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Livraço: “O Crash de 2008: Dinheiro fácil, apostas arriscadas e o colapso global do crédito”, de Charles R. Morris

Bem, agora vocês não reclamem que não tem um livro referência sobre a crise traduzido para o português. A tradução é boa, inclui um glossário de termos financeiros, e tem prefácio do Beluzzo. O Charles Morris é um ex-banqueiro que escreve muito bem, e escreveu o livro no final de 2007, antes, portanto, do Crash do ano passado (a edição é atualizada para incluir novas análises, mas o núcleo do argumento parece ser o mesmo).

Nessa reportagem da NPR, lemos o seguinte sobre a origem do livro:

The book’s life began with an e-mail Morris sent, in early 2007, to Peter Osnos, the founder of Public Affairs books, which said: “I think we’re heading for the mother of all crashes, it will happen in summer of 2008, I think.”

Right at the same time as that e-mail, February and March of 2007, Federal Reserve Board Chairman Ben Bernanke was telling Congress that the U.S. has a Goldilocks economy: just perfect, the right amount of inflation and growth and employment.

E porque deveríamos acreditar mais no Morris do que em quase todo mundo?

He was in the perfect position. He’s not just a writer; he ran a company that created the software investment banks and hedge funds use to build these new, exotic credit instruments. And he saw how they used his software, and thought, “This is crazy,” he says. “I was sure that people weren’t keeping track of the trends so they had proper margins and collateral and so forth.”

Morris said by 2007 he had warned every financial professional he knew. Nobody listened then, but we now know that Morris was right.

Se compararmos o livro ao do Posner, a primeira coisa que chama atenção é uma diferença de ritmo. O livro do Posner, embora acessível, é escrito de forma algo acadêmica, contida, e pretende dar uma visão mais geral do processo desregulamentação – crise. O Morris escreve, com grande detalhe, a exata trajetória das engrenagens do sistema rumo ao colapso, mapeando cada nova guinada rumo à alavancagem, cada negligência das autoridades monetárias americanas; o assunto, que poderia ser árido, acaba virando uma assustadora narrativa de cinema-tragédia, e não é qualquer um que consegue deixar você apavorado discutindo contabilidade financeira.

Por exemplo: no capítulo 6, temos a descrição de um processo típico de montagem desses esqueminhas de investimento que nos lançaram no buraco. Um fundo de hedge tem 20 milhões, pega emprestado 80, e compra 100 milhões da tranche (fatia) mais arriscada de um pacotão de dívidas (em geral hipotecas, mas havia todo tipo de dívidas embrulhadas em pacotes semelhantes) de 2 bi. Se eu entendi direito, pela maneira que esses pacotes eram organizados, quando as perdas vinham, começavam pelas tranches mais arriscadas. Se o pacotão perdesse 1% (200 mi), toda a grana que o fundo efetivamente tinha iria para o saco. Depois de explicar isso, o Morris continua:

Agora suponha que a CDO [o pacotão - NPTO] incorra em perdas de 3%.

E depois de escrever o cenário de tragédia que se segue então (e que efetivamente ocorreu em vários casos, não é um exercício teórico), ele ainda nos brinda com um item (p.173) com o título “E continua a piorar”. E ainda faltam 50 páginas para o fim do livro. Tem uma hora, quando já estamos falando de alavancagem de mais de 100 pra 1, em que realmente começa a dar nervoso, e você já começa a torcer para o Crash vir logo e acabar logo com essa agonia. Até que, enfim, ele vem.

O argumento do livro segue mais ou menos a seguinte linha:

1 – A crise do ciclo liberal (no sentido americano) de 25 anos que se encerra com a eleição de Reagan deixou um legado de inflação e estagnação realmente bisonho, e foi natural que houvesse entusiasmo com as idéias monetaristas dos 25 anos seguintes. É inegável que muito foi conquistado durante esse período, mas da mesma forma que o ciclo liberal, o ciclo monetarista terminou em hubris e desastre econômico. Há uma teoria muito, muito interessante aqui sobre os motivos dessas alternâncias cíclicas. É bem mais sofisticada que isso, mas a idéia básica é que os ciclos liberais se perdem em excessos do poder, os ciclos conservadores em ciclos do dinheiro.

2 – A desregulação avançou durante o ciclo conservador em uma velocidade impressionante. Vejam isso, na página 100:

O implacável impulso desregulador iniciado no governo Reagan transferiu constantemente atividades de empréstimo para a esfera de entidades não-reguladas; em 2006, apenas cerca de 25% de todos os empréstimos ocorriam em setores regulados, comparados a cerca de 80% vinte anos antes.

Minha matemática está meio enferrujada, mas me parece que 80% é um montão.

2 – Mas a ordem que o governo não estava botando estava, supunha-se, sendo imposta por um monte de modelinhos matemáticos que, pô, pra entendê-los precisava de uns diplomas tão maneiros, que só podiam ser coisa fina. Esses modelos não tinham só os problemas que o Taleb aponta com enfadonha obsessão, mas também tinham outro senão, brilhantemente encapsulado nesse trecho da página 103:

O seguro de portfolio de Leland e Rubinstein pressupunha implicitamente que quando as rotinas de venda automatizadas estabelecidas por eles fossem acionadas, computadores do lado da compra aplicariam friamente a matemática de opções para calcular preços de compra racionais. Mas na vida real, o lado da compra era apenas uma multidào de operadores humanos berrando: “P…m…! Todo mundo está vendendo que nem louco! Descarreguem tudo!”

(isso me lembrou o Shiller, mas vou comentar isso quando resenhar o Shiller).
3 – Mas, como sempre dá pra piorar, tem mais: o FED, desde que Greenspan assumiu, abaixou juros como se não houvesse amanhã. Pode-se discutir o quanto Greenspan errou, como disse o Brad De Long, mas o que realmente condena o Greenspan nesse livro são os depoimentos do cara, em geral na linha de “podem ir na boa”. Há mesmo um trecho em que o Greenspan diz que quem estiver deixando de mudar para hipoteca com taxas variáveis vai perder uma grana. De qualquer maneira, os juros baixos a) tornaram pegar dinheiro emprestado uma moleza, e b) fizeram com que uma turma fosse procurar investimentos mais lucrativos que aqueles títulozinhos bobões do tesouro, que pagavam esse jurinho merreca.

4 – Mas tudo isso estaria muito bom (bom, mais ou menos) se essas dívidas não tivessem sido empacotadas e vendidas como opção de investimento para, bem, todo mundo no sistema financeiro. Isso é ruim, em primeiro e óbvio lugar, porque contamina tudo. Mas também porque quando o risco da Jr. Baiano hipotecas é vendido no mercado financeiro, os corretores da JBH não querem mais nem saber: se na hora que estourar não for no meu, eu vou mais é emprestar pra todo mundo. Chega aqui com um certificado de que mora perto de alguém que ganha bolsa-família e eu já te arrumo uma casa do lado da do Sïlvio Santos (pequeno exagero: NPTO). Resultado disso tudo: toda a economia mundial se torna refém dos corretores da JBH emprestando como se estivessem de porre. Se você não estava com medo até agora, agora tem que estar, não é possível, ou eu não expliquei direito.

O livro também argumenta que a posição dos EUA como hiperpotência está seriamente ameaçada (naturalmente, isso depende de algum outro país assumir o lugar, o que é imprevisível – NPTO), o lugar do dólar como moeda de reserva não é mais tão seguro, e, para refazer a poupança nacional, será necessário vender as jóias da família (p.151): essa turma da reserva internacional alta, China, exportadores de petróleo (entre os grandes, só Noruega é uma democracia sólida) vão comprar empresas americanas. Enfim:

Em resumo, é difícil imaginar um resultado pior – os Estados Unidos, a “hiperpotência”, o líder global na eficiência de seus mercados e na produtividade de suas empresas e trabalhadores, penhorados sem esperança a alguns dos regimes mais repulsivos do mundo. Mas foi a esse ponto que nos trouxe um quarto de século de sacrifício diligente aos deuses do livre mercado. É uma desgraça

O livro tem muito mais que isso, mas achei que não era bom comentar a parte sobre os hedge funds porque pode ter criança lendo. Fora isso, observações brilhantes sobre diversos aspectos da economia americana e mundial, tiradas ótimas (ia citar mais, mas ficaria muito longo), e a recomendação de que os EUA precisam mesmo passar por uma recessão, trabalhar mais intensamente, gastar menos e provavelmente exportar mais. Voltar a encarar o capitalismo com suas promessas, mas também com seus sacrifícios, e não achar que a finança vai arrumar almoço grátis pra ninguém.

Enfim, recomendadíssimo fica.

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4 Comments on “Livraço: “O Crash de 2008: Dinheiro fácil, apostas arriscadas e o colapso global do crédito”, de Charles R. Morris”

  1. #1 JOAO MELO
    on Jul 11th, 2009 at 9:07 am

    Fiquei interessado pelo livro, vou ver se compra e leio, mas gostei mesmo da sua presença na Cultura vendo o FHC. Seu texto foi muito legal. Quando estou em SP SEMPRE visito a Cultura. Acho o local nota dez.. Porém, ainda nao tive o prazer de encontrar o FHC por lá.
    Abraço,
    João Melo, direto da selva

  2. #2 He will be Bach
    on Jul 13th, 2009 at 1:00 am

    Pô, NPTO, todo mundo previu a crise. E, hoje, todo mundo está prevendo centenas de outras crises que nunca vão acontecer.

    O critério verdadeiro para saber se o cara previu a crise de verdade é: o cara ganhou dinheiro com a crise?

    Pelo que você diz, esse Charles Morris conseguiu adivinhar com boa dose aproximação até a data da crise. Ele fez fortuna deixando opção aberta? Se não, não vale.

  3. #3 wagner
    on Jul 13th, 2009 at 4:10 pm

    NPTO,

    Obrigado pela dica, apesar de minha formação em Direito, interesso muito por esse tema.

    Creio que vou ficar com o mesmo "espírito sereno", quando li a Finança Mundializada e a Mundialização do Capital, de François Chenais, bem como A Economia como ela é, de Paulo Nogueira..

    PS. Toma cuidado com os Tucanos que eles bicam feio..

    Abraços

  4. #4 O Ano NPTO – Na Prática a Teoria é Outra
    on Jan 23rd, 2010 at 5:34 pm

    [...] até agora (mas tenho a sincera esperança de acabar o Schiller ainda esse ano) foram o Posner e o Morris, talvez mais o Morris. A tag Crash 2008 rendeu bastante [...]

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