Nada o que fazer agora senão reconhecer o belo golpe dado pelo PFL no PT esse ano. Como os jornais estão fazendo questão de esquecer, foram PFL e PMDB que elegeram José Sarney para a presidência do Senado. PT e PSDB votaram em Tião Viana, e é triste lembrar que, se não fosse pelo PFL, o presidente do Senado seria Tião Viana.
Na época, o blog do PFL saudou a eleição de Sarney nos seguintes termos:
Com o apoio do Democratas, o senador José Sarney (PMDB-AP) foi eleito presidente do Senado Federal nesta segunda-feira (2). Sarney obteve 49 votos e seu adversário, senador Tião Viana (PT-AC), obteve 32 votos. José Sarney irá presidir a casa no biênio 2009-2010. Sarney agradeceu o apoio do Democratas no discurso após a eleição.
E, logo no post seguinte, o sempre pronto a ser útil Heráclito Fortes saudava a eleição de Sarney como uma “resposta à crise” pela qual o país passava, dizendo:
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), em entrevista à Agência Senado, disse que a vitória do senador José Sarney (PMDB-AP) por 49 votos contra 32 recebidos pelo senador Tião Viana (PT-AC) é uma resposta à crise que o país atravessa e é “um bom resultado para a Casa”. “Com sua experiência, ele tem uma grande contribuição a dar ao Parlamento brasileiro”, disse o senador. Heráclito acredita que José Sarney, que já ocupou a Presidência da República (1985-1990) e – por duas vezes – a Presidência do Senado (1995-1996 e 2003-2004), não trará dificuldades ao governo, porque terá em mente, em primeiro lugar, os interesses do país.
E uma comentarista pefelista do blog manifestava sua esperança:
Espero que a experiência e as convicções democráticas de Sarney ajudem nas mudanças de que o país precisa.
Não há dúvida de que isso foi uma boa jogada. Logo no começo da crise Sarney, o PT acusou os tucanos de quererem tomar o Senado para si, e César Maia os repreendeu dizendo que era bem-feito, quem mandou os tucanos “bancarem os bons-moços” e votarem em Tião? Os caras colocaram o Sarney lá, abriram um flanco, e o exploraram imediatamente depois de aberto.
E a jogada deu certo. Ontem o PT foi humilhado, nossos senadores passaram por imenso constrangimento, e pelo menos um deles, (o Flávio Arns) deve sair do partido. Como disse o Delcídio Amaral, é o ônus de ser governo. Precisamos de maioria parlamentar, e não conseguimos montar nenhuma sem o PMDB. Falhamos em eleger mais gente para o Legislativo, e é necessário governar.
Minha simpatia pelo Mercadante aumentou, porque ficou claro que ele fez o possível para negociar a melhor saída possível para o partido (como lembrou bem o Alon, em um post excelente); considerarei sua eventual não-reeleição ano que vem como mais um dos muitos itens na folha criminal de serviços prestados ao país pelos PFL.
A coisa ficou ainda pior porque foi o mesmo dia da saída da Marina (ver post seguinte), que não saiu por causa de corrupção, como aliás não tinham saído o Gabeira (saiu por divergências com a política ambiental) nem o PPS (saiu porque queria mais cargos e porque a política econômica era a mesma do FHC, o que os fez apoiar, daí em diante, o FHC). Mas a conjunção de sua saída com o arquivamento das denúncias contra Sarney tornou o dia de ontem especialmente ruim para o PT, talvez o pior de sua história.
Nossa fraqueza é nossa bancada pequena no Legislativo. Sempre foi, continua sendo, e não adianta reclamar: é por aí que os adversários vão continuar atacando. Vai haver cada vez mais jogadas como essa até a eleição de 2010. Ou pensamos em uma nova coalizão, ou vai continuar sendo isso, e, se perdermos, ainda vamos ter que aguentar, adding offense to injury, as mesmas vozes indignadas de hoje achando normalíssimo que a direita faça alianças com os Sarneys desse mundo.
Agora é respirar fundo e tentar construir um partido para o qual o Flávio Arns queira voltar.
PS: não sei se Sarney está a fim de fazer política, ainda, se tem saúde para isso. Talvez até aceite sair para cuidar da vida, agora que não sai mais cassado. Mas suspeito que não vá querer se aposentar acuado. E é um daqueles caras que, como dizia um sujeito que entendia razoavelmente de política, se você resolver atacar, não dê chance de revide. Não acho que ele tenha gostado de ver seus velhos companheiros de conchavo o acusando.


on Aug 21st, 2009 at 12:48 pm
O que eu não entendo na lógica toda que todo o mundo aceita é por que esse pragmatismo todo para salvar a aliança com o PMDB se o Congresso não serve para a nada, mesmo com maioria governista e com a certeza que nenhum escândalo "ético" derruba mais governo nenhum, a não ser que você esteja no Rio Grande do Sul. Ou seja, a desculpa de que precisa-se de maioria para governar cada vez mais fica desacreditada. Afinal, o que é que se vota no Congresso, fora o orçamento, que o governo Lula precisa tanto? A coisa me parece ainda mais estranha quando se vê que além de negociar a história do partido no parlamento, o governo ainda cede parte da administração federal (comunicações, sistema elétrico, saúde).
Estão se queimando muitas caravelas. O PT, que vinha de bons resultados locais, está desaparecendo de São Paulo, de Minas, no Rio já era, enfim, deixou de produzir lideranças estaduais com potencial nacional. O PSDB pode ter se esfacelado como projeto e como grupo nacional, mas ter Aécio e Serra e seus dois estados relativamente consolidados é um asset e tanto.
on Aug 21st, 2009 at 1:28 pm
João Paulo, o congresso cooptado não tem importância. O congresso contra você pode te derrubar…
NPTO, será que vale destruir o partido para garantir a continuidade na presidência? Muito do sucesso do governo Lula está na sua capacidade de conversar com os atores sociais que estavam representados historicamente no PT. À medida que você se afasta esses agentes sociais do partido será que você não perderá a capacidade de fazer políticas progressistas e entrará crescentemente numa fase de autismo político e descolamento partido-sociedade que (para mim) foi uma das marcas do governo FHC?
Abs
on Aug 21st, 2009 at 1:29 pm
"saiu porque queria mais cargos e porque a política econômica era a mesma do FHC, o que os fez apoiar, daí em diante, o FHC"
HAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHA!!!!!
Aliás, de que adianta ser ateu e, a despeito de tudo isso, ter FÉ no PT e continuar votando nele?
on Aug 21st, 2009 at 1:54 pm
JPR, acho que é mais ou menos o que o Arthur disse. O medo é outro 2005. E embora o Congresso não possa propor muita coisa, pode barrar muita coisa. Não que o PT no segundo mandato esteja com uma agenda legislativa muito impressionante, mas esse é outro problema.
on Aug 21st, 2009 at 1:57 pm
Pois é, Arthur, já pensei nisso, também. Se bobear era melhor perder e sobreviver. Mas se perder agora também vai ser péssimo, porque tenho medo do partido se retrair ideologicamente (e acho que um governo Dilma seria melhor que um governo Serra).
Quanto ao diálogo com a base, essa é a questão de um milhão de dólares: que programa podemos ter que seja o que o país precisa e envolva os movimentos sociais ativamente?
on Aug 21st, 2009 at 1:58 pm
Bom, eu não sou ateu, mesmo
Mas hoje em dia não se pode acreditar nem no Flamengo!
on Aug 21st, 2009 at 2:21 pm
Na ausência de uma alternativa e enquanto a maioria deles está dentro do PT, não vale a pena para nenhum movimento social romper com o partido (e se não me engano nem mesmo o MST fez isso explicitamente).
A questão é que a medida que o tempo passa e o PT se desgasta (ou perde a capacidade de renovar lideranças e inovar politicamente) menos dos novos atores sociais se integrarão ao partido. Fora que há sempre o risco do partido se romper. E a cada movimento social que sai cresce o incentivo marginal a mais movimentos saírem.
Resultado, com o tempo pode ser que o PT deixe de aglutinar tantos setores sociais e populares em torno de plataformas progressistas como aglutina hoje. E dispersos esses setores teriam muito menos poder e seriam muito mais facilmente capturados por outros interesses políticos.
on Aug 21st, 2009 at 3:02 pm
1. Nada se repete em história, portanto, em político. É um medo infundado. 2006 enterrou 2005 de forma miserável ou fantástica, a depender do olhar. Sinceramente, quanto mais a oposição acreditar que pode pegar Lula, Dilma ou o PT por aí, mas isso deveria incentivar a deixar este flanco aberto. Nem se Lula fosse pego numa cena a la Edir Macedo, ainda por cima bolinando criancinhas, num convescote com Chavez e a cupula das FARC, ele cairia ou a Dilma perderia. O Congresso perdeu toda capacidade de barrar qualquer coisa, mesmo que adote o comportamento mais explícito de que o faz em troca de alguma coisa.
on Aug 21st, 2009 at 3:20 pm
2. Mas do que se está falando quando se menciona "movimentos sociais"? MST? Uns poucos milhares de porralocas cuja presença faz justamente com que o PT tenha pouca chances eleitorais em São Paulo e Rio Grande do Sul (não fosse a ajudinha da Yeda…)? O sindicalismo operário? Qual seu peso social em tempos de globalização? As CEBs que já refluíram e tem algum peso apenas no Pará e em algumas localidades nordestinas?
Me parece que certa esquizofrenia petista deriva daí: não se pode romper com os movimentos sociais, pois eles são na realidade, mais símbolo e militância do que uma carta eleitoral importante, mas tampouco se pode implementar suas políticas, pois daí iriamos para o regressismo comunitarista a la países andinos que, claramente, é impraticavel.
Sobra o funcionalismo público, e este me parece o núcleo que mantém o PT, para o bem e para o mal, nos quadros da esquerda dos anos 80. Este funcionalismo se mantém fiel porque o PT mudou a relação consigo, uma diferença muito grande com FHC, apesar deste não ser o diabo que se pinta. No entanto, mesmo nele se ouve repetidamente o papo do desencanto por causa das escolhas feitas em nome da tal defesa de um projeto de nação.
Os antigos movimentos sociais não estão se afastando do PT porque ele apoiou o Sarney ou por causa do mensalão. Assim, o PT perde eleitorado na sua base de classe média e em uma parte marginal dos servidores por causa das alianças; não ganha muito seja eleitoralmente, seja programaticamente, por manter os vínculos com os MST da vida; e abocanha uma imensa fatia por causa do ProUni, do BF e do salário mínimo, que independem do Congresso ou passariam nele mesmo que todos os parlamentares se convertessem em Bornhausens furibundos. Um eleitorado volátil que não manterá fidelidade ao partido, mas sim ao Lula e, mesmo assim, será sempre muito pragmático.
on Aug 21st, 2009 at 3:22 pm
Não é outro problema: é parte essencial do mesmo problema. Se não tem agenda, ora bolas, então não tem necessidade do Congresso, não é mesmo?
on Aug 21st, 2009 at 6:43 pm
Cara, não adianta botar a culpa no PFL. Quem tomou a decisão de defender o Sarney custe o que custar foi o próprio PT, não? Tudo bem que o PT tenha votado no Tião Viana, mas a decisão de defender os bigodes do Sarney a qualquer custo não pode ser imputada diretamente ao PFL, embora eles devam estar dando gargalhadas.
Pra falar a verdade, eu entendo que vc queira dizer que o PT caiu numa armadilha do PFL, soa como aquele discurso do seu partido segundo o qual é tudo culpa dos outros por mais que o PT seja a porra do governo há anos. Não, não é. O PT está pagando pelos próprios erros e se os adversários deram uma forcinha isso não torna a situação culpa deles.
on Aug 21st, 2009 at 7:12 pm
faltou um mas ali entre o PFL e o soa.
E cá entre nós, há muito tempo que o PT só vem tomando decisões ruins hein? Apoiar Paes contra Gabeira springs to my mind.
on Aug 21st, 2009 at 7:32 pm
Fábio, não tem dúvida de que a culpa por não conseguir uma maioria é de quem não a consegue. Mas também não tem dúvida de que a eleição do Sarney foi culpa do PFL. Eu acho muito pior o PT não ter conseguido ampliar seu diálogo com mais setores da sociedade (o que é uma das razões da bancada menor do que deveria ser dada a popularidade do governo), o que poderia ter feito, do que ter defendido o Sarney, o que eu não sei se poderia sem perder a capacidade de governar.
on Aug 21st, 2009 at 7:35 pm
Pois é, a articulação política do governo foi muito ruim, ao contrário das políticas econômica e social. Mas era uma tarefa muito, muito difícil. Apoiar o Paes é exatamente a mesma coisa de agora: precisar do PMDB. Sem o PMDB, e sem comprar a frente mensalão, ou você fecha com o PSDB ou está ferrado, e, como dito aí em cima, fechar com o PSDB também seria muito difícil.
on Aug 23rd, 2009 at 12:49 am
É exatamente o q eu penso. Lula ascendeu a uma condição de inimputabilidade única. O seu comportamento de “fazemos o q outros fazem” ou “agíamos assim (irresponsavelmente) pq éramos oposição e precisávamos ganhar” é um espetáculo diuturno de realpolitik às claras. É quase uma “pornopolitik”. (e não vai aqui uma reprovação generalizada, pois penso q, em muitas das vezes, a coisa foi muito didática e contribuiu – e ainda o faz – para amadurecer politicamente a sociedade).
Se quisesse mesmo, poderia mandar às favas o Sarney, q nada comprometeria a vitória de Dilma (se a propaganda conseguir repassar uma parte de seu capital eleitoral à moça, o q acho q é moleza para Duda Mendonças da vida).
Mas JPR, o pessoal tem razão: o parlamento pode atrapalhar muito, e é imprescindível para a se aprovar parte da agenda do Governo Federal. Uma coisa é ganhar eleição (qto a isso estamos de acordo, nenhuma barbaridade de Lula o faria perder qq votação no
on Aug 23rd, 2009 at 12:53 am
Bom, a agenda dos caras é, de modo geral, regressista. Mas, simbolicamente, encanta parte do eleitorado petista essa coisa de "estar junto com os movimentos sociais" – ainda q muitos deles desconheçam por completo o q os caras propõem. (é claro q não é o caso do dono do blog!).
on Aug 23rd, 2009 at 12:56 am
Último pitaco aqui: eu acho q o Sarney é dos coronéis mais palatáveis q há. Sujeito sereno, experiente, costuma ser ponderado. Se há a necessidade de uma composição mínima com a "velha ordem" para se avançar (penso q sim), q, ao menos, essa composição se dê com a "vanguarda do atraso". Acho q está furos acima de Barbalho, Renan e quejandos.
on Aug 25th, 2009 at 9:01 am
[...] pra isso (o parlamenturismo do Gabeira e as bolsas de estudo do Virgílio são só um exemplo da hipocrisia desse [...]