Minha lembrança pessoal: eu e um colega na Universidade Santa Úrsula, no Rio, assistindo um discurso de Lula (primeira vez que o vi ao vivo) no auditório da faculdade. Na época, as pesquisas davam, se não me engano, Lula atrás de Collor, Brizola, Covas, Maluf e Afif. Foi durante a manifestação dos estudantes na Praça da Paz Celestial. A uma certa altura, Fernando Gabeira, cotadíssimo para ser o vice na chapa de Lula, diz, se minha memória não me trai:
Nós não somos os comunistas autoritários do governo chinês. Nós somos os jovens de Tiananmen cantando a Internacional!
Lembrando isso, duas coisas me parecem importantes: a gente realmente não tinha vínculo nenhum com a galera do socialismo real, que na época estava nos PCs e no PDT. Devemos isso, provavelmente, à turma católica, que gostava do Solidariedade. Por outro lado: achávamos que simplesmente ser contra o totalitarismo, apoiar os estudantes de Tianammen, defender a democracia, era suficiente para lidar com a herança do leninismo. Não era.
PS: mas os estudantes não brandiam bandeiras americanas e estátuas da liberdade? Sim, mas também cantavam a Internacional. Tempos de fluxo.



on Jun 4th, 2009 at 2:37 pm
Eu não vejo muita vantagem nessa provincianismo petista, nessa falta de interesse pelas experiências do Socilaismo Real. O PT nunca se definiu politicamente, vivia sob a tirania daquelas facções malucas que iam do trotskysmo à social-democracia, herdou da esquerda católica um desinteresse doentio por formulações filosóficas e econômicas rigorosas. Aliás, embora muita gente ache que Lula e o PT mudaram, Prestes já avisava que Lula era economicista e o PT, trade unionista. Não deu outra: para fazer o que ele faz hoje, não precisaria nem de democracia, é só chamar Delfim de volta.
on Jun 4th, 2009 at 10:59 pm
Adler, discordo de você. Vamos por partes:
O PT não era provinciano com relação ao socialismo real, ele apoiava o Solidariedade. Como, aliás, apoiava o CNA, e vários outros movimentos mudo afora. O internacionalismo não estava restrito à turma que apoiava um ou outro totalitarismo de esquerda. E, no final dos anos 80, ler a realidade ainda pensando em termos de guerra fria não era, digamos, uma intensa demonstração de visão política.
on Jun 4th, 2009 at 11:05 pm
Quanto ao desinteresse por formulações teóricas rigorosas, houve, sim, reação às alucinações da turma que estava disposta a fuzilar um companheiro dependendo se ele traduzisse "traeger" (é isso? O homem é isso aí das relações sociais, dizia Marx) como suporte ou como portador. Mas houve bastante debate teórico sobre Gramsci, por exemplo, ou sobre cidadania. O que faltou, relamente, para toda esquerda, foi debate econômico, mas o PT não era especialmente ruim nisso, comparado aos outros grupos de esquerda.
on Jun 4th, 2009 at 11:14 pm
Finalmente, parabéns ao PT por ter decepcionado o Prestes e não ter virado um partido bolchevique. Quanto ao trade-unionismo, é assim que muita gente ortodoxa chamava quem defendia a autonomia dos sindicatos diante do partido, quem lutava pela reforma social dentro da democracia, de trade-unionismo (a acusação de "economicismo", aliás, virou sinônimo de "você dá alguma atenção ao aspecto econômico da questão"). Quanto ao sentido original da acusação, "você se limita a defender os interesses corporativos do seu sindicato", o PT foi o partido que implementou um enorme programa de renda mínima no Brasil, o que está de acordo com as melhores discussões teóricas da esquerda contemporânea, e bem universalista, não?
on Jun 5th, 2009 at 12:57 am
Eu acredito em coerência e honestidade intelectual, o PT nunca disse a que vinha. Foi essa falta de formulação e definição que tornou o PT presa fácil para os interesses da oligarquia nacional cujos intereeses reacionários e privilégios descabidos ele passou a defender depois de assumir o Poder. O PT, tendo sempre buscado o Poder pelo Poder, não para implementar um projeto, pois ele nunca o teve (o que explica a convivência de várias facções no seio do Partido), se tornou um braço político dos banqueiros e oligarquias. O economicismo do PT, detectado cedo graças ao brilhantismo teórico de Prestes, consistiu em buscar vantagens econômicas- especialmente para a aristocracia operária dos Lulas e Vincentinhos- imediatas e renunciar a mudar o Sistema.
on Jun 5th, 2009 at 12:57 am
Eu repito: tudo que o Governo Lula fez poderia ter sido feito-com vantagens- feito pelo Delfim-conselheiro de Lula, quem diria?- com o Almanaque do Exército. A "Ditabranda" também tinha programas de assistencialismo e o Brasil de hoje é um bocado mais rico e provido de recursos que o daqueles tempos. Do PT, esperar-se-ia mais e melhor. Como não tinha plano, entretanto, teve que usar o dos outros e se conformar em fazer o Governo FHC, mandatos III e IV. Até entendo o seu preconceito contra o pensamento marxista, mas daí a entender o porquê da sua defesa da política econômica entreguista e recessiva do Governo é uma longa distância.
on Jun 5th, 2009 at 11:39 am
Isso mesmo: "Träger", do verbo "tragen" (trazer, levar).
Segundo meu dicionariozinho significa "portador". Ele só registra Träger como "suporte" no sentido técnico (arquitetura).
on Jun 5th, 2009 at 1:57 pm
É verdade que o PT não tinha ou tem um projeto nacional, coisa de que muito se falava mas que era sempre jogada parea o futuro. Eu acho que isso tem um lado bom, ou seja, acaba com essa idéia redentora e fundacional, como se as demais forças sociais e políticas não pudessem manter autonomia. Agora, chega a ser engraçado ouvir falar em mudar o Sistema, com S maiúsculo, quando ninguém mais tem qualquer noção de como se faz isso…
on Jun 5th, 2009 at 2:53 pm
HwbB sempre alerta!
on Jun 5th, 2009 at 2:57 pm
Adler:
Então estamos mais "ricos e provido de recursos", mas isso não tem nada a ver com FHC e Lula? E isso, ainda por cima, é ruim? Sim, esperava mais do Lula, mas se você só esperava mais, não estava necessariamente esperando a mudança do "Sistema", seja lá o que isso signifique.
Não tenho preconceito, mas não vejo "o" pensamento marxista. Se você fizesse a gentileza de apontá-lo, ajudaria.
E está para ser explicado onde o governo Lula é "entreguista" e "recessivo", e como isso levou a "o Brasil de hoje [ser] um bocado mais rico e provido de recursos".
on Jun 5th, 2009 at 3:00 pm
Eu concordo que o PT precisa de mais coerência teórica, mas: (1) não acho que isso possa ser alcançado pela imposição de uma visão qualquer pela direção; se houver várias opiniões dentro de um arco plausível, que permaneçam em debate pelo tempo que for necessário; (2) acho que a falta de clareza é fruto da recusa em abandonar tudo isso que você acha bom, a começar pelo "brilhantismo de Prestes" (que era um cara corajoso, uma liderança inspiradora, mas não era teórico nem brilhante); e (3) na falta de uma visão política mais ampla, o que salvou foi exatamente o economicismo, da política econômica do Palocci à redistribuição de renda.
E não conheço evidência de um governo voltado para a aristocracia operária: o BF cobriu a galera excluída dos setores mais modernos, enquanto a classe trabalhadora tradicional ganhou com os aumentos do mínimo.
on Jun 5th, 2009 at 3:01 pm
E, se o PT buscasse o poder pelo poder, teria apoiado Collor e Moreira Franco em 86, como fizeram PCB e PCdoB. Não há dúvida que não faltaram chances de se deixar cooptar antes de 2002.
on Jun 5th, 2009 at 3:08 pm
Bem: (a) a ditadura aumentou a concentração de renda, Lula a diminuiu; (b) a ditadura deixou o país em uma situação econômica bisonha, o Palocci (depois da turma do FHC, justiça seja feita) arrumou; (c) a ditadura contraiu a dívida externa, o Lula nos livrou da dívida em dólar´.
Não vejo sinal de política entreguista no governo Lula, mesmo que se deseje continuar discutindo nesses termos; quanto ao "recessiva", cuidado: quem falou mal dos juros nos últimos anos agora tem que reconhecer que graças a ele não iniciamos novos investimentos que agora estariam quebrando no nascedouro. O crescimento do qual não participamos era bolha, em grande parte.
on Jun 5th, 2009 at 3:13 pm
Quanto a copiar o programa do FHC por não ter um próprio: (a) houve várias coisas boas no governo FHC, seria idiota descartá-las; (b) como é comum, você quer dizer "não tinha o MEU programa" quando diz "não tinha programa".
Quanto ao "preconceito contra o marxismo": mande um texto sobre o que você entende como marxismo que eu posto e respondo. Se não couber nos comentários, mande pelo formulário de contato (na aba "Fala!" lá em cima). Pode ser uma discussão boa.
on Jun 5th, 2009 at 3:21 pm
Pois é. Agora, precisa ter mais idéia de como reformar o sistema, isso precisa. No fundo, há uma certa tendência meio anti-macro na herança 68 do PT, que tem um lado ruim e um lado bom.
on Jun 5th, 2009 at 3:24 pm
Bom, o que eu deveria ter respondido era isso que o JPR disse:
"Então estamos mais "ricos e provido de recursos", mas isso não tem nada a ver com FHC e Lula?"
on Jun 5th, 2009 at 3:30 pm
"A "Ditabranda" também tinha programas de assistencialismo"
É, o melhor deles era o "deixa crescer o bolo pra depois distribuí-lo". Deu no que deu.
on Jun 5th, 2009 at 5:49 pm
"Então estamos mais 'ricos e provido de recursos', mas isso não tem nada a ver com FHC e Lula?"
Passaram quarenta e cinco anos desde a "Revolução" e vinte e quatro desde que o último general deixou o Palácio. Imagino que não seja uma grande façanha estar um tanto mais ricos depois de tanto tempo. O Japão, os Tigres Asiáticos e a China (essa última não em renda per capita ainda, por motivos evidentes…) pularam da pobreza quase africana ou da devastação da guerra ou de ambas para uma vida de Primeiro Mundo em menos tempo. A questão é que, por mais louvável que seja criar programas para não matar o Povo de fome, isso não é tão diferente em escopo dos programas assistencialistas que os próprios militares mantiveram. Pode-se fazer mais nesse campo porque há mais recursos, o crescimento populacional pediu água, etc.
on Jun 5th, 2009 at 5:50 pm
Dizer que os juros mais altos do Mundo salvaram o Brasil da Bolha é meio como dizer que a Seca salva os retirantes de ter que lidar com a instabilidade do mercado de commodities: verdade, claro, mas… Além disso, é muito cedo para dizer que todos os ganhos de antes do estouro da Bolha serão perdidos. Supondo que o Brasil pudesse ter crescido 1,5 ponto percentual a mais por ano, sob o Lulado, isso teria dado um PIB 9% maior hoje. Isso é o que o BC Lulista-para não falar em FHC- roubou do Brasil, no mínimo, com sua política de dinheiro caríssimo: quase um décimo da economia do país.
on Jun 5th, 2009 at 5:50 pm
Quanto ao marxismo, eu usei na acepção básica: derrubada violenta da Ordem Vigente, socialização dos meios de produção, substituição do Estado-Comitê-Executivo-da-Burguesia por um Estado-de-todo-o-Povo, etc. Claro que há vários roteiros para isso, mas não parece que o PT, aliado de Lula, Sarney e Collor, esteja seguindo algum. Quanto ao Poder pelo Poder, se tivesse se deixado cooptar por Collor-inventado justamente para impedir Lula de chegar ao Poder- ou outro qualquer, o PT não teria chegado ao Poder, quando muito teria chegado à prefeitura de Arujá. Só o entendimento da Teoria Marxista pode evitar que se caía no erro economicista do PT.
on Jun 5th, 2009 at 6:34 pm
Bom, na verdade daria mais que 9%, porque a cada ano seria 1,5 sobre uma base maior. Mas o 1,5% a mais por ano é um chute total. Pra começar, houve alguns anos de crescimento robusto, o que poderia ter sido diferente seria 2005, 2006. Digamos que desse 5, 6% a mais. A turma pelo mundo afora está caindo mais que isso esse ano. E: teríamos tido mais inflação, que teria comido os ganhos de renda dos setores mais pobres obtidos pelos aumentos do mínimo e pelo BF.
on Jun 5th, 2009 at 6:35 pm
Quanto aos juros serem os maiores do mundo, acho que hoje todo mundo concorda que se eles fossem maiores nos EUA em alguns pontos do processo a crise hoje seria bem menor.
on Jun 5th, 2009 at 6:48 pm
"Estado-de-todo-o-povo" é a maior aberração possível dentro da teoria do Marx, o Estado sempre é da classe dominante. Socialização dos meios de produção, suspeito, quer dizer estatização pelo EDTOP, não? E derrubada violenta da ordem vigente é coisa de quem ainda acha que a ordem vigente é o patrão, não as relações de produção concretas. Na verdade, no stalinismo as relações de trabalho eram ultra-tayloristas, o Estado era o Estado Burguês levado até os limites mais insanos da burocracia, e, ele mais do que todos, era um comitê executivo da burguesia (até que, nos anos 90, o comitê executivo privatizou tudo para si mesmo, numa curiosa inversão dialética). Como esforço de crescimento econômico nacional, foi um sucesso. Como modelo é um horror.
Pra não dizer que estatizar tudo não muda nada, muda, sim: não tem mais greve.
on Jun 6th, 2009 at 1:00 am
Inclusive, não lembro que autor que definia o stalinismo como "capitalismo de Estado".
(vocês aí do IFCH, quem era esse cara??)
on Jun 6th, 2009 at 1:01 am
Pois é, o forno pifou no meio…
on Jun 6th, 2009 at 2:41 am
"É, o melhor deles era o 'deixa crescer o bolo pra depois distribuí-lo'. Deu no que deu."
É, esse tal de crescimento é para esses indianos e chineses trouxas. Brasileiro tem a verdadeira malandragem de saber que a solução para TODOS os problemas é assistencialismo. Os mais pobres têm uma imensa dificuldade de acesso às boas universidades? É só transformar as universidades públicas em Bolsa-Cachaça, acabando com a seleção por mérito. Os chineses estão tomando os empregos brasileiros graças à moeda manipulada e ao trabalho escravo? Para quê se preocupar com produtividade? É só fornecer Bolsa Cachaça para os proletários tornados lupém.
on Jun 6th, 2009 at 2:42 am
O Brasil cresceu menos que todos emergentes dignos de nota e perdeu o período mais próspero da História do Mundo? Viva os juros altos e abaixo o crescimento! A política de dinheiro caro do BC travou a economia e tornou o Brasil uma espécie de colônia chinesa, incapaz de fazer outra coisa que não vender produtos agrícolas baratíssimos aos novos senhores do Mundo? Podia ser pior: o Brasil poderia ter crescido! A crise bateu duro em países que não lucraram com a orgia de dinheiro fácil (Japão) ou que o receberam de fora (como a Islândia e a Letônia), o que não tem nada a ver com juros baixos, e sim com juros altos, na pior das hípóteses? Melhor manter os juros lá em cima. Senão, é capaz do Brasil crescer, já pensou que tragédia? Em quinze anos de tucano-petismo, o Brasil perdeu uma década e meia? E daí? Sair em Busca do Tempo Perdido? Nem pensar!
on Jun 8th, 2009 at 2:52 pm
Perfeito, mas se entendo essas suas idas e vindas, então agora deveríamos ter aprofundado o sistema, em vez de solapá-lo? Ou seja, sido economicistas ao extremo?