Matéria bacana do sempre alerta João Villaverde no Valor de hoje sobre a UGT (União Geral dos Trabalhadores), a central sindical oposicionista não-PSTU. Muitos de seus membros são de PSDB, PPS, e mesmo do PFL. Diz a matéria:
A relação entre partidos e centrais é clara. Dirigentes da CUT pertencem ao PT, enquanto a CTB é ligada ao PC do B, a CGTB, em sua maior parte, ao PMDB e a Força Sindical predominantemente ao PDT. Todos os partidos formam a base aliada da candidatura Dilma à Presidência. A UGT, por outro lado, conta com dirigentes filiados a PPS, DEM, PSDB e PMDB paulista, todos apoiando a candidatura de José Serra, e outros ao PV, que lançou Marina Silva como candidata.
Dos sete vice-presidentes da entidade, quatro são filiados a partidos. Antonio Carlos dos Reis, o Salim, é deputado federal pelo DEM e tenta a reeleição. David Zaia é presidente do PPS em São Paulo, Roberto Santiago é deputado federal pelo PV e Laerte Teixeira da Costa, é filiado ao PMDB. Além deles, Chiquinho Pereira, secretário de Organização Sindical, é tesoureiro do PPS em São Paulo e é um dos principais defensores da candidatura Serra na entidade, além de articular o trânsito de Roberto Freire, presidente nacional do PPS, na central.
O PCB, naturalmente, sempre teve presença nos sindicatos, e o PSDB tinha lá um negócio que, se não me falha a memória, chamava Social Democracia Sindical, algo assim. Nunca ouvi falar de um sindicato do PFL, embora o Medeiros, acho eu, tenha sido do PFL em algum momento.
Qual a viabilidade disso? Acho que pequena. A Força Sindical, por exemplo, se equilibrou durante muito tempo tentando ser uma central sindical anti-petista, mas é bem difícil: os governos do PT ouvem muito mais os sindicatos do que os partidos de direita jamais ouvirão. E as bandeiras de desregulamentação dos partidos de direita não vão soar bem com os trabalhadores a não ser que haja muita confiança de que haverá compensações em política social, no que, novamente, o PT tem muito mais credibilidade. É como aqueles grupos de empresários que apóiam o PT: sempre vão existir, mas nunca vão ser majoritários. É o que eu acho, pelo menos.
Agora, é claro que um sindicalismo desses tem suas vantagens: defender o interesse da classe trabalhadora quando as centrais mainstream falharem por um ou outro motivo ideológico. Vejam isso:
Em abril, membros da CTB entraram em conflito com os da UGT, quando as duas realizaram manifestações em frente ao Consulado de Cuba, no mesmo dia. “Enquanto eles defendiam os dissidentes, nós estávamos lá manifestando apoio ao povo e ao governo cubano”, diz Gomes, da CTB. Segundo Ricardo Patah, presidente da UGT, “o tempo mostrou que estávamos do lado certo, porque o regime de Castro liberou presos políticos à Espanha”. Os dirigentes das centrais colocaram panos quentes no episódio, especialmente porque a relação entre seus presidentes, Gomes e Patah, é boa.
É desnecessário dizer que o PCdoB e o PCB já tiveram lá suas diferenças. Mas deixo aqui meus parabéns à UGT pelo ato, torcendo para que ela não pelegue demais. Torcendo sem muita esperança, mas torcendo.


on Jul 28th, 2010 at 12:12 pm
Seria possível se o "sindicalista de direita" fosse, acima de tudo, pragmático; focalizado em trazer benefícios para a categoria, mais do que defender princípios políticos que trabalhador nenhum aceitaria.
Francamente, acho que só Lula fez isso bem na história brasileira, e ele não era de direita ou centro-direita, embora não fizesse diferença alguma.
on Jul 28th, 2010 at 2:34 pm
Um possível efeito positivo seria a diminuição dos termos "peleguismo" e "república sindicalista" nos discursos da direita. A menos que eles passem a dizer que os "cumpanheiros" deles são melhores que os "cumpanheiros" dos outros.
on Jul 29th, 2010 at 1:45 am
Grande João, puquiano e amigo pessoal meu, anda fazendo umas boas matérias na Valor.
Divagando sobre a questão em si, penso que o "sindicato" é a entificação política de um determinado grupo de trabalhadores, a organização pode ser democrática ou burocrática – no mundo Europeu Ocidental e na América prevaleceu a segunda via, o que explica os rumos da social-democracia e do próprio capitalismo; o sindicalismo do ABC era isso, o de São Paulo não, mas prevaleceu o segundo caminho rapidamente.
No entanto, isso difere em essência de uma entidade que se presta à representação dos patrões e do Estado junto aos trabalhadores – muito embora em uma organização formalmente proletária. Não existe "sindicalismo de direita", trata-se, na verdade de pseudo-sindicalismo mesmo. É o caso da UGT.
Isso ilustra duas coisas: (I) incoerência do discurso de Serra que condena a política petista junto às centrais sindicais, mas tem a UGT como tentáculo sindical e (II) a reação do PSDB em resposta à nova realidade laboral do país – com a retomada do crescimento, a redução do exército de reserva e o reposicionamento das centrais sindicais no sistema de poder brasileiro – procurando organizar parte dessa nova classe proletária de acordo com os interesses da classe dominante, o que é mais inteligente do que tentar uma movimentação nesse sentido apenas com seus tentáculos patronais. Isso também reforça o caráter de direita do PSDB.