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Editora Landmark deve ir à falência

O Renato deu o toque aí embaixo, já tinha visto no Twitter, mas é até difícil acreditar.

Muitos de vocês devem conhecer a tradutora Denise Bottman, e duvido que alguém aqui não tenha lido alguma coisa traduzida por ela. Faz um tempo, ela e outros tradutores respeitados começaram uma campanha contra uns editores picaretas que roubavam traduções consagradas na maior cara-de-pau, e inventavam uns tradutores fictícios (é sério) para “assiná-las”.

O caso mais sensacional é o do célebre Pietro Nassetti, a quem a editora Martin Claret atribuiu traduções do alemão, chinês, francês, russo, sérvio-croata com sotaque de Belgrado, Pataxó Hã-Hã-Hã, e xhosa fanho falado enquanto se come farofa, sem que jamais tenhamos tido a oportunidade de conhecer esse incrível prodígio linguístico, que se recusa a aparecer em público, apesar de ter a honra de ter sido o primeiro tradutor de Machado de Assis para o português (pelo amor de Deus, não deixem de seguir esse link).

A história é o maior escândalo da cultura brasileira nos últimos anos, e mostra o nível dos sujeitos na mão dos quais está nosso mercado livreiro.

Pois bem, a turma lá dos tradutores feras continuou a caçar sem-vergonhas do mesmo naipe, e encontrou a editora Landmark, que roubou umas traduções da Jane Austen.

Recomendo fortemente a explicação dada pela Professora Bottman nos comentários do nosso post sobre como se acham os plágios em tradução. O critério mais interessante é o erro. Se dois tradutores traduziram “dog” por “cachorro”, não deve ser plágio, mas se dois traduzirem “dog” por “ressonância eletromagnética”, um copiou do outro. Eu usava procedimento semelhante para pegar cola dos meus alunos.

A lista dos indícios encontrados contra a Landmark é definitiva, não há como ter dúvida. Meu favorito é que a tradutora errou ao traduzir a idade da personagem, de 54 anos no original para 55 na tradução, e a Landmark “cometeu o mesmo erro”. Se a justiça brasileira fosse mais rápida, a Landmark fecharia em quinze dias. Se não prenderem o dono da Landmark, tem que soltar o Arruda.

Mas o mais espetacular é esse achado da Profa. Bottman, publicado na Tribuna de Santos:

Em uma reunião para definir qual seria o próximo lançamento da Editora Landmark, o diretor editorial, Fábio Cyrino, perguntou se já havia um tradutor para o novo projeto da empresa, a edição bilíngue de Persuasão, de Jane Austen [...]. Como não havia ninguém, ele se ofereceu: ‘Deixa que eu faço essa tradução’. Depois de dois meses debruçado sobre o romance, até então inédito no Brasil [ISSO É FALSO -NPTO], Cyrino tornou-se co-autor de Persuasão [...] Como Fábio Cyrino tinha conhecimento das obras de Jane Austen, a tarefa da tradução apresentou apenas as dificuldades comuns a qualquer trabalho do tipo. [...] Como no Brasil o tradutor de um livro é considerado seu co-autor, ele acredita que sua colaboração para com o último romance de Austen foi ‘torná-lo acessível a mais leitores’. Antes do lançamento da edição bilíngue, os brasileiros liam a história apenas se a importassem.” [ênfase, e esforço sobre-humano para não ir agora à sede da editora com minha máscara de Jason - NPTO]

Mas aí é que fica pior, mesmo. Os editores da Landmark resolveram processar a Profa. Bottman por calúnia, pedir segredo da justiça, e pedir o fechamento do blog da Professora . Felizmente, a justiça não aceitou os dois últimos pontos.

Roubar e depois processar é o que se chama de add offense insult to injury. Cyrino, vá procurar uma tradução aí que você acha. Pode dizer que é sua. Eu, se fosse você, não me metia com o poder judiciário agora, não. Eles podem lembrar da sua cara depois.

Ninguém mais tem direito de comprar livros da editora Landmark. Ela deve falir, e sua sede deve ser salgada para que nada mais seja plantado naquele solo amaldiçoado.

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35 Comments on “Editora Landmark deve ir à falência”

  1. #1 Art
    on Feb 25th, 2010 at 9:39 pm

    Incrível, desconhecia completamente esse problema de plágio na tradução. Valeu pela informação. Mandei o link para o pessoal daqui que trabalha em tradução (letras, linguistica e sociologia). Abs.

  2. #2 Artur Perrusi
    on Feb 25th, 2010 at 9:42 pm

    Ops! fiz alguma coisa errada e meu comentário saiu assinado por Art…

  3. #3 Gabbardo
    on Feb 25th, 2010 at 10:10 pm

    É insult to injury! Depois de ler esse caso da Landmark, esse "offense" perdido aí tá mais para um "kick to the balls" depois da insult e da injury! :P

  4. #4 denise bottmann
    on Feb 25th, 2010 at 10:40 pm

    prezado npto, obrigada pelo apoio e divulgação.

  5. #5 fredk
    on Feb 25th, 2010 at 11:06 pm

    Já tinha visto essa história por meio de outras indicações. É muita cara de pau do tal editor!
    Pelo menos a denise, se tiver um bom advogado, pode arrancar uma boa grana na história e, de quebra, fazer um bem à indústria editorial brasileira.

  6. #6 Radical Livre
    on Feb 25th, 2010 at 11:10 pm

    Eu também acho que o pessoal da Martin Claret deveria ir à falência. se não pelos plágios, pelo menos por conta das capas dos livros. veja <img src="http://www.livrariagalileu.com.br/livroimg/9788572324472m.JPG">a capa do Quincas Borba traduzida pelo incrível Pietro Nassetti.

  7. #7 hermenauta
    on Feb 26th, 2010 at 12:21 am

    Eu quero ver é o Fábio Cyrino traduzir "Pride and Prejudice and Zombies"!

    http://www.amazon.com/Pride-Prejudice-Zombies-Cla...

    (cumé que bota link neste treco??)

  8. #8 André
    on Feb 26th, 2010 at 1:29 am

    NPTO, esses títulos (Editora Landmark deve ir à falência, Lula deve pedir liberdade para presos cubanos, etc) são previsões ou desejos?

  9. #9 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:54 am

    Acho que pode os dois, não?

  10. #10 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:55 am

    Valeu, Artur (vi que era você pelo comentário abaixo)!

  11. #11 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:55 am

    Estamos aí para o que precisar, professora.

  12. #12 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:56 am

    Eu acho que no final a Landmark vai perder uma grana, mas, até lá, processo é um saco.

  13. #13 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:56 am

    Minha Nossa Senhora.

  14. #14 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:58 am

    São chamados à ação! Mas a Landmark falir ainda está com cara de mais provável.

  15. #15 NPTO
    on Feb 26th, 2010 at 10:58 am

    Rapaz, cê já leu isso aí? Na Cultura da Paulista tem o "with sea monsters". Alguém sabe se é engraçado?

  16. #16 Carlos
    on Feb 26th, 2010 at 1:04 pm

    N]ão nego que essas eds. da Martin Claret são pavorosas. O problema é que essas picaretagens surgem de uma situação concreta: as edições "respeitáveis" são CARAS , pouco manuseáveis…. e incompetentes: não tem notas, aparato crítico, prefácio informativo…. nada , fora a tradução. Dou um exemplo: a edição MC do "Leviatã" de Hobbes, com sua capa que parece foto de desfile de escola de samba, e sua tradução muito provavelmente pirata, é a ÚNICA edição disponível a preço razoável; custa R$ 12,90 na Livraria Cultura, fora frete, e as demais COMEÇAM de R$ 90,00. Que me desculpem os tradutores, mas esse seu moralismo abstrato me parece justificativa para uma estratégia rent-seeking de privatização do saber, tão (ou até mais) danosa para a transmissão do conhecimento quanto traduções piratas e edições de carregação.

  17. #17 Vinícius
    on Feb 26th, 2010 at 1:55 pm

    Carlos, isso das edições serem caras é um fato. Mas não se trata de "moralismo abstrato". Uma pessoa VIVE de traduções, é seu trabalho e ganha-pão. Sei lá qual a sua profissão, mas se você for arquiteto, por exemplo, plagiar uma tradução é como pegar um projeto seu e reproduzi-lo inteiro, lucrar com isso e ainda dizer que é seu!

    Não é possível, na presente conjuntura, cair na discussão abstrata (essa sim, bastante abstrata) de "privatização do saber". Eu também sou a favor da queda completa e gradual dos direitos de copyright, mas não dos de tradutor, justamente pelo fato de que tradução é uma demanda direta de mercado, enquanto um romance não o é enquanto não for criado. Exemplo: James Joyce nunca "precisou" escrever uma linha sequer, mas depois que publicou fez-se necessário traduzi-lo por demanda do mercado brasileiro.

    Você não pensa também que a Martin Claret, sendo inescrupulosa, rouba uma fatia possível de mercado? As editoras maiores têm condições de lançar edições de bolso dos seus livros – só não o fazem por falta de procura em alguns casos, por sacanagem em outros.

  18. #18 Vinícius
    on Feb 26th, 2010 at 1:55 pm

    Na verdade é Sense and Sensibility and Sea Monsters. Nunca li nenhum.

  19. #19 Vinícius
    on Feb 26th, 2010 at 1:58 pm

    Poxa, NPTO, até parece que você nunca tinha visto as belezas da Martin Claret. Abaixo, a citada edição do Hobbes:

    http://images.google.com/url?source=imgres&ct...

  20. #20 Carlos
    on Feb 26th, 2010 at 2:38 pm

    Pois é, mas veja só: eu não uso as edições da MC de Machado, Eça ou Aluizio Azevedo, porque existem as eds.paradidáticas da Ática, baratas e decentes, com explicação e aparato crítico. Se as editoras fizessem edições enriquecidas dos clássicos das Ciências Sociais a preço baixo, eu mandaria a MC para o lixo. Acho que era caso para o MEC, que deveria desapropriar as traduções melhores, pagando aos titulares um preço adequado, e formar uma biblioteca permanente à preços praticáveis (e fazer traduções novas de obras ainda não acessíveis em português).

  21. #21 Bárbaro
    on Feb 26th, 2010 at 5:15 pm

    Vinicius, somente em raríssimos casos, ênfase no raríssimos, tradutor tem copirráite (como diria o Millôr) assegurado. Dá-se mais ou menos o que acontece no futebol, os astros têm contrato, carro do ano, salário garantido e, se derem sorte, muita tietagem. Os demais têm que assinar um contrato em que abdicam de tudo isto.

  22. #22 Bárbaro
    on Feb 26th, 2010 at 5:30 pm

    Carlos, não vou nem fazer pesquisa, mas sou capaz de apostar contigo que tem muita edição da Martin Claret até mais cara que outras boas edições do mercado. Os caras são além de pilantras, pilantras mesmo. Funciona mais ou menos assim, para cada Leviatã grandão a R$ 18,90 (e não R$ 12,90, como você informou) eles lançam uns dois ou três outros títulos mais fininhos, como Iracema, Fradique Coutinho ou O príncipe cobrando, aí sim, um mínimo de R$ 12,90. (Como eu disse, não vou fazer pesquisa, mas sei que tem mais barato e mais honesto por aí.)
    Depois, algo que o NPTO não aprofundou muito aí em cima, as edições dos caras não são condenáveis apenas pela pilantragem do plágio, mas por serem descuidadas e cheias de erros, ou seja, mesmo copiando o trabalho alheio, os caras copiam errado!
    Ou seja, pode economizar seus caraminguás o quanto quiser se você não precisa dessas edições senão para seu desfrute pessoal (e mesmo assim, não creio que o desfrute será assim tão intenso), mas se precisar delas para citar em algum trabalho sério, você vai correr o risco de citar gato por lebre.
    As capas dos caras, que tá todo mundo comentando, não são simplesmente um detalhe cômico, mas indicador de peso considerável da importância que o editor de lá dá ao material que publica e do tratamento que essas edições obtêm.

  23. #23 | Esclarecimento | Jane Austen em Português
    on Feb 26th, 2010 at 8:04 pm

    [...] Na prática a teoria é outra Folha Online [...]

  24. #24 Carlos
    on Feb 26th, 2010 at 9:17 pm

    E os demais editores são diferentes? Todos querem realizar um lucro da maneira mais fácil. Confesso que não tenho notícia de um editor brasileiro que tenha dito algo assim: "seu texto é difícil mais tem muito valor cultural, vamos ter que fazer uma campanha pesada de leituras, mesas redondas, debates para criar um público para ele". O que eles querm é faturar no facilitário, vendendo para um público cativo. É claro que não uso a edição MC do Hobbes, uso a ed. Penguin com int. do C.B. Macpherson, mas não vejo como um estudante universitário que não tenha leitura para conseguir superar a ortografia e gramática do inglês do século XVII possa fazer o mesmo, e o fato é que nenhuma das edições em português disponível, que eu saiba, saem de uma introdução muito geral e uma tradução "careca".

  25. #25 Carlos
    on Feb 26th, 2010 at 9:18 pm

    errata: "seu texto é difcíil MAS tem muito valor"

  26. #26 Carlos
    on Feb 26th, 2010 at 9:19 pm

    errata 2: nenhuma das edições em português DISPONÍVEIS.

  27. #27 João Paulo Rodrigues
    on Feb 26th, 2010 at 11:46 pm

    "Confesso que não tenho notícia de um editor brasileiro que tenha dito algo assim: seu texto é difícil mais tem muito valor cultural, vamos ter que fazer uma campanha pesada de leituras, mesas redondas, debates para criar um público para ele".
    Mas convenhamos que isso vai ser difícil de fazer com o Hobbes.

  28. #28 Carlos R.
    on Feb 27th, 2010 at 8:55 pm

    Será? O Brasil tem pelo menos dois especialistas que eu saiba em Hobbes, o Renato Janine Ribeiro e o Luiz Eduardo Soares, por que não começar pensando numa mesa redonda, numa curadoria de uma nova tradução, na construção de um aparato crítico com notas, discussão de pontos onscuros, etc…?

  29. #29 Eneraldo Carneiro
    on Mar 1st, 2010 at 4:34 pm

    Celso

    Realmente o problema é grave e generalizado

  30. #30 Manifesto de Apoio a Denise Bottmann « Batata Transgênica
    on Mar 1st, 2010 at 8:17 pm

    [...] legais Direito ao esquecimento no blog Coruja em Teto de Zinco Quente, da Lulu Editora Landmark deve ir à falência no blog Na Prática A Teoria É Outra, do Celso Rocha de [...]

  31. #31 apoiodenise
    on Mar 5th, 2010 at 8:49 pm

    [...] Na prática a teoria é outra, Editora Landmark deve ir à falência [...]

  32. #32 Träsel processado por Felipe Vieira da Band | Um drible nas certezas
    on Mar 11th, 2010 at 11:26 pm

    [...] O negócio de processar blogueiros também está virando moda entre editoras – caso da Landmark, e seus roubos de direitos de tradução. Veja o divertidíssimo (mas muito sério) comentário do NPTO. [...]

  33. #33 denise bottmann
    on Mar 12th, 2010 at 1:31 am

    o caso do hobbes da claret foi engraçado. foi um dos primeiros da claret que apontei. era um massacre da serra elétrica em cima da tradução do joão paulo monteiro (da usp) e da maria beatriz nizza da silva (idem), que tinha saído naquela antiga coleção d'os pensadores da abril cultural. joão paulo, muito digno, ficou tiririca. bom, sei que lá pelas tantas a martin claret retirou aquele plágio atamancado de circulação e substituiu por uma tradução licenciada da editora ícone, feita por outra pessoa, que não é da área, mas pelo menos parece ser de verdade (muitas editoras, para não precisar fazer novas traduções, licenciam traduções de outras editoras, normal).

  34. #34 denise bottmann
    on Mar 12th, 2010 at 1:32 am

    a martin claret, segundo sua advogada, tem feito vários acordos com as editoras concorrentes lesadas, mas são raríssimos os casos de tradutores ainda vivos. joão paulo é uma exceção, junto com luiz costa lima e hernâni donato (plagiados em suas traduções de o vermelho e o negro e da divina comédia, respectivamente, pela nova cultural, já "devidamente" ressarcidos, com direito a errata pública e reedição da obra correta). o problema desses acordos extrajudiciais da martin claret é que são sigilosos, ao contrário dos que têm sido feitos pela nova cultural, com cláusulas de confidencialidade entre as partes, e ela está substituindo muito aos pouquinhos um ou outro título (em mais de um ano só contei oito, entre quase duzentos….). aí a gente nunca fica sabendo direito, e enquanto isso as editoras lesadas sossegam, mas os livros espúrios continuam em circulação até esgotarem o estoque e vir alguma nova edição legítima.

  35. #35 denise bottmann
    on Mar 12th, 2010 at 1:37 am

    o problema nem é o tradutor, nesses plágios, o qual em geral já está morto e enterrado há algum tempo. o problema é que a autoria da tradução cai no esquecimento – até manuel odorico mendes, grande mestre da tradução barroca do século 19, foi copiado pela claret e atribuído a um fantasma "alex marins", e virou objeto de estudo! tem tese da usp achando que a poética do aristóteles foi traduzida pelo pietro nassetti com "soluções interessantes"! aí não dá. no nãogosto, minha questão não é o o direito do tradutor, mas a questão da memória cultural do país, e a sacanagem de ludibriar os leitores (que também são os docentes que entopem suas ementas de curso com bibliografias espúrias e legitimam involuntariamente as fraudes)… a tag "nas escolas" traz amostras dessa propagação institucional, que acho arrepiante. ufa, desculpe, era um comentário longuíssimo e tive de repicar.

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