
Rapaz, duas notícias arrasadoras em pouco mais de uma semana.
1.

Quem me mandar uma foto do Fran's Campinas ganhará sinceros agradecimentos
Faz quinze dias, o Japajato veio aqui em Sampa e me contou que o Fran’s Café do Largo do Rosário, em Campinas, fechou. Foi o primeiro café 24 horas que conheci na vida, e várias vezes fui lá de madrugada para ler até de manhã, ou para terminar a noite. Por mais absurdo que isso possa parecer, eles tiveram, durante um curto período de tempo, uma garçonete que parecia a Audrey Hepburn. Juro.
Também foi o primeiro café que eu vi que tinha jornal. Todo dia eu lia jornal no Fran’s. O jornal era meio disputado a tapas entre as pessoas que frequentavam o local: eu, o Bernardi (que largou a faculdade de economia por uma ano, trabalhou como caminhoneiro, pegou malária, e depois foi fazer ciências sociais), uns chineses que todo mundo dizia que eram da máfia chinesa (mas que eu não tenho nem certeza se não eram coreanos), um ex-goleiro do Rio Branco de Americana, um jornalista esquisitíssimo, com uma barba de vilão de HQ, que dava em cima das garçonetes para grande desespero das coitadas. Aos poucos, espontaneamente, emergiu a regra de que ninguém podia levar mais de dois ou três cadernos do jornal para sua mesa ao mesmo tempo.
Durante minha época de faculdade, não me lembro de nada de importante que eu não tenha emendado com um café naquela budega. Todos os meus maiores amigos da época tiveram pelo menos uma conversa de pelo menos três horas comigo tomando café no Fran’s.
A última vez que fui lá foi agora, em Maio, com o mesmo Japajato, que me informou que seria transferido para uma nova seccional, o que eu entendi como uma transferencia para novo sexo anal. Fiquei meio na dúvida se dava parabéns, sei lá, cada qual é cada qual. Japajato, não sei se já cheguei a comentar, é o sujeito mais engraçado pra se conversar que existe. Quer dizer, quando ele fala, o que é raro.
Não houve nenhuma menina com quem eu tenha ficado mais que duas vezes que eu não tenha levado lá, até porque, se a mulher quisesse me encontrar, tinha que me procurar lá.
Ficava na Barão de Jaguara, mesma rua em que eu morava, e era a síntese dos dois melhores motivos pro sujeito fazer faculdade no IFCH, a biblioteca e a cantina. Bons tempos.
2.

Imagem tirada do Google Street Views, uma parada maneiríssima e assustadora
Eu ainda não tinha me recuperado do golpe (jamais me recuperarei) quando li no imortal Amiano Marcelino que vai fechar a Borders’ em que a gente tomava café em Oxford! Era todo dia, sem sacanagem, às 6 horas. Eu chegava lá, o Amiano estava lendo livro de viagem (quem lê o blog dele sabe que ele não fica dez dias no mesmo continente, agora foi pra Irlanda, mostrar sua obra-prima para os avós do obra-prima).
Como dois scholars que éramos, ali, na cidade em que Hobbes estudou e Locke foi enterrado (ou foi o contrário?), passávamos o tempo todo reclamando que mulher só dá trabalho. Ambos vivíamos nos metendo em encrenca por causa dos membros do belo sexo, e lá discutimos separações, encontros, desencontros, e a maneira pela qual todas nossas decisões importantes eram (são) tomadas por causa de coisas desse tipo.
Curiosamente, não comprávamos muitos livros lá. Em termos de livro acadêmicos, é difícil concorrer em uma cidade que tem a melhor livraria acadêmica do mundo (a Blackwell’s), e o Amiano comprava esses livros dele sobre romano de saia escrevendo na pedra em uma livraria especializada. Gostávamos mais de olhar os discos (me recuso a chamar disco de CD).
Talvez, inclusive, seja por causa de miseráveis como nós que o negócio tenha ido à falência.
Também foi lá que, certa vez, encontramos um grande amigo nosso, a little bit on the panqueca side, que não queria nos deixar entrar porque no café tinha um terrorista iraquiano (era pós-11 de Setembro, lembrem-se). Entramos para ver o cara, de quem nosso colega tinha suspeitado porque ele estava abraçado com uma mala. Se era terrorista, desanimou de se explodir, porque cá estamos. Sinceramente, suspeito que fosse brasileiro, porque acho que vi ele abrir um passaporte verde. Não sei porque estava abraçado com a mala, mas isso era entre ele e ela.
Foi lá também que o Amiano me disse uma das coisas mais sábias que já ouvi na vida. Quando eu me separei, o Amiano me deu a maior força, inclusive me chamando para ir com ele e mais três malucos andar três horas na ida e três horas na volta, na lama, embaixo de chuva, pra ver um muro romano no meio do mato (o que, sinceramente, achei maneiríssimo, espetacular), no dia em que minha já então ex-mulher foi pegar as coisas dela lá em casa.
Passados uns meses, falei, pô, mané, valeu pela força aí, e ele me respondeu citando o que Papai Noel disse ao Homem-Aranha em um célebre especial de Natal: Us heroes gotta stick together.
Bons tempos.
3.
Enfim. Estou ficando velho e sem café.
PS: o Amiano me jogou essa bomba no meio de um post bacana sobre livros. Outro dia na Folha saiu um artigo do Chartier sobre isso. Quando eu fazia ciências sociais, Darnton e Chartier eram febre entre os historiadores, ainda são? E, sobre livro, imortal.
PSTU: as imagens não estavam aparecendo, de repente apareceram. Eu, hein.


on Dec 11th, 2009 at 1:34 pm
Foi um negócio muito estranho não ver o Fran´s em sua sede histórica. Imediatamente olhei para o outro lado da praça para ver se o Giovanetti 1 ainda estava em pé. Pensei em correr para ali perto e conferir se o II também estava. É por essas e outras que, no fundo, não gosto de ir a Campinas.
Eu lembro de ti batendo ponto por lá, apesar de só ir aos sábados e domingos. Deixei de ser assíduo quando comprei um fusca e descobri o Fran´s perto do Taquaral, ao lado da 100% Video. Não ia viv´alma. Dava para ler a Folha e o Estadão se espalhando por umas três mesas, embaralhando todos os cadernos.
Darnton não tá com tudo como antes (em parte culpa do Chartier), mas Chartier continua batendo um bolão. Facilita o fato do sujeito ser daquele tipo que me faz sentir um merda: só por ir regularmente a um país por poucos dias, aprende a falar o idioma local. É da galera poliglota, tipo Hobsbawm e Ginzburg. Até português o sujeito fala – o que nem isso eu consigo…
on Dec 11th, 2009 at 2:17 pm
então, além do Franz, tinha o éden bar, logo ao lado, com aquele filé à vilalva. demais… tinha aspargos, e eu nem sabia o que era isso. E os garçons tinham 97 anos em média. E a regra do franz era um caderno de cada vez, mané. Por isso eu nunca achava o de esportes. E acho que eram coreanos… E enquanto isso a biblioteca do IFCH parece uma ameba, está englobando todo o espaço. Vai engolir a cantina em breve. Dé medo, mano.
igor
ps. veja o bacalhau no chihuahua (só essa frase vale a visita)
on Dec 11th, 2009 at 4:58 pm
Tem um café Anal Hêêê ou Anauê no Cambui.
Quer que eu te mande uma foto daquilo???
on Dec 11th, 2009 at 7:25 pm
Caramba, acho que todo mundo tem um Fran´s Café guardado em algum lugar da memória afetiva! hehehe
on Dec 11th, 2009 at 9:12 pm
O pior é que eu também tenho um Franz em minha vida! Era onde eu ficava namorando minha futura esposa antes dela entrar pro trabalho, que era na frente do café. Bons tempos. Belas reminiscências, NPTO!
on Dec 12th, 2009 at 2:17 am
"Aos poucos, espontaneamente, emergiu a regra de que ninguém podia levar mais de dois ou três cadernos do jornal para sua mesa ao mesmo tempo". Velho, você desvendou o mistério da origem das normas sociais, de que o Elster tanto fala.
Com relação ao muro romano, cara, já me separei também e chorei ao ler seu nobre relato. No meu caso, dois amigos me embebedaram com uísque. Porra, ia ser foda achar muro romano em NY…
Abraço e SRN eternas,
Rapha
on Dec 13th, 2009 at 9:01 pm
Chartier e Darnton ainda são moda sim!
on Dec 16th, 2009 at 12:06 am
Vem cá… você disse velho, mas… Velho quanto????
on Dec 16th, 2009 at 1:15 am
Eu lembro de vossa excelência no Fran's! Bons tempos.
on Dec 16th, 2009 at 1:17 am
Ih rapaz, foi mal, eu achava que podia pegar dois cadernos
Mal aí!!!!! Pode deixar que vou ver o bacalhau no chihuahua (dá gosto falar uma frase dessas).
on Dec 16th, 2009 at 1:17 am
Hehehe, bem, talvez não. Cê é de Campinas? Manda um abraço à cidade.
on Dec 16th, 2009 at 1:21 am
É fato!
on Dec 16th, 2009 at 1:21 am
Valeu, rapaz!
on Dec 16th, 2009 at 1:23 am
SRN, e da próxima vez guarde o uísque pra celebrar alguma coisa! Por exemplo, o Hepta!
on Dec 16th, 2009 at 1:33 am
Veja bem, Bruna, não é só que meu time de botão é o Flamengo de 81. É que eu digo minha idade fazendo referência a futebol de botão!
on Jan 23rd, 2010 at 5:35 pm
[...] no FHC, o que, da última vez, foi bacana. Fui a Nova York. Meus cafés favoritos no mundo fecharam.E tive minha primeira experiência de proximidade com a [...]