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Moussavi

Apesar da crise que se instaurou no centro de poder da República Islâmica, continuo pessimista com relação ao futuro dos bravos manifestantes iranianos. Por dois motivos: porque Moussavi não me parece ter estatura para liderar um movimento desse tipo, e porque o ocidente pode preferir, vejam só, que Ahmadinejad permaneça no poder, enfraquecido pelos eventos recentes.

Vejam só o Moussavi:

Indeed, anyone believing Mousavi would be the one to unclench the Iranian fist for a hand-in-hand partnership of peace with the United States is guilty of wishful thinking. It was Mousavi, after all, who was at the center of the Iran hostage crisis and remains complicit in an operation he commended as “the beginning of the second stage of our revolution.” And it was Mousavi who was the protégé of Ayatollah Ruhollah Khomeini (chief architect of the Iranian Revolution and founder of theocratic Iran), a former member of Hezbollah’s leadership council, sworn enemy of Israel, and a prime minister under whose watch thousands of political prisoners were massacred in 1988. And finally, it was Mousavi who initiated Iran’s nuclear program in the 1980s and likely would be intent on carrying through Iran’s nuclear ambitions, the foremost issue central to any improvement in relations with the West.

Mas, até aí, não faltam exemplos de gente de dentro dos mais variados regimes que muda de lado. E seria possível fazer uma narrativa em que o movimento atual resgata elementos da revolução iraniana de 79; como toda revolução é um processo confuso e cheio de idéias contraditórias, isso é mais fácil que parece. Finalmente, eu se fosse o Moussavi, ou os manifestantes, não confiaria que nenhum acordo que me oferecessem fosse cumprido depois que o perigo ao regime fosse afastado.

Mas tem outro problema. Como dito várias vezes pela turma que achava que o Ahmadinejad era sobrevalorizado, o poder real no Irã está com os clérigos. Mesmo se Moussavi conseguir se eleger e virar um puta Gorbachev maneiro, vai conseguir enfrentar essa turma?

Se não enfrentar, cria um problema para o Ocidente, porque a política externa iraniana não vai mudar, mas o Ocidente vai deixar de ter um adversário deplorável como o Ahmadinejad para caracterizar como maluco querendo bombardear Israel. É o ponto levantado pelo Daniel Drezner. E, aparentemente, tem gente dizendo que torce para que o golpe de Ahmadinejad dê certo entre os neocons e, vejam só, no Mossad.

Se os manifestantes conseguirem vencer os teocratas mesmo sem qualquer apoio do ocidente, se Moussavi se revelar um reformista, enfim, se tudo isso acontecer ao mesmo tempo, será um bem-vindo milagre. Mas continuo pessimista.

Para terminar, uma coisa me chamou atenção. No Sullivan há uma convocação do Moussavi para uma jornada de luto pelos que morreram no conflito:

“A number of our countrymen were wounded or martyred,” Mousavi said, calling the day of mourning for Thursday. “I ask the people to express their solidarity with the families … by coming together in mosques or taking part in peaceful demonstrations,” Mousavi said on his website.

Como mostra o Juan Cole, esse ciclo protestos/luto pelas vítimas também ocorreu durante a revolução de 79. Mas o que me fez pular aqui na cadeira foi outra coisa. A tradução pode estar errada, mas, se não estiver, o Moussavi chamou manifestantes contra o governo Iraniano de mártires.

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19 Comments

  1. Gaius Baltar says:

    NPTO
    Realmente, não sei o que vai aconter no Irã, a situação lá não é nada clara. As notícias de hoje na Folha dão conta de um eventual racha no grupo dirigente, e que Akbar Hashemi Rafsnajani estaria tentando um contragolpe para derrubar ali Khamenei. O Pedro Doria também tem um post legal sobre essa suposta cisma.
    Quando ao Musavi, também compartilho das suas suspeitas. A matéira da Foreign Policy é esclarecedora a esse respeito. (continua)

  2. Gaius Baltar says:

    Mas penso que há dois fatos a considerar, o primeiro está na própria matéria: Although a Mousavi presidency itself would probably not deliver a sensational change in Iranian foreign policy, the movement he has spawned might. The tenacious middle-class, educated, and youthful Mousavi supporters who have cried foul and rallied and bled in the streets could bring a new order to Tehran by forcing the country's supreme leader to take into account public opinion that demands engagement with the West.
    Além disso, não podemos esquecer que algumas das principais transições de ditaturas e regimes autoritórios foram conduzidas por homens do sistema, casos clássicos de Portugal, com Antonio Spínola, Espanha, com Adolfo Suárez e Grécia, Karamanlis. Sem contar o caso mais difícil, o de Gorbatchev.
    (continua)

  3. Gaius Baltar says:

    Dando também um pitaco quanto aos posts anteriores, muito bons, só não posso concordar com os supostos vexames do Dawkins no caso das apócrifas fábulas judaicas. Acho que ele mandou muito bem nos seus argumentos principais, embora eu não concorde com o seu agressivo e de cruzada.
    abs

  4. Vera says:

    "Mas o que me fez pular aqui na cadeira foi outra coisa. A tradução pode estar errada, mas, se não estiver, o Moussavi chamou manifestantes contra o governo Iraniano de mártires."
    O pessoal, às vezes, fala em "aiatolá Gorbachev", ou seja, alguém dentro do establishment iraniano que desmontasse a teocracia de dentro-como Gorbachev fez com a ditadura comunista na URSS. Acho que esse Moussavi vai ser o aiatolá Trotsky, vai acabar com um picador de gelo na cabeça por conta de uma guerrinha de facções.

  5. Igor T. says:

    O problema é que depois do Gorbachev não é difícil imaginar um Putin.

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