o que Saramago entende das favelas brasileiras?
    O muro parece tão agressivo visto de fora por quem não vive o dia a dia do problema da expansão das favelas…

    Elas vão crescer nao tem jeito, os filhos casam ou juntam ou tem filhos mesmo sem casar e a grande maioria não conseguem adquirir um imóvel nem mesmo com todos os financiamentos para baixa renda propostos.

    A REALIDADE É ESTA!

    Agora já que vai crescer, é melhor crescer para cima (verticalizar) do que acabar com as áreas verdes do Rio de Janeiro. Nao tem nada a ver com pobre e rico absolutamente, que "baboseira".
    Mas talvez existisse uma outra forma de fiscalização…mas também às vezes eles constroem em um final de semana. E aí? Qual seria a melhor solução?

    Trabalho com favelas em outro estado, tenho interesse em opiniões de urbanistas que enfrentam o problema de expansão de favelas e que não estejam envolvidos com política.

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