Neste domingo, O Globo publicou a seguinte manchete sobre o Bolsa-Famíla:
É a principal manchete da edição de domingo. Podemos supor que é algo que os editores d’O Globo discutem com certo cuidado. A matéria está aqui.
Pois, vejamos.
1.
Bem, eu vou apresentar alguns pontos metodológicos, mas, se você não tiver paciência para ler meu post, só concorde comigo no seguinte. Você não pode colocar a seguinte manchete de capa:
Bolsa-Família inibe expansão do emprego formal no interior
E, na página 3, escrever o seguinte:
A precariedade do emprego formal nessas cidades – municípios pobres, com população abaixo de 30 mil habitantes – não tem relação direta com a concessão do Bolsa Família. Existem barreiras anteriores ao programa que impedem o acesso dos trabalhadores a empregos: a baixa escolaridade e a falta de capacitação profissional. As parcas vagas com carteira assinada no comércio de Presidente Vargas exigem ensino médio (ênfase - NPTO)
Vou deixar de lado o fato de que no sub-título embaixo da manchete de capa, “Em cidades onde o programa beneficia 71% das famílias, trabalho chega a 1,3% da população”, “emprego formal” já virou “trabalho”, o que sugere que, nessas cidades, só 1,3% da população trabalha.
Podemos discutir se jornalista tem que saber estatística (alguns dos melhores jornalistas acham que tem, sim), mas não há dúvida que tem que saber escrever com precisão. A manchete da capa indiscutivelmente sugere uma relação causal, direta, claramente identificável, entre o BF e a informalidade do trabalho. Como demonstra o trecho da página 3 citado acima, bem cedo na matéria O Globo já desistiu de provar esse argumento.
A matéria toda, portanto, é uma indiscutível catástrofe. Por masoquismo, vejamos como a coisa continua. A estrutura do argumento é constituída de (1) números que sugerem que há uma correlação entre extensão do BF e informalidade, o que, como vimos, naufraga três parágrafos texto adentro,(2) a sugestão de que a causa real da informalidade é o baixo nível educacional da população, e (3) a apresentação de três depoimentos sugerindo que o BF desestimula a população a procurar qualificação profissional, e, portanto, indiretamente, estimula a informalidade.
Note-se já o seguinte: não há um único especialista em pobreza, ou alguém com formação em métodos quantitativos, citado na matéria. Isso apesar do Brasil ser sede de um centro de estudos sobre pobreza da ONU, e da literatura sobre o BF já ser razoavelmente extensa.
Vamos começar discutindo os números. Todos os dois.
2.
A hipótese de trabalho d’O Globo, supondo que não levemos em consideração a retratação já apontada, é que o Bolsa Família faz as pessoas desistirem de procurar emprego formal.
Isso é um raciocínio causal. A estatística nunca resolve debates sobre causalidade, porque, bem, nada resolve. Nas ciências naturais, a regularidade é suficiente para a gente agir como se resolvesse, mas se você quiser achar uma lei geral das sociedades, bem, welcome to hell. Tendo dito isto, é claro que, se você achar uma correlação entre duas variáveis, você, sem dúvida, aumentou a credibilidade de sua hipótese acentuadamente.
Daí em diante, ainda vai ser possível discutir seu resultado, mas aqui já passamos de um ponto metodologicamente primitivo que é completamente ignorado na reportagem: PARA FAZER UMA AFIRMATIVA CAUSAL, É PRECISO APRESENTAR OS DADOS SOBRE DOIS PONTOS NO TEMPO.
Olhem lá os dados apresentados sobre alcance do BF e formalização de emprego: na verdade, só tem dois números: em cidades onde o programa beneficia 71% das famílias,o trabalho formal chega a 1,3% da população.
Para começar a conversa, deveríamos ter dados sobre qual era a porcentagem com emprego formal antes do BF. Se ela fosse menor do que 1,3% (o que é perfeitamente plausível: em uma das cidades analisadas, os 4 trabalhadores formais foram contratados há pouco tempo), o BF pode ter levado a uma ampliação do emprego formal. Se ela for significativamente maior que 1,3%, por exemplo, 10%, o BF vira suspeito, mesmo, mas nada remotamente semelhante é sugerido na reportagem. E, o que acho muito mais provável, o número fosse mais ou menos o mesmo, um pouco menor ou maior, não encontramos relação entre as duas coisas.
Claro, mesmo assim, a análise deveria ser aprofundada. Por exemplo, digamos que tenha subido de 1,2 para 1,3 nas cidades analisadas, e de 45 para 80 nas grandes cidades. Em uma análise de regressão incluindo muitas, muitas variáves de controle, poderíamos checar se a taxa de formalização foi menor onde há BF. Isso estaria longe de ser um resultado indiscutível, mas já teríamos deixado o terreno do metodologicamente trivial.
O que, no caso, nunca acontece. Os autores da matéria parecem desconhecer mesmo que tipo de dados deveriam falsificar para provar sua hipótese.
3.
Na verdade, embora a questão da formalização apareça na manchete, ela desaparece completamente bem cedo no argumento. Quando aparece, é no sentido contrário ao da manchete: um lojista diz que não assina mais carteira porque a mão-de-obra não é qualificada (voltaremos a isso). Tendo visto que essa linha de argumentação não ia funcionar, mesmo, diz O Globo:
“Os beneficiários do Bolsa Família não estão no mercado formal nem no informal”.
Bom, então o problema é outro: o BF tira trabalhadores de empregos informais. Só pra deixar claro: O Globo, a essa altura, já desistiu do argumento apresentado na manchete. Mas ainda não devolveu pra nenhum leitor o dinheiro gasto com o jornal.
É perfeitamente possível que o BF reduza a probabilidade de um trabalhador aceitar emprego informal, porque esses empregos em geral pagam muito pouco, e seu valor já é próximo ao do BF. Em famílias em que o custo de cuidar das crianças é razoável, pode ser melhor, mesmo, ficar desempregado. E há os vagabundos. Mas, mesmo para essa nova hipótese, quais as evidências apresentadas?
São três depoimentos: um, da secretária de assistência social de Presidente Vargas, uma das cidades analisadas. Outro, de uma pessoa que trabalha na Pastoral da Criança do mesmo município. As duas argumentam que o BF desencorajou a participação em iniciativas de qualificação profissional promovidas por elas. Em um caso, fala-se de 70 pessoas inscritas no curso, no outro, 20 pessoas.
É possível que haja alguma relação aí, mas, antes de mais nada, lembremos que essas pessoas não recusaram emprego: recusaram formação técnica, que tem um custo (o tempo gasto no curso pode ser usado em um emprego ou em cuidar das crianças), que é pesado contra os retornos esperados (haveria, mesmo, tantos empregos de manicure disponíveis em Presidente Vargas?).
Repito: é possível que o BF iniba o emprego informal, mas, nessa reportagem, ao menos, não há nada que sequer comece a provar essa hipótese.
O terceiro depoimento é mais interessante, de uma senhora aposentada que reclama que, por causa do BF, ninguém mais trabalha na roça, e o preço dos alimentos subiu. Esse é o tipo de coisa em que eu acreditaria bem mais se visse dados estatísticos, e talvez eles existam: certamente poderiam ser colhidos em trabalho de campo. Mas também é verdade que um aumento no preço dos alimentos consumidos pelos pobres é algo inevitável sempre que eles tiverem aumento de renda, e, eventualmente, será corrigido pelo mercado, quando mais gente perceber a oportunidade e for plantar feijão. Mais importante: não é claro que as pessoas que abandonaram a roça (e foram para a cidade, segundo a aposentada) não estejam trabalhando. Ainda mais importante: isso não tem nada a ver com o que a matéria pretende demonstrar.
Na verdade, esses argumentos só podem ter alguma utilidade se a gente for bem camarada e supor que O Globo está propondo o seguinte argumento: o BF diminui o incentivo para a qualificação profissional, e isso diminui a formalização, visto que, como já demonstrado pelo depoimento de um dono de loja, a causa da informalidade é a falta de credenciais educacionais.
O que é desmentido, sem sacanagem, imediatamente abaixo, na própria reportagem, pelo depoimento de uma das quatro pessoas contratadas com carteira pelo lojista, que diz que na cidade pessoas com o mesmo nível educacional dela (secundário) trabalham como domésticas por 100 reais ao mês, o que não aconteceria se houvesse, de fato, patrões ansiosos por assinar carteiras para quem completasse o secundário. Aliás, porque existiria isso?
A relação entre educação e pobreza existe, mas é mais complexa do que se pensa: mesmo se todo mundo tivesse diploma de engenharia do MIT, não seríamos todos engenheiros, mas algum engenheiro do MIT limparia as privadas. A relação simples postulada no começo da matéria simplesmente não vale.
4.
Só pra ter uma idéia, vamos estabelecer o que seria uma boa análise desse tipo.
É perfeitamente possível que um programa de transferência de renda iniba a formalização do emprego. Se a renda transferida for mais ou menos semelhante ao salário mínimo, isso vai acontecer em algum grau. Mas, no caso do BF, não é, porque a implementação do BF se deu concomitantemente ao crescimento significativo do Mínimo.
Isso poderia acontecer, também, se o BF oferecesse um nível de vida tal que os indivíduos começassem a topar perder renda para desfrutar lazer. Isso deve acontecer com alguém. Mas ninguém me ofereceu evidência de que isso tenha alguma expressão quantitativa. E a diferença de quem ganha 500 pra quem ganha 200 pratas é muito, muito grande. Se o cara não morar em uma praia em Fernando de Noronha, não vale a pena.
Finalmente, deve, sim, haver gente que não aceita empregos formais para não perder o BF, por exemplo, porque a renda que seria ganha com a formalização seria gasta em conseguir algum subempregado para cuidar das crianças. A solução seria transformar o BF em renda básica, ou fornecer creches públicas (o que deveria ser uma prioridade no combate à desigualdade no Brasil).
Mas, aqui, naturalmente, estamos em terreno argumentativo muito mais sofisticado do que o da matéria d’O Globo. Quer dizer, O Globo de domingo.
5.
Em uma demonstração de cara de pau inacreditável, O Globo de segunda-feira apresenta o depoimento de especialistas que dizem mais ou menos isso que nós estamos falando aqui. Eles não estavam disponíveis para a entrevista no domingo? Porque a matéria de segunda está escondida no meio do jornal e a de domingo era a principal manchete?
Na época do concurso do IPEA, essa mesma turma não estava protestando (com uma certa razão) dizendo que análise econômica tem que ser feita por quem sabe métodos quantitativos?
(Aliás, já que estamos no assunto, uns caras ortodoxos e que devem saber métodos quantitativos argumentam que o efeito do BF sobre o crescimento do PIB é considerável)
5.
Mas digamos que, em algum lugar, alguém, inexplicavelmente não chamado para depor ao Globo, tenha provado que o BF reduza o emprego formal, o emprego informal, ou, pelo menos, a freqüência nos cursos de manicure.
O que temos que fazer é comparar o tamanho desse problema com o problema que havia antes: dezenas de milhões de pessoas na miséria absoluta. Aí, então, formaremos uma opinião baseada nas evidências. Claro, cada um interpretará esses resultados de acordo com seus princípios, mas, sinceramente, tem alguém que sustente que se um único sujeito for desencorajado em seu empreendedorismo, é errado tirar dezenas de milhões de pessoas da miséria? Não, não tem. Se 100.000 pessoas tiverem sido desencorajadas, já temos uma discussão, se 20 milhões, temos um debate em que eu estou perdendo.
Mas não é possível que um dos maiores jornais do país promova uma discussão sobre a principal transformação ocorrida no Brasil na última década com esse nível de superficialidade. É perfeitamente razoável discutir eventuais efeitos ruins de algo que toda evidência sugere que é bom, como o BF. Mas a reportagem desse domingo não foi nada disso, foi apenas um desastre jornalístico com objetivo evidentemente eleitoral.
Sustento que O Globo melhorou muito nos últimos anos, e está, inclusive, melhor que a Folha. Mas se quiserem fazer essas gracinhas, não vai dar mais pra defender. Apóiem o partido que vocês quiserem, mas não ofendam minha inteligência.
Me ocorre, inclusive, que podemos usar essa matéria como teste de QI para jornalista, vendo quais citarão isso aí com aprovação. Vamos ver se dá certo. Dá.



on Oct 27th, 2009 at 2:46 pm
Bom, o benefício Macroeconômico é ótimo e mais ou menor óbvio – a propensão ao consumo dos caras é igual a 1.
E os bolsões de beneficiários ficam nos rincões mais escoimados q se possa imaginar, o q multiplica a percepção localizada de melhora no bem-estar.
No atacado, o programa é ótimo, estou contigo.
Mas os aspectos sociais – no campo da moral e dos valores, por exemplo – ainda precisam ser melhor avaliados.
on Oct 27th, 2009 at 3:04 pm
Senhor post, caro NPTO, senhor post!
E o melhor, sem apelar para maniqueismos, PIG etc. , e ainda por cima com o bom-humor de sempre.
Muitos aplausos por aqui!
on Oct 27th, 2009 at 6:01 pm
Celso, Matou a pau, como de costume. O pior é que tem gente louca para ler argumentos contra o Bolsa Família e vai usar a matéria do Globo como prova de que o programa tem problemas graves. É muito ruim, impressionante. O post sobre Nova York ficou muito bom – e descobri que, como eu, você também é fã do Vermeer
Um grande abraço,
Marcos
on Oct 27th, 2009 at 6:15 pm
Para ficar no clichê, não fizeram o dever de casa. Dá para contra-argumentar alguns pontos que você levantou, claro, mas isso só indica que seu post é, de fato, um argumento. O artigo do Globo, ao contrário, foi apenas uma série de notas e chamadas ordenadas equívocadamente. Como liberal-libertário, tenho a dizer apenas o seguinte: já estou mais que acostumado com esse tipo de reportagens tendenciosas, se conseguir, depois reúno alguns dos milhões de casos. Como a formação de 90% dos jornalistas e de profissionais da comunicação é parecida com a do lamentável PHA, esse modo de "informação" se espalha nos jornais, na internet, na TV aberta e a cabo – não, não falo somente da ridícula Caros Amigos, em manchetes e revistas ocasionais, mas quase tudo mesmo. Abs,
on Oct 27th, 2009 at 6:24 pm
[...] O Globo e o Bolsa-Família – Na Prática a Teoria é Outra O Globo e o Bolsa-Família [...]
on Oct 27th, 2009 at 6:31 pm
Ok, vou lá no vale do jequitinhonha falar pra aquela mãe com 4 filhos passando fome e sem roupas pra usar pra ir pra escola, sobre "moral e valores".
on Oct 27th, 2009 at 6:35 pm
Meu, fantastico post. É incrivel essa tentativa de distorcer um programa fenomenal como esse, que esta salvando miseraveis, nao da violencia de sao paulo ou do rio, nao da falta de emprego, nao dá falta de educaçao, não da falta de saude.
Esta salvando eles da fome e da miseria extrema. Essas pessoas só olham pros pobres de dentro do carro com ar-condicionado ou pela tv de oled de 52".
Pq O Globo nao faz uma materia sobre o Programa de Qualificaçao que o MDS criou pra atuar junto ao BF? Pq nao interessa a eles mostrarem as virtudes. É deprimente.
PS.: Vc viu que eles alteraram a chamada no online?
on Oct 27th, 2009 at 6:39 pm
Posso estar sendo meio simplista agora (mesmo estando fora da persona JJ) mas notei que na reportagem não foram computados os autônomos, que não são empregados "de fato" mas respondem pelos encargos de suas atividades, ou seja, não deveriam ser considerados informais apenas por não ter carteira assinada, isso sem falar dos agricultores de subsistência. Não sei se afetaria muito a análise, mas esse aspecto nem mesmo foi abordado.
on Oct 27th, 2009 at 6:39 pm
Putz, a matéria nem merecia uma análise tão detalhada – mas eu fico feliz de ver que alguém se deu ao trabalho. Eu nem atribuo os erros do Globo a "golpismo", mas ao corre-corre de um jornal diário (como bem argumenta o Sergio Leo, por exemplo).
Na dúvida, sigo aquela máxima: "nunca atribua à malícia o que pode ser explicado pela ignorância". Se todo mundo a seguisse, as discussões esquerda-direita seriam bem menos intensas (mas bem menos divertidas, também)…
on Oct 27th, 2009 at 7:00 pm
O Igor tem razão. É claro que neste caso a burrada mal esconde um interesse político específico. Mas o problema não é tanto o interesse (desde que seja claro), e sim a superficialidade, que, infelizmente, toma a imprensa pátria.
on Oct 27th, 2009 at 7:02 pm
Outra ladainha que não aguento é a ausencia das tais "portas de saida". Pelamordedeus, eles tem que arrumar um desconfiometro:
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/programas_comp...
on Oct 27th, 2009 at 7:44 pm
Celso,
nem consigo ler o teu texto todo. Só fico pensando na atitude franciscana de criticar uma reportagem mal-feita como essa. Como quase todas que lemos quase sempre, o que me fez pular para os blogs e parar de ler jornal.
Discordando do Marcelo no comentário aí acima, não dá pra creditar essas coisas ao corre-corre do jornal. Afinal, é no mínimo interessante que os grandes veículos de comunicação optem por aprontar textos sempre apressados e mal-feitos, e que os "erros" decorrentes dessa pressa tenham sempre uma incrível coerência ideológica.
Acho que é mais o caso de pensar, se não quisermos imputar por má-fé, não em corre-corre dos jornais, mas em degradação da atividade jornalística. Cadê os grandes jornalistas das redações? Cadê as reportagens? Parece que só têm estagiários escrevendo lá, ganhando um salário de merda, que afinal não dá tempo pra fazer nada melhor mesmo…
on Oct 27th, 2009 at 8:56 pm
Não dá pra creditar ao corre-corre mesmo. Nenhum jornal que se preze, e aí ainda se inclui O Globo, fecha sua capa com manchete dessas. É má intenção mesmo. E justifica o trabalho franciscano que imagino tenha exigido este brilhante post desmascarador
on Oct 27th, 2009 at 8:59 pm
É só má fé.
Aproveitam a absoluta dificuldade que a maioria das pessoas tem para ver e entender números e soltam as maiores barbaridades.
A "pesquisa" do IBOPE sobre os assentamentos do MST está dentro da mesma coerência na má fé.
Depois do straw man existe o straw data. Números que eles arrancam do reto com o emprego de um gancho e jogam para os paspalhos de sempre repercutirem e malharem mostrando o seu despreparo, falta de noção de ordem de grandeza ou QI de ostra, mesmo.
Leu lá os comentaristas do RA?
on Oct 27th, 2009 at 9:33 pm
Grande post (em qualquer sentido)!
Só gostaria de comentar uma coisa: uma coisa é o impacto que o bolsa-família tem no PIB, no curto prazo, que deve, sim, ser positivo e significativo. Outra coisa é o impacto dessa coisa na taxa de crescimento do PIB de longo prazo (digamos, uma tendência pegando vários anos). O impacto no curto prazo, que é o que foi citado, é quase sem-importância perto do impacto sobre a taxa de crescimento de longo-prazo. Qual seria esse impacto? Não sei, e acho que ninguém sabe. Se for verdade que o programa exerce impacto negativo sobre a oferta de trabalho, e se for verdade que, no longo prazo, o produto é dado pela dotação de fatores e pela tecnologia, então pode ser que o PIB seja negativamente afetado.
Agora vou parar antes que o comentário fique maior que o post.
=)
on Oct 27th, 2009 at 9:49 pm
Dificilmente o impacto sobre oferta de trabalho é quantitativamente relevante. Para o impacto sobre a oferta de trabalho ser grande você teria que supor que os membros de famílias pobres (com renda per capita menor que R$300) estão naquela faixa em que se aumenta a renda o indivíduo consome mais lazer. Muito difícil convencer alguém disso! Creio que a pesquisa existente sobre o tema (conheço de passagem uma dissertação de mestrado do CEDEPLAR/UFMG) indica exatamente isso. Um outro impacto de longo prazo do programa seria sobre educação, especialmente sobre a taxa de matrícula e sobre a progressão dos alunos e creio que a evidência existente é em grande medida favorável ao Bolsa-Família aumentar a taxa de frequência e aumentar a probabilidade de progressão de uma série para outra. Nesse sentido, os impactos de longo prazo do programa parecem ser positivos.
on Oct 28th, 2009 at 12:21 am
Se os donos das Organizações Tabaj… digo, Globo, lessem esse post, o dos Torreões e os comentários aqui e acolá sobre o tema, creio que demitiriam o editor e os repórteres responsáveis. Se esse resultado se extendesse à Veja, acho que chegaríamos à seguinte manchete:
MATÉRIAS SOBRE O BOLSA FAMÍLIA INIBEM EXPANSÃO DO EMPREGO FORMAL NA IMPRENSA.
on Oct 28th, 2009 at 1:11 am
[...] política Duas fortes discussões rodaram a bloguestroika: no córner esquerdo do ringue, NPTO versus O Globo; no direito, Not Tupy contra a Veja. Em ambos os casos, a grande imprensa se limitou às cordas. [...]
on Oct 28th, 2009 at 1:43 am
Valeu, rapaz!
on Oct 28th, 2009 at 1:44 am
Bem, quando avaliarem a gente discute.
on Oct 28th, 2009 at 1:45 am
Valeu, mestre, fazia tempo que não aparecia! O pior é que na oposição o que mais tem é economista competente que conseguiria fazer algo sério, mas o resultado provavelmente seria algo balanceado demais para gerar manchete.
E Vermeer é fera, mesmo.
on Oct 28th, 2009 at 1:46 am
Fala! Quando quiser discutir qualquer coisa é só aparecer!
on Oct 28th, 2009 at 1:46 am
Pois é, puta negócio tosco, mesmo.
on Oct 28th, 2009 at 1:47 am
Valeu! Não, não vi a chamada, não, vou lá ver.
on Oct 28th, 2009 at 1:47 am
Cara, tudo isso é importante, mas está furos acima do nível de sofisticação da reportagem.
on Oct 28th, 2009 at 1:49 am
Marcelo, nesse caso há uma certa tosquice (na reportagem), mas há malícia, também (na manchete)
on Oct 28th, 2009 at 1:50 am
Bom, mas a questão da porta de saída pelo menos é uma questão legítima, que pode ser objeto de discussão, etc.
on Oct 28th, 2009 at 1:55 am
Eu acho até que tem uns jornalistas bons. Mas de vez em quando sai uns negócios desses, mesmo.
on Oct 28th, 2009 at 1:57 am
Pô, rapaz, cê acha que eu vou ler comentarista do RA? Mas eu acho que a má fé foi dos caras que fizeram a manchete, a reportagem só é tosca, mesmo
on Oct 28th, 2009 at 1:58 am
É isso aí.
on Oct 28th, 2009 at 1:59 am
Como diria Janúario, cruel, muito cruel o jovem JPR.
on Oct 28th, 2009 at 2:28 am
Olha, um post impressionante mesmo.
Existe um outro dado, que é sempre chutado pelos detratores do programa, que fala na tal compra de votos. Bem, uma pesquisa da FGV mostra que, sim, cresceu o número de votantes do Lula nas áreas beneficiadas pelo programa -por sinal, o eleitorado lulista mudou muito da primeira pra segunda eleição-, mas nem de longe em quantidade que possa levar o programa a ser chamado de compra de votos. E olha que essa matéria quem deu foi o Estadão!
Por último, tive uma breve passagem pela redação de um grande jornal aí, na editoria de política nacional, e posso dizer que as matérias das primeiras páginas são toscas por sacanagem mesmo, mas do meio pro final, são toscas porque as redações ou só tem jornalistas cheirando a leite ou só tem jornalista ruim mesmo….
on Oct 28th, 2009 at 12:57 pm
Eu concordo que esse é um bom argumento. Na verdade, o objetivo do meu comentário é discutir a relevância daquele impacto (de curto prazo) sobre o PIB.
on Oct 28th, 2009 at 3:10 pm
"Me ocorre, inclusive, que podemos usar essa matéria como teste de QI para jornalista, vendo quais citarão isso aí com aprovação. Vamos ver se dá certo. Dá."
Pelo menos ainda não está ruim o suficiente para usar como teste de português em vestibular, embora seja covardia minha comparar.
on Oct 29th, 2009 at 7:24 pm
[...] só me falta o estômago, como também a paciência como a que o Celso possui, ele que anteontem destrinchou com maestria uma matéria d’O Globo sobre o bolsa-família. Como contraponto, fico com alguns artigos da Andes e outro da CONTEE, que de alguma forma refletem [...]
on Oct 29th, 2009 at 8:06 pm
[...] E acontece que a turma que estava satisfeita com tudo do jeito que estava, está reclamando pra burro. Por exemplo, já ouviu alguém reclamar do Bolsa Família? Pois é. Benefícios do Estado só pra classes médias urbanas (carteira assinada, aposentadoria do INSS, Universidades Públicas, rodovias federais, etc.). Para pobres não pode. Esse não é o assunto sobre o qual estou falando, mas em todo caso não custa dar uma olhada na análise do NPTO sobre alguns sofismas que circulam a respeito. [...]
on Oct 30th, 2009 at 5:48 am
[...] This post was mentioned on Twitter by Victor Marques, Victor Marques. Victor Marques said: Uma boa análise do que é mal jornalismo: O Globo e o Bolsa-Família http://bit.ly/xo5hl [...]
on Oct 30th, 2009 at 12:48 pm
frank – Aqui fiquei na dúvida. Não seria um benefício Microeconômico? No Macro não seria 0, já que o dinheiro investido no Bolsa Família é reitirado de algum outro lugar?
Abraços…