Na Prática a Teoria é Outra Rotating Header Image

Jânio de Freitas, clássico

Acho que é a primeira vez que eu reproduzo um artigo inteiro aqui, mas esse vai ter que ser. Leiam isso aqui:

Além do Último Sinal

Um aviso de perigo, na via política, foi ultrapassado.
A entrada em cena de forças extrapolíticas, motivadas pelo confronto entre Lula e os meios de comunicação com maior presença, reproduz o mais conhecido dos passos que levam situações tensas a enveredar por processos que fogem ao controle com facilidade. E, se isso ocorre, põem em risco a integridade institucional -o próprio regime.
Se os meios de comunicação têm extrapolado ou não, no tratamento aos casos do sigilo violado na Receita Federal e das irregularidades originadas no Gabinete Civil da Presidência, até agora não houve indício algum da finalidade golpista acusada por governistas.

O que pode ser apontado são propósitos eleitorais. Mas os meios de comunicação brasileiros nunca deixaram de ser parte ativa nos esforços de conduzir o eleitorado. Sua origem e sua tradição são de ligações políticas, como agentes de facções ou partidos. Só em meado do século passado dá-se a primeira e derrotada tentativa, no “Jornal do Brasil”, de prática desconectada de segmentos políticos.

Na atual campanha, os meios de comunicação com maior presença são passíveis de acusações como desequilíbrio no ânimo em relação a este ou àquele candidato; de parcialidade no interesse em eventos de um ou de outro, e, no noticiário das irregularidades, de precipitações e erros que são os mesmos cometidos na cobertura de todos os escândalos.

À parte atingida cabe reagir na medida do possível, que, em geral, não é muito. E às vezes é quase nada, porque a própria reação está sujeita ao que é acusado no principal. Mas assim é a etapa em que a sociedade brasileira ainda está.

Daí a golpismo, na atualidade, a diferença é total. Idêntica à diferença entre prática primária da democracia e o golpismo com que o país conviveu por décadas, até o maior dos golpes.
No outro lado, nenhum fato sustenta a ameaça à democracia atribuída a palavras ou atos de Lula. As reações ao que considera insultuoso, ou injusto, ou inverdadeiro são à sua maneira: com destempero deplorável, nas palavras e na teatralidade da exaltação. Sem consideração alguma, até muito menos do que pelos adversários, pela própria condição de presidente da República. A faixa presidencial ainda não se distinguiu, para Lula, da camisa do Sindicato dos Metalúrgicos.

Nenhum espetáculo e nenhum ato presidencial pode ser apontado, com seriedade, como ameaça à democracia. Nem o mais acusado deles, a alegada ameaça à liberdade de imprensa. A proposta petista de criação do Conselho Nacional de Jornalismo, ou algo assim, vale mais uma discussão do que poderia ser, a serviço de todas as partes, do que qualquer das acusações trocadas.

Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é chavismo, não é ditadura, necessariamente. São muitos os países “civilizados” e democráticos em que tal conselho existe.
Na França, por exemplo, foi criado há muito tempo, prestou muitos serviços e ninguém pensa em dissolvê-lo, assim como o da TV. A Inglaterra, os países nórdicos e outros têm as suas formas de conselho. Discuti-lo no Brasil seria difícil, mas não ameaçaria a democracia ou a liberdade de imprensa.

A esse conjunto de desproporções e deformações vêm somar-se três iniciativas. Sindicatos e jornalistas resolvem fazer uma manifestação pública contra os meios de comunicação. O que pode vir daí senão o acirramento de um lado e de outro? A dez dias das eleições, nem alguns trocados eleitorais essa manifestação localizada pode obter. Sua aparência é só a de um ato de indignação.

A pouco mais de uma semana das eleições, professores, advogados, escritores, e outros, fazem manifestação pública e lançam um manifesto “contra a marcha para o autoritarismo”. Haverá mesmo tal marcha, pelo fato de que Lula, nos estertores do seu mandato, rebaixa a função presidencial à de marqueteiro e cabo eleitoral? Se não está aí, o que indicaria que a prevista eleição de Dilma Rousseff é a marcha para o autoritarismo? É óbvio que o papel assumido por Lula macula a disputa.

Mas o que mais suscita reação, parece claro, não é o papel em si, que a lei nem cuidou de restringir: é que Lula o assume do alto de uma popularidade devastadora, que cai sobre os adversários. Nem por isso, no entanto, até agora sinalizadora de ameaças à democracia.

Por fim, um convite. O Clube Militar convida para um “painel”, às 15h de hoje em sua sede no Rio, com dois jornalistas de oposição a Lula e ao governo. Sobre nada menos do que “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão”. Tivemos longo aprendizado do interesse militar por ameaças à democracia e pelas restrições à liberdade de expressão. O título do “painel” não esclarece o sentido atual dado às expressões, mas tanto faz. Sua realização é sugestiva por si só.

As três iniciativas, à parte seus objetivos, são formas fermentadas das tensões decorrentes do processo eleitoral e das feições que tomou. Mas correm o risco de estimular projeções para depois do resultado eleitoral, e sobre ele. E, a depender do resultado, o risco de transpor o início do futuro governo. Como já aconteceu tantas vezes, nenhuma para resultar em algo bom.

É isso aí. Jânio de Freitas é um dos cinco ou seis jornalistas que minhas assinaturas de jornal seguem por onde o cara for.

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123 Comments

  1. fredericokling says:

    O governo Lula realmente faz ataques verborrágicos à imprensa, mas a maior ameaça à liberdade de expressão nos últimos 8 anos foi o projeto de lei para a internet do mensaleiro tucano Eduardo Azeredo.

    Onde estavam os paladinos da liberdade quando proibiram a marcha da maconha, quando a OAB tentou censurar um artista nessa bienal ou quando prenderam por dias a pichadora que fez protesto violento, mas legítimo, na última bienal?

    No Brasil, tem muita gente que sacode a Constituição num dia, e limpa a bunda com ela no outro. Não sou fã do governo Lula, porém, odeio mais ainda democratas de ocasião.

  2. relances says:

    Estava esperando alguém mais picudo (Luis Nassif analista político é sacanagem) dizer o que estou pensando: o clima que está sendo criado não é bom. Não que eu ache que haveria golpe nas atuais circunstâncias, mas a demonização do PT empreendida por Veja et caterva já encontrou eco no próprio PSDB na forma desses videozinhos, ontem divulgados, que comparam o PT a rottweilers. Ou seja, já se tornou imperioso que, para a democracia se sustentar, apenas um resultado será aceitável: a vitória de Serra.

    Meu medo não é de golpe, é do clima que se criará para o governo Dilma. Sem contar que pode vir chumbo ainda mais grosso por aí – por enquanto foram denúncias localizadas, há muito preparadas para serem usadas; e quando forem mentiras bem mais danosas, dessas que causam comoção nacional?

  3. André says:

    É incrível a disposição desse bando de milico fdp em salvar nossa democracia. Se eles querem mesmo evitar qualquer ameaça à democracia, deveriam ir todos de mãozinhas dadas para o meio do inferno.

  4. Alguém aí sabe de algum estudo ou de notícias sobre como andam os militares em relação ao governo Lula? Se tiverem notícias, ótimo, isso ajuda a entender as tendências para o governo Dilma, e permitem ver as possibilidades e os limites de atuação da UDN 2.0 que está a solta por aí.

  5. blogdacoroa says:

    Clube Militar está discutindo, hoje, sobre liberdade de expressão! E quem intermedeia é o Instituto Millenium!
    http://blogdacoroa.wordpress.com/2010/09/23/clube

  6. relances says:

    Um comentário meu ficou preso na moderação. Depois que resolver, pode apagar este aqui, Celso.

  7. Frank_Brand says:

    Eu tendo a concordar com o tom do Jânio, mas há uma pretensão (um tanto irrazoável), em meio aos simpatizantes do governo (mesmo os pragmáticos), de q se desconsidere o q membros (importantes ou não) do atual bloco de poder falem, pensem, escrevam (como se fossem – sei lá – “café com leite”).

    Eu espero q alguns pendores / desejos / inclinações não dêem mesmo em nada, mas acho q isso ocorrerá mais em razão dos q se opõem (alguns “contrapresos” estão dentro do próprio partido, o q é ótimo, mas não é de modo algum suficiente ou tranqüilizador) do q por alguma temperança dessa turma mais exaltada. O PT não expurga com clareza algumas relíquias do passado (como fez a Esquerda européia, por exemplo), e continua a emprestar simpatia à Cuba, FARC – enfim, aos elementos simbólicos da "velha esquerda" – ou a caudilhotas pseudo-socialistas, como Chavez e seus aprendizes. Depois, pretendem ser prontamente aclamados e reconhecidos como social-democratas, aggiornados, modernos.

  8. aiaiai says:

    O janio e o bucci tentam esconder o que está escancarado: os donos da grande mídia brasileira estão desesperados, querem levar a eleição para o segundo turno de qq jeito e estão enterrando as possibilidades de um possível e salutar entendimento entre psdb e pt após as eleições.Não sei a quem interessa isso, mas é isso que está acontecendo.

    recomendo o twitter do sakamoto para quem precisar esclarecer a diferença entre "liberdade de imprensa" e "autoritarismo das famílias da mídia brasileira".

    http://twitter.com/blogdosakamoto

  9. aiaiai says:

    Outra leitura importante para entender o que está acontecendo: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,O…

    entrevista imensa do lula no Terra. Não se distraiam com o título. Garanto que vale muito mais a pena ler a entrevista do que janio e bucci.

  10. Arthur Niculitcheff says:

    Eu discordo do texto.

    Os motivos da imprensa não são eleitorais.

    Vou tirar exemplos da materia do polvo na veja:

    "sindicalistas promoveram a ocupação implacável da máquina pública"

    "acaba de ser criado um poder independente no país."

    "os ditames do corporativismo, das inclinações políticas e dos interesses comuns da burocracia oficial valem mais do que as leis."

    "essa hierarquia paralela se organiza como uma sociedade secreta e resiste até mesmo à alternância do poder político."

    "moendo as engrenagens de funcionamento da democracia e resultando no assalto final ao estado por um grupo hegemônico."

    "Os servidores passaram a agir como funcionários camuflados: apesar de oficialmente desempenharem tarefas públicas e terem remuneração paga pelo estado (ou seja, por todos os contribuintes), dedicam-se a cumprir objetivos táticos e estratégicos definidos pelos líderes de sua sigla."

    "As instituições do estado passaram a ser subservientes aos interesses do governo do PT"

    "E a máquina pública passa a se mover segundo essa visão partidarizada"

    "estado passa a servir apenas ao partido do polvo, e não ao povo"

    Pra mim ta bem claro que a Veja considera o governo petista ilegítimo por não respeitar regras básicas do sistema democrático. Além de ilegítimo extremamente nocivo as instituições e uma ameaça a democracia.

    Se no meu pais estivesse no poder um governo ilegítimo nocivo as instituições do pais e à democracia eu me sentiria na responsabilidade de derruba-lo.

    Claro talvez alguem diga que pegar a Veja de exemplo é exagero. Talvez seja.

    Mas eu tenho medo.

    E se eu fosse o governo eu já estaria tomando providencias pra evitar uma possível tentativa de golpe.

  11. […] O texto do Jânio de Freitas, publicado na Folha, pode ser acessado via NPTO aqui. […]

  12. claudio ladeira says:

    Enepe,
    Há um artigo do Przeworski, escrito em conjunto com o José Cheibub e o Fernando Limongi (que sabemos todos, são dois rotweillers petistas sem fucinheira), no qual os autores sintetizam os resultados de uma pesquisa mais extensa sobre a estabilidade das democracias. É esse aqui: http://www.scielo.br/pdf/ln/n58/a03n58.pdf

    O ponto do artigo é rejeitar as teses que relacionam a estabilidade a fatores culturais e afirmar que o decisivo é a renda per capita (não a distribuição de renda). Um trecho:

    "A probabilidade de sobrevivência da democracia aumenta monotonicamente
    com a renda per capita. Em países com renda per capita inferior
    a 1.000 dólares a probabilidade de que a democracia morreria durante
    um certo ano era de 0,1216, o que implica uma expectativa de vida levemente
    superior a 8 anos. Entre 1.001 e 2.000 dólares, essa probabilidade
    era de 0,0556, para uma duração esperada de em torno de 18 anos. Acima
    de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre"

    De maneira bem sintética, caricatural até, as hipoteses dos autores são:
    1) em sociedades com baixa renda per capita (muito pobres) não há nenhuma distribuição de riqueza que satisfaça simultaneamente ricos e pobres, e se cada um puder estabelecer sua ditadura, provavelmente o fará. Aliás, os riscos inerentes à luta por sua ditadura compensam. Os pobres encontram-se na situação de "nada a perder, exceto suas próprias cadeias", e assim acatar os resultados de uma derrota eleitoral não é muito estimulante; os ricos, se derrotados nas eleições, temem uma provável redistribuição de sua riqueza.
    2) em sociedades muito ricas, havendo muita riqueza para distribuir, os pobres já tem algo a perder (p. ex. salário mínimo, férias, alguma propriedade etc) e os ricos tendem a ser mais tolerantes com alguma redistribuição.

    Vale uma discussão, né?

  13. Igor T. says:

    Fora isso, o artigo foi interessante.

  14. Jotaroberto says:

    Vamos por partes. Janio, pra mim, só existe um ( o da vassourinha) e cá entre nós era bem melhor ator, hein?. Esse daqui gastou um monte de tinta pra justificar um convite(?) do Clube Militar para um painel(?) cujo nome é “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão” e os debatedores principais são 2 inomináveis figuras do jornalismo(?). Não entendi. Afinal de contas, quem está convidando quem? E pra que?

  15. bitt says:

    Tentei colocar um cometário aqui, mas, pelamordedeus, enepê, pq não pode comentários mais longos?.. Vou escrever o começo – o resto está lá no causa:: pra quem quiser ler. É preciso conhecer mto pouco o que são as FA hj em dia para achar que um "painel no Clube Militar" faz alguma diferença. Só mesmo lá o hidrófobo Reinaldo Azevedo e o pastinha Merval Pereira encontram público para seus delírios vivandeiros (esses caras devem lamentar mto não ter nascido 30 anos antes, para viver agora em 1964…).

  16. Cajueiro says:

    Pois eu acho que o que Jânio disse, em outras palavras, foi o seguinte: "a autenticidade da ficha da Dilma não foi confirmada; mas também não pode ser descartada…"

    Pra mim, neste artigo, Jânio está dando uma de João Sem Braço. Na prática, joga a culpa por esse clima bizarro pra cima do presidente. A imprensa golpista? Nunca. Ela "só" está buscando influenciar o resultado das eleições. "O que pode ser apontado são propósitos eleitorais". Ora, o que Jânio está dizendo? Que a mídia só pode ser acusada de comportamento golpista se escrachar na primeira página "APOIAMOS UM GOLPE"? Na boa, ele sabe que a grande imprensa está atuando vigorosa e subterraneamente em favor de uma candidatura, mas não pode dizer isso na lata. Se ele não concorda com isso, seria melhor ficar calado. Mas ele deu um jeitinho de botar isso na conta do presidente.

  17. aiaiai says:

    gente, por mais história que o janio tenha, antes de tudo ele tem um patrão. Tudo bem tentar contemporizar…mas krai, enquanto o cara trabalhar na folha ele vai tentar defender o dele. O artigo valeria algo se ele escrevesse abertamente contra os absurdos que o jornal no qual trabalha tem feito. Se tivesse uma frase: "to com vergonha de trabalhar nessa josta", ai sim ganharia algum valor.
    no mais, tá fingindo que é sensato para jogar a culpa no lula. Vergonha alheia.

  18. […] longos (isso sim é uma ameaça contra a democracia): NPTO colocou, um pouco mais cedo, uma matéria da lavra do excelente (nisso concorda inteiramente com ele o redator::) Jânio de Freitas. O tema […]

  19. hwbach says:

    Killed with stick (matou a pau)!

  20. Augusto Nascimento says:

    Evidentemente, a falta de dignidade, equilíbrio e até bom senso das oposições, partidárias e jornalísticas, é preocupante, mas não acho que, a curto prazo, a democracia esteja em risco, embora a qualidade do debate público, que nunca foi muito brilhante, talvez demore a voltar aos níveis pré-polvos na capa da Veja. Olavo de Carvalho já cortejou os militares, chegou a receber a medalha do Pacificador e hoje não perde ocasião de criticar o fato dos militares não terem impedido os desmandos petistas, embora, para ser justo, ele não diga o que ele acha que os militares deveriam fazer quanto ao assunto. E o Brasil sobreviveu a tudo isso, o PT até que prosperou eleitoralmente nesse período. Kipling escreveu que se você mantém a calma quando os outros à sua volta estão perdendo a cabeça, você é um homem. Jean Kerr , por sua vez, escreveu que o provável é que você ainda não tenha entendido a gravidade da situação. Pode ser o meu caso, mas não vejo risco iminente para a democracia.

  21. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#61) (24/09/2010 às 12:48 am),

    Não sei onde você está discutindo com Aiaiai, pois não tenho o IntenseDebate, mas o seu argumento me pareceu bem enviesado.

    No comentário (#54) de 23/09/2010 às 09:57 pm Aiaiai disse:

    “O que a pesquisa diz é que quando o pib é baixo (quando não tem pão) o bicho pega…se o pib é alto (tem pão), mas mal distribuido (alguns comem bem pra karai) ai não tem tanto conflito porque os que estão bem dão um jeito de segurar a pancadaria para não perder os privilégios”.

    Dito de forma ligeira, pareceu-me bem próximo do que se entende que a pesquisa disse. Aliás embora eu não seja sociólogo e não goste de Adam Przeworski fiz questão de baixar o texto e agradeço a sua indicação e, tendo tempo, incluo-o entre as minhas obrigações de leitura.

    A sua crítica a Aiaiai, entretanto, pareceu-me despropositada. Você disse logo de início:

    “Primeiro, a pesquisa inclui uma informação que teu ditado não fornece: o índice bem concreto de U$ 6.000 de renda per capita, acima do qual democracias são estáveis mesmo quando há pobreza extrema e persistente”.

    Ora o ditado não cobre todas as situações, mas as situações dentro do ditado estão cobertas. O ditado que Aiaiai apresentou no comentário (#41) de 23/09/2010 às 07:04 pm diz:

    “em casa que não tem pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”

    Não há dúvida que na pobreza a revolta é maior.

    Você contrapõe a parte de cima da riqueza, isto é, paises com renda per capita superior a 6 mil dólares como sendo suficiente para não ter a revolta. E você apresenta com alarde o caráter concreto do limite US$ 6 mil.

    Vejo que tenho boas razões para não levar Adam Przeworski a sério. Suponhamos hoje a taxa máxima do câmbio de 2002, cerca de 4 reais por dólar. Assim, para um PIB de 3 Trilhões de reais a renda per capita seria de US$ 3,5 mil dólares. Qual a possibilidade de revolta em 2002 ou hoje com a taxa de câmbio de 2002? Nenhuma, apesar da renda bem abaixo do limite de Adam Przeworski.

    Penso que Adam Przeworski et alii passaram perto do problema da revolta popular que alem da pobreza deve incluir a taxa de inflação. Com mensalão e inflação alta, Lula caía, com as atuais denúncias e inflação alta, Lula não conseguiria eleger Dilma Rousseff.

    É a inflação o fermento das revoltas populares, muito mais que o grau de distribuição de renda ou o nível de riqueza de uma nação. Sobre isso faço a indicação do post no blog do Luis Nassif “O primeiro comercial político na TV” de ter, 21/09/2010 às 07:49, elaborado a partir de uma indicação do comentarista Almeida. Vou fazer sobre o comercial um comentário à parte se tiver tempo.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 23/09/2010

  22. P Pereira says:

    (…)
    “Serjão afirmava que, para isso acontecer a pleno, era preciso haver um total domínio da mídia, não apenas dos empresários donos de jornais, rádios e TV’s, mas sobretudo dos jornalistas, dos que militavam e escreviam artigos e matérias de qualquer natureza no dia-a-dia das redações. Questionado sobre como era possível arregimentar tantos apoios naquilo que se constituiria uma verdadeira “revolução cultural tucana nas redações”, mais uma vez aflorou o hiperrealismo e a realpolitik do homem que foi o braço direito e (grande) parte do cérebro do professor Cardoso, Serjão virou-se para o pálido interlocutor e disse:

    Jornalista come na mão, se farto for o grão!”
    http://diariogauche.blogspot.com/2009/12/lembrand

  23. Drex says:

    Um sujeito que vira-e-mexe gosto de ler é o Hélio Fernandes. Tá bom, é deveras anacrônico (pôxa, um sr de 90 anos…), praticamente o Brizola ainda vivo. Mas ter 90 anos traz uma visão panorâmica e uma liberdade que torna muito interessante lê-lo.

    Nesta coluna ( http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=11774 ) ele diz coisas parecidas com o Jânio aí em cima.

  24. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#61) (24/09/2010 às 12:48 am),

    Falei no final do meu comentário (#66) de 24/09/2010 às 04:04 am sobre o post no Blog do Luis Nassif. O título do post no blog do Luis Nassif é: “O primeiro comercial político na TV” de ter, 21/09/2010 às 07:49. O link para o acesso é:
    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-primei
    E para evitar que o link seja quebrado quando não se baixa o IntenseDebate ponho o mesmo link protegido pela tag “b”.

    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-primeiro-comercial-politico-na-tv

    Bem, e aproveito para contar uma história que uma vez li no painel da Folha de S. Paulo. Dizia a historieta que em um comício Antônio Delfim Netto teria dito: “A causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário”. Jânio Quadros repreendeu Antônio Delfim Netto, lembrando-o que o povo não sabe o que é processo inflacionário nem o que é déficit orçamentário e corrigiu a frase do ex-ministro tinha dito alterando assim e e disse a ele que ele deveria alterar o discurso e dizer simplesmente:

    “A causa da carestia é a roubalheira do governo”.

    A inflação é vista pelo povo como uma espécie de roubo que o empresariado faz do povo, mas só o faz porque está em conluio com o governo. O filme do post lá no blog do Luis Nassif “O primeiro comercial político na TV” trata disso de forma subliminar.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 23/09/2010

  25. Jon says:

    O atual governo subvencionou o MST atraves das cooperativas estaduais de agricultura, deturpou e cooptou o movimento sindical alem de aparelhar o Estado com partidários. Por aparalhemento não me refiro a inserção de um número padrão de militantes e cooperadores da campanha e sim de uma ocupação, jamais vista desde a redemocratização, de seus membros na esfera estatal de tal forma que se faz necessário aumentar o Estado apenas por esse motivo. Né não Senhora Imundice Guerra? Já o MST usa o dinheiro das cooperativas para invadir, intimidar, vandalizar, e até assasinar. Entretanto a risco institucional segundo J de Freitas é a reação a isso tudo. Argumentação chula que culmina com um simbolismo de quinta categoria quando alguns oradores se reunem no CLUBE MILITAR (Oh meu Deus). Esses são os tais golpistas.
    É uma piada.

  26. […] This post was mentioned on Twitter by Lauro Mesquita, Lauro Mesquita, Danilo Milhiorança, André Lima, Pedro Novaes and others. Pedro Novaes said: RT @cileidealves RT @Dourivan Janio de Freitas põe ordem na discussão autoritarismo/golpismo http://goo.gl/BRF6 […]

  27. Jon says:

    "Cabe ao TCU investigar as contas se houver indícios."

    Na verdade cabe ao Ministério averiguar o uso do dinheiro repassado bem como as contas que em teoria deveriam ser prestadas pelo receptor. O TCU avaliza ou não. No caso de negativa pede-se esclarecimentos e/ou investigação.

    "Nunca vi o TCU, o MP e a PF funcionar tão ativamente, mesmo com tantos "pelegos" nesse governo que funcional tão mal, não é?"

    É sim, é exatamente isso. Quando o governo funciona mal: politicas de cooptação e Ministério aparelhado justamente pelos cooptados, caberá as PFs, MPs e aos TCUs da vida correr atras do estrago.

  28. Jon says:

    Perceba que o FAT é usado em teoria pelos sindicatos para capacitar trabalhadores e seu uso em primeira instancia deveria ser fiscalizado pelo Ministério do Trabalho, este aparelhado pelos sindicatos.O que você acha que vai acontecer? Cada vez que o TCU encontrar irregularidades manda suspender o repasse e os cursos, aqueles que de fato existem, são interompidos.Não seria melhor repassar o FAT para um Ministério que já tenha estrutura montada paera eese fim ( O da Educação) e que estivesse o mais longe possível das garras dos dirigentes que no fim precisará fiscalizar?

    Mais enfim o problema é o Reinaldo Azevedo no CM, a Soninha "Vai a Luta", a Veja "Polite Company Killer" e tantas outras construçoes fascinantes.

  29. Augusto Nascimento says:

    "Não seria melhor repassar o FAT para um Ministério que já tenha estrutura montada paera eese fim ( O da Educação) "
    Aí, você diria que o Ministério da Educação está aparelhado pelos petistas, que, por sua vez, seriam só uma correia de transmissão dos sindicatos malvados. Já estamos ouvindo este tipo de conversa fiada há mais de 8 anos, e tudo indica que continuaremos ouvindo por aind amais quatro anos, no mínimo.

  30. […] Nacional de Jornalismo há bastante tempo, inclusive para regulação da TV. Leiam o artigo do Jânio de Freitas, especialmente este trecho “Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é […]

  31. Jon says:

    Ai, é tortura explicar para quem não consegue interpretar texto.
    Foi mencionado o inchaço do Estado por partidários e entre eles estão os familiares da Erenice Guerra.
    Esse é o assunto. Meu Deus que dificuldade.

  32. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#71) (24/09/2010 às 01:24 pm),

    Não sou sociólogo. Falo aqui como leigo. O que eu quis dizer em meu comentário (#66) de 24/09/2010 às 04:04 am era que o sentido do ditado estava de acordo com as conclusões da pesquisa segundo o que você falou sobre ela. Quanto mais rico menos golpe. Não tinha é verdade no ditado a barreira concreta dos US$ 6 mil, mas eu considerava essa barreira não muito consistente. Fez-me lembrar da frase do poeta Giano Vitale de Palerme no epigrama “De Roma”:

    “immota labascunt et quae perpetuo sunt agitata manent”

    Mostrei a fragilidade dela comparando a situação do Brasil em 2002 e 2010 e trazendo o câmbio de lá para cá. E que era até mais lógico ter em 2002 o câmbio de 1,7 e agora de 3,8 (ou 4 para ficar um número mais exato).

    Fica uma coisa maluca. Já pensou se para fazer a revolução ser necessário que um vigia acompanhe o câmbio e fique lá mandando recado até que de repente ele grita a senha: 5.999 ou “tá na hora, tá na hora”. Não dá para levar a sério.

    Eu disse que não gosto de Adam Przeworski. Lembrava muito pouco dele. Parece-me que ele apareceu mais, pelo menos aqui no Brasil, naquela época de FHC. Sempre me pareceu que ele corria atrás dos fatos e os laçava e vinha mostrando os fatos que comprovavam as teses dele.

    Fui querer cumprir a obrigação que assumi. Não deveria ter feito. O ditado de Aiaiai diz mais. O artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi não vale a leitura.

    Passaram a metade do texto (Da página 9 até a 22) negando validade as teses culturalistas. Escolheram aqueles traços culturais mais complicados para estudo e diante de cada um deles diziam que era irrelevante. Para eles a idéia de paradigma deve ser um anátema. Tudo bem. De repente, sem tir-te nem guar-te, eles entram lá com a informação:

    “Quando examinamos alguns padrões empíricos relativos a quase todas as democracias que existiram em qualquer lapso de tempo entre 1950 e 199012, o fato que mais chama a atenção é que democracia alguma jamais foi subvertida neste período num país com uma renda per capita superior à da Argentina em 1976”.

    E quanto é essa renda per capita? No final do parágrafo seguinte ele diz:

    “Acima de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre”.

    Dólares de quando? Talvez fosse dólares da época do trabalho 2003 ou da época da Argentina em 1976.

    Eles agarraram o número a laço. Colocaram a história do mundo em um computador e foram elevando a renda per capita até que a verdade foi revelada. Acima de US$ 6 mil de renda per capita não há revolução. Talvez o melhor seria dizer mil BigMacs.

    Bom eu devia ter parado já nesta parte. Resolvi ler até o fim. Eis a questão que eles lançam no final do texto:

    “Em termos mais gerais, deveríamos respeitar culturas antidemocráticas que sobrevivem em sociedades que jamais tiveram uma experiência de democracia?”

    O texto é de 2003. Ficou parecendo que eles estavam apresentando a justificativa de George Walker Bush, o filho, para invadir o Iraque. A justificativa de George Bush não, porque George Bush invadiu o Iraque para poder ganhar a eleição americana. A justificativa que os Estados Unidos procuraram convencer o resto do mundo que era a razão que movia o nobre país do norte.

    Melhor seria eles terem escolhido um outro critério. As revoluções são feitas de acordo com a fraqueza do Estado. Se o Estado é fraco, assalta-se o Estado. E como medir a fraqueza de um Estado? Pela carga tributária. A partir de um certo índice de força do Estado não há revolução. Tem mais valor sociológico do que o trabalho que eles fizeram. Pelo menos é o que eu acho como leigo.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 24/09/2010

  33. claudio ladeira says:

    Clever, (continuando)

    5) "Acima de US$ 6 mil de renda per capita não há revoluções"
    Errado. Este dado não trata de transições e revoluções de ditaduras para democracias.

    6) " Talvez o melhor seria dizer mil BigMacs."
    E daí? O que isso prova? Você pode usar como referências o valor que quizer, seja o de BigMacs, camisas do Flamengo, usinas hidrelétricas ou latinhas de Skol, constanto que faça a conversão correta. Se um bigMac custar dois dólares, é só fazer regra de três.

    7) "texto é de 2003. Ficou parecendo que eles estavam apresentando a justificativa de George Walker Bush, o filho, para invadir o Iraque."
    Não acho, pois não consigo imaginar de que modo a afirmação "a estabilidade das democracias não depende de uma "cultura" específica" justifique os argumentos messiânicos de Bush filho. E como eles não analisam a transição de ditaduras para democracias, mas apenas o contrário, a tese deles não é uma análise das condições nas quais podemos (e muito menos "devemos moralmente") lutar para estabelecer uma democracia. Além disso, se estiverem corretos, a democracia tende a ser menos estável numa sociedade pobre e economicamente devastada por uma guerra.

    8) "Melhor seria eles terem escolhido um outro critério. As revoluções são feitas de acordo com a fraqueza do Estado. Se o Estado é fraco, assalta-se o Estado. E como medir a fraqueza de um Estado? Pela carga tributária. A partir de um certo índice de força do Estado não há revolução."

    Se os dados forem corretos (os dados que você não contestou citando exemplos contrários) a renda per capita é um índice útil para avaliar quando o assalto ao estado tende a acontecer com maior frequencia, e um indicativo de que em determinadas sociedades a probabilidade é muito menor. Mas talvez existam índices melhores, como a "carga tributária". neste caso você só precisa fazer uma coisa: comprovar. Há algum dado empírico capaz de sugerir isso? De onde você tirou esta informação? É intuição, uma tese que você ainda está desenvolvendo? Ou você gostaria que tal afirmação fosse correta, mas não tem idéia se é verdadeira? Afinal, porque isso tem mais valor que a pesquisa mencionada no artigo?

    9) "Passaram a metade do texto (…) negando validade as teses culturalistas. Escolheram aqueles traços culturais mais complicados para estudo e diante de cada um deles diziam que era irrelevante."

    Você acha que a explicação é "cultural"? Então apresente um argumento. Acha que as críticas às teses culturalistas são equivocadas? quais são os equívocos? Você não fez isso. Além disso, se como você crê a explicação é apenas a "força do Estado", em que medida essa tese é "culturalista"? É contraditório: para você, mesmo numa sociedade com "cultura" democrática, "se o Estado é fraco, assalta-se o Estado". Portanto sua explicação também não é culturalista.

    Abraço
    Cláudio Ladeira, Juiz de Fora, 25/09/10

  34. Tiago says:

    No X Congresso do PCB, Ivan Pinheiro denuncia o Comitê Central revisionista: http://www.youtube.com/v/QoQEly_K44c&loop=1
    Ivan Pinheiro fala sobre seu programa de governo: http://www.youtube.com/v/1eQCL_vDTu0&loop=1

  35. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#110) (25/09/2010 às 09:26 pm),
    Como Adam Przeworski que gosta de agarrar a laços os números com que ele trabalha, na tentativa de dar objetividade a questões de natureza subjetiva, você também se agarrou ao número cabalístico que ele lançou na discussão.
    Como não tenho o intensedebate durante a semana vou reproduzir a sua primeira réplica, pois ela não aparece quando o intensedebate não é baixado. Sem o intense debate só aparece a segunda parte de sua réplica que resultou no comentário (#110) de 25/09/2010 às 09:26 pm. Assim se voltar a comentar terei a sua réplica reproduzida. Isto é claro se este comentário vier a aparecer quando o intensedebate não for baixado.
    Diz então você:
    – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
    “Clever,
    Eu também não sou sociólogo, mas confesso que – ao contrário de você – eu gosto bastante do Przeworski. Bem, certamente esta simpatia acaba influenciando na minha leitura do artigo. São preconceitos “a favor”. Mas, se por um lado é perfeitamente possível que os autores estejam equivocados, isso não é demonstrado pelos seus argumentos.
    No artigo os autores constatam que, de 1950 pra cá, a partir de um determinado nível de renda per capita não foram identificadas rupturas institucionais em sociedades democráticas, e que essas rupturas crescem exponencialmente a partir de um determinado nível de renda. Você pode demonstrar a falsidade da afirmação de dois modos: apontando para um único exemplo, no período apontado, (1) de democracia que tenha sido derrubada em sociedade com renda per capita superior ao valor apontado; (2) de democracia estável em sociedade com renda per capita inferior ao valor considerado crítico. Mas você não faz isso. Seus comentários só provam que você realmente não gosta dos autores. Bem, talvez eles estejam errados, mas você não provou isso, nem lançou argumentos aceitáveis.
    Vamos lá:
    1) “Dólares de quando? Talvez fosse dólares da época do trabalho 2003 ou da época da Argentina em 1976”
    Começo por esta pois acho que é a maior fonte dos erros de sua análise: você não viu, mas o artigo é explícito ao adotar como referência o dolar norte-americano de 1985. Em todo caso, tudo bem que você não gosta do sujeito, mas é subestimá-lo muito imaginar que ele não levaria isso em conta. é muito básico.
    2) “Mostrei a fragilidade dela comparando a situação do Brasil em 2002 e 2010 e trazendo o câmbio de lá para cá. E que era até mais lógico ter em 2002 o câmbio de 1,7 e agora de 3,8 (ou 4 para ficar um número mais exato)”
    Não mostrou. aliás, se o teu exemplo é util, é para comprovar a tese do artigo. O Brasil de fins da década de 1980 e início de 1990, sem uma forte “cultura democrática”, com hiperinflação e enorme desigualdade social, mas com renda per capita elevada, manteve-se dentro da normalidade democrática. E comparando o Brasil de 1992 e 2010, concluímos que vivemos em democracias estáveis. O que o seu exemplo comprova afinal?
    3) “Fica uma coisa maluca. Já pensou se para fazer a revolução ser necessário que um vigia acompanhe o câmbio e fique lá mandando recado até que de repente ele grita a senha: 5.999 ou “tá na hora, tá na hora”. Não dá para levar a sério”
    Realmente, não daria pra levar a sério se a tese fosse essa, mas eles não fazem isso. Primeiro não há uma teoria das “revoluções” em geral, mas apenas de um tipo específico de “transição”: de democracias para ditaduras, o inverso não foi analisado. Segundo, se a coleta de dados é correta, ela não é um indicativo para soar “apitos” (coisa que o RA fez no clube militar esta semana), mas demonstra que a partir de certo nível de renda per capita a probabilidade de que apitos golpistas surtam efeito é maior ou menor. E, mais importante, essa probabilidade não é constante, mas cresce exponencialmente com a redução da renda per capita. Portanto, eles não sustentam a tese absurda de que “abaixo de 6.000 é só soar o apito que a casa cai”. Nesta sua crítica você deformou o argumento.
    4) “Eles agarraram o número a laço. Colocaram a história do mundo em um computador e foram elevando a renda per capita até que a verdade foi revelada.”
    Errado, não agarraram nada a laço. Simplesmente constaram que nenhuma democracia com renda per capíta superior a US$ 6 mil (no valor adotado) transitou para uma ditadura; constataram também que entre 6 e 5 mil são raras as rupturas, que se tornam muito mais frequentes abaixo de 2.000.
    Além disso, nem tentaram produzir uma “teoria da revolução”. Esses dados, se corretos, não explicam o motivo (eles apresentam hipóteses, mas isso é outra coisa). Apenas constaram uma tendência quanto à estabilidade das democracias. Digo “se correto” pois só lí o artigo, que como você deve ter visto, resume uma pesquisa mais ampla. Eles podem estar equivocados também quanto aos dados, mas você não apresentou nenhuma prova em contrário. Afinal, alguma democracia foi derrubada em sociedades com renda superior a 6.000 dólares (no valor de referencia do artigo)?”

    – – – – – – – – – – – – – – – – –
    Aproveito e deixo aqui duas observações. A sua segurança da não probabilidade de golpe no Brasil talvez reduzisse se você tivesse dado mais atenção ao que a minha falta de atenção não conseguira alcançar. Não vi a nota ao pé da página indicando que o dólar de referência era o de 1985. Informação que bem poderia ter vindo na frase:
    “Acima de 6.000 dólares[Dólares de 1985], as democracias podiam esperar durar para sempre”
    Você viu e em nenhum momento mencionou isso nos seus comentários. Lembrando que a inflação média americana de 1985 até a data de hoje é pouco menos de 3% ao ano, usando a regra de 70 e o período de 25 anos para ver qual a taxa de inflação anual duplicaria o valor do dólar se chegaria a taxa de 2,8%, ou seja, em valores atuais a barreira acima da qual a democracia não cairia seria próximo de US 12 mil.
    A segunda observação se prende ao termo revolução. Usei-o pelo tom crítico que eu dei ao texto e prestando uma homenagem aos golpistas de 1964. Os mais velhos como eu lembram que o golpe de 1964, em que se punha por terra um processo democrático de quase 20 anos, era chamado pelos seus autores de revolução.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 26/09/2010

  36. […] o seguinte excerto do último artigo do jornalista Jânio de Freitas, republicado no NPTO [numeração e grifos […]

  37. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#115) (27/09/2010 às 03:13 pm),
    Se tiver tempo talvez eu possa dar uma olhada em cada item de suas réplicas. Agora o que eu saliento como o cerne de nossa discussão é o dado que para você é concreto e que para mim, como tudo que é rígido, desaba no ar.
    Não que eu não tenha críticas em relação a toda pesquisa, a começar pela penúltima frase que me pareceu aterrorizadora.
    Repito-a ainda que considere a repetição e a frase extravagantes:
    “Em termos mais gerais, deveríamos respeitar culturas antidemocráticas que sobrevivem em sociedades que jamais tiveram uma experiência de democracia?”
    Na pressa eu escrevi muita besteira tal como dizer que com a frase acima:
    “Ficou parecendo que eles estavam apresentando a justificativa de George Walker Bush, o filho, para invadir o Iraque.”
    Por respeito a você eu corrigir a besteira e disse:
    “A justificativa de George Bush não, porque George Bush invadiu o Iraque para poder ganhar a eleição americana.”
    Você não deu a mínima atenção para a minha correção e se prendeu às besteiras que eu escrevi. E a minha correção é o que eu penso. Se o povo americano reagisse desfavoravelmente a qualquer presidente que invadisse um país mais fraco e não permitisse que o presidente se reelegesse, George Walker Bush, o filho, jamais teria invadido o Iraque, mesmo que soubesse que Bin Laden morasse lá, mesmo que soubesse que Saddan Hussein tinha as tais armas biológicas.
    Você, entretanto, levou a sério o que eu, de brincadeira, disse ser a razão da invasão do Iraque. E pior, disse que os argumentos (imagino que em argumento se subentenda a razão) de George Bush foram messiânicos. Então toda a parafernália de razões que pipocavam na mídia sobre a razão da invasão americana foram suficientes para convencer que George Walker Bush agiu por razões messiânicas? Não foi nada planejado, nada elaborado com esmero e arte nem a invasão nem o esforço para convencer lá e do outro lado do Atlântico? Então de repente em um ataque possesso de messianismo George Walker Bush imagina-se ressuscitando as cruzadas e resolve ir até o berço de Abrahão. Ao povo americano, coitado, pego desprevenido, e co alto senso de patriotismo nada restou que apoiar seu presidente desvairado.
    Agora, brinquei e brinco com o texto a todo momento porque não dá para levar o Adam Przeworski a sério.
    Voltando à frase, aquela era a justificativa que muitos acadêmicos de esquerda, principalmente na França utilizavam para acobertar a invasão do Iraque (Bem houve outras nacionalidades como se pode ver em “Hitchens e o câncer” de 05/08/2010 aqui no blog de Na Prática a Teoria é Outra no endereço:
    http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6648
    e com a Tag “b” para aparecer inteiro sem o intensedebate:
    “http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6648”
    ou mais precisamente em “Hitch 22” de 28/05/2010 também aqui no blog de Na Prática a Teoria é Outra no endereço:
    http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6301
    ou
    http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6301
    com a Tag “b” para aparecer inteiro sem o intensedebate). Se basta tornar um pais rico para que não haja golpe contra a democracia, invadimos um país, instalamos uma democracia (Como se fosse brincadeira de roda, brincadeira de roda não, porque isso é cultura, mas uma barraca do exército porque essas devem ser iguais em todo o lugar do mundo), investimos maciçamente nesse país invadido (Há dois anos os cálculos apontavam para gastos de mais de três trilhões de dólares no Iraque pelos Estados Unidos, assim seria razoável fazer em cinco anos investimentos em torno de 500 bilhões de dólares) aumentamos o PIB e em conseqüência a renda per capita e teremos lá para sempre a democracia. De cinco em cinco anos escolhemos uma nova nação para instalar a democracia. Tudo assegurado pela pesquisa de Adam Przeworski.
    E o período do levantamento em que se considerou apenas 40 anos não lhe pareceu curto demais para se analisar aspectos culturais? Como eu disse para pesquisadores assim tão imediatistas uma mudança de paradigma que leva até mais de séculos para ser concretizada deve ser vista como um anátema.
    Poderia ainda discutir sobre as razões culturais do PIB. Um povo agrícola comparado com um povo industrial terá PIB diferentes pelo modelo cultural deles. Imagine um monte de sábios fundando um país nos quais viverão cuidando do próprio sustento ao mesmo tempo que se dispõem a ler e interpretar grandes livros do nosso e do tempo passado. Um PIB baixíssimo, e assim com grande possibilidade de sofrer uma transição de um regime democrático para um outra forma de regime.
    E toda a discussão sobre o PIB. E já que as pessoas não são consideradas culturalmente, mas individualmente, falar de PIB é falar de renda per capita. Recentemente houve uma manifestação em livro de um grupo de pesquisadores escolhidos para estudar e avaliar a metodologia do cálculo do PIB e propor reformas que dêem ao PIB maior consistência. Penso até que capitaneados pela França desgostosa porque os valores culturais dela não são superavaliados nos cálculo do PIB. Já imaginou quando se passar a incluir no cálculo do PIB um valor por exemplo de um PIB inglês para uma Revolução Francesa? Em outra oportunidade, eu indico alguns textos no site de José Eli da Veiga em que o PIB é mais bem destrinchado.
    Volto então ao seu dado concreto. Concreto em um lapso de tempo muito curto. Um valor que nos dias de hoje corresponde a cerca de US$ 12 mil.
    Se tomarmos um crescimento da renda per capita de 2% ao ano, há 60 anos que foi quando iniciou a pesquisa um país que hoje tem uma renda per capita de US$ 12 mil teria que ter uma renda per capita de um quarto desse valor. Ou seja, só pelo crescimento natural da renda per capita nos países mais desenvolvidos, o país que tivesse em 1950 uma renda per capita que correspondesse a US$ 12 mil em valores de hoje teria hoje pela quadruplicação real da renda em 60 anos cerca de US$ 48 mil. Enfim, quando a pesquisa iniciou, não havia nenhum país na faixa superior para ser acompanhado no estudo.
    Estou escrevendo muita coisa e talvez já tenha dito isso. Não vou reler meu comentário para ver se de fato já o fiz, mas lembro ainda que há uma discussão sobre o que vem à frente, se a educação ou a renda. Existe a relação dentro do país e entre países: quanto mais anos de estudos maior a renda (Na média é bom deixar o alerta, porque se não as pessoas vão querer fazer doutorado para ficar rico).
    Eu disse que não levava o Adam Przeworski a sério. O texto deixou-me satisfeito com a minha avaliação prévia. Talvez eu tenha lido algum outro trabalho dele, mas não me lembro. Lembro dele mais em entrevistas. talvez houvesse alguma boa razão para ele ter ficado na crista da onda ou aqui no governo de FHC ou lá nos Estados Unidos no governo de Clinton. De todo modo ele nunca me pareceu merecedor dos créditos que se lhe davam.
    PS Alea jacta est. Se esse comentário passar tudo mais é permitido.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 28/09/2010

  38. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#117) (29/09/2010 às 05:30 pm),
    Na verdade a nossa diferença é ideológica. Ficaremos discutindo aqui para sempre, pois a nossa ideologia nos faz ver as coisas de forma diferente.
    Veja que isso já se percebe no meu primeiro comentário para você e na sua réplica ao meu segundo comentário.
    Quase no início do meu comentário (#67) de 24/09/2010 às 04:04 am, eu digo
    “Aliás embora eu não seja sociólogo e não goste de Adam Przeworski”
    Revelando assim o meu preconceito em relação a Adam Przeworski. Repeti a minha crítica no meu segundo comentário (#108) de 24/09/2010 às 11:40 pm para você, dizendo:
    “Eu disse que não gosto de Adam Przeworski”
    Enfim, esta é minha ideologia refratária a Adam Przeworski. Se ficar sem ela, entretanto, eu serei um cabeça oca. Assim prefiro continuar como sou. Penso que nós todos somos assim. Gostamos de alguém e procuramos explicações para toda vez que a opinião da gente é divergente da de quem a gente gosta. Não gostamos e ficamos satisfeitos quando a nossa opinião é diferente da opinião de quem a gente não gosta.
    Não gosto de Bolivar Lamounier. Fico satisfeito em saber que é dele a opinião de que “No Brasil somos todos corruptos” (Título de um post de 09/04/2009 às 01h45 no antigo blog de Pedro Doria e que pode ser encontrado no endereço a seguir:
    http://pedrodoria.com.br/2009/04/09/no-brasil-somos-todos-corruptos/
    e protegido com a tag “b”
    http://pedrodoria.com.br/2009/04/09/no-brasil-somos-todos-corruptos/
    para poder ser visto caso não baixe o IntenseDebate)
    É opinião que não bate com a minha ideologia.
    Gosto ao contrário de Renato Janine Ribeiro. Penso que ele nunca dirá uma frase como esta que disse Bolívar Lamounier. Se dissesse eu trataria de arrumar uma ou outra desculpa.
    Em meu comentário (#113) de 27/09/2010 às 03:43 am retransmiti (pois ele não aparecia quando não se baixava o intensedebate) o seu comentário que deveria vir antes do seu comentário (#110) 25/09/2010 às 09:26 pm e que constituía o início de sua réplica e nele logo no princípio você disse:
    “eu gosto bastante do Przeworski”
    Por que eu não gosto de Adam Przeworski? Como eu disse, é uma questão ideológica. Aqui e ali as manifestações dele o foram colocando em pólo oposto ao meu. É o que eu penso que ocorreu também em relação ao Bolívar Lamounier. É um cientista brasileiro de renome, mas eu não consigo levar os trabalhos dele a sério.
    Fico satisfeito quando Bolívar Lamounier expressa opinião tão disparatada ao dizer “No Brasil somos todos corruptos”.
    Também deixou-me contente saber que o texto com as três pobres idéias era de Adam Przeworski. A idéia da desimportância da cultura, a idéia da importância da economia e com ela da barreira concreta e a idéia vinculada a questão:
    “Em termos mais gerais, deveríamos respeitar culturas antidemocráticas que sobrevivem em sociedades que jamais tiveram uma experiência de democracia?”

    Tratava-se apenas de uma questão, mas cuja resposta era perceptível na última frase do trabalho:
    “Ela [a questão] assinala, entretanto, uma fraqueza genérica do relativismo cultural”.
    Suponhamos que ele estivesse falando sobre línguas. Suponhamos que se discuta na academia a possibilidade da língua inglesa se tornar a língua oficial dos países.
    Faz-se então um levantamento para saber se a adoção ou manutenção da língua inglesa guarda relação com questões culturais. Depois se verifica se há relação com a renda. Constata-se que a partir de certa renda uma vez adotada a língua inglesa ela é mantida como língua oficial.
    Faz-se então a questão:
    “Em termos mais gerais, deveríamos respeitar culturas não inglesas que sobrevivem em sociedades que jamais tiveram uma experiência de falar inglês?”
    E o acréscimo no final indicando a ideologia do autor pela preferência em relação à questão:
    “Ela [a questão] assinala, entretanto, uma fraqueza genérica do relativismo cultural”.
    Eu acho que a cultura como uma própria superestrutura cria o arcabouço para outras superestruturas como a democracia. Para mim isso salta aos olhos. Provar a importância da cultura eu acho impossível. Negar essa importância como fez Adam Przeworski pareceu-me um sonho de uma noite de verão e, portanto, não era para eu levar a sério. Por isso considerei essa idéia pobre.
    Eu acho que a renda tem a ver com o grau de satisfação das pessoas com o modelo dirigente que a sociedade adota. Considero essa idéia pobre no mesmo sentido que a disse AiAiAi. Ela é muito óbvia mas não diz muito. A renda é um dado objetivamente mensurável. Provar o grau de satisfação é um tanto mais difícil, mas talvez não seja impossível. De todo modo, a renda obtida através de uma metodologia mundial de cálculo e por isso objetivamente mensurável deve ser compreendida dentro das limitações da metodologia.
    Eu fiz referência ao professor José Eli da Veiga. Há três textos dele que são importantes para melhor compreensão da metodologia de cálculo do PIB e, portanto, da renda. Primeiro o artigo “Reabilitar Georgescu” que saiu no Valor Econômico de 08/02/2008. Nele se percebe que não devemos pegar a febre a qualquer custo do desenvolvimentismo, mas que evidentemente o controle do crescimento em níveis mais sustentáveis requer uma política mundial. Menciono o artigo aqui para lembrar que é a forma como o sistema econômico funciona que leva a se ter um PIB maior ou menor. E essa forma pode muitas vezes ser regrada por normas culturais. Comemorações de aniversários com compra de presentes, casamentos, formaturas etc, tudo pode constituir em fator de incremento ou de diminuição do PIB e, portanto, da renda per capita.
    O segundo artigo é “O que PIB tem em comum com o Natal” saído no Valor Econômico de 15/04/2008 além do título impregnado de valor cultural, embora não seja o valor cultural mais presente no PIB como se verá depois, cabe também destacar a parte a seguir que trata mais de questionamentos econômicos contábeis sobre o cálculo dele:
    “Enfim, como não faz distinções entre o que é produtivo ou destrutivo, ou entre despesas que elevem ou rebaixem a condição humana, o PIB só passa por indicador de progresso para quem nunca tenha visitado sua cozinha”.
    E finalmente “De onde vem a força do PIB” saído no Valor Econômico de 15/04/2008 em que se encontra essa pérola:
    “Na verdade, o que hoje está sendo cada vez mais apontado como suas principais deficiências foi justamente o que permitiu o surgimento de uma maneira bem razoável de se avaliar a capacidade que tem uma nação de pagar por uma guerra”
    É talvez o maior valor cultural por tr´s do PIB seja a guerra.
    Propus substituir a barreira de US$ 6 mil pela barreira da carga tributária como revelação da força do Estado apenas para trazer uma medida que parece ser mais subjetiva do que objetiva e, portanto, carregada de mais valores sociológicos do que a renda expressa em um número. É claro que eu sabia que a metodologia utilizada seria a mesma e, portanto, apenas iria apresentar o número US$ 6 mil em outro formato (Por exemplo chegar a conclusão de que 25% de carga tributária é a barreira)
    Os cálculos que transformaram a renda de US$ 6 mil para US$ 48 mil, não são de economista que também não sou, mas cálculos usando apenas as operações simples de aritmética e a regra de 70 para maior rapidez nos cálculos. Para ficar mais justo teria que supor o crescimento mundial da renda per capita igual a 70/30 que corresponde a 2,33%. Assim em cada 30 anos a renda duplicaria e em 60 quadruplicaria. A intenção no entanto era só mostrar que não havia razão para tanto entusiasmo com a barreira concreta que Adam Przeworski achou. Era um número que procurando se achava, como, se eu procurasse em um bom computador, eu acharia para a carga tributária. Agora se o cálculo deveria ser esse simples que eu fiz ou se deveria considerar outros dados eu não poderia responder com segurança. Que outros dados? Dados culturais que sopesassem em cada país características próprias do país? Pode ser.
    Você quer de mim isenção. Já repetir isso neste blog várias vezes. Tomo uma frase de Mary McCarthy para tudo:
    Dizia ela:
    “An open mind about Vietnam [War] has no mind at all”
    Em qualquer situação isento é o cabeça oca. Não entro no mérito da competência técnica do Adam Przeworski. Assim como não entro no mérito da competência técnica do Bolívar Lamounier. Acontece que não gosto da ideologia que ele(s) professa(m). Toma-se um Marco Antônio Villa como um outro tipo. Não é porque ele é engajado que não é um bom sociólogo. É porque ele não é bom mesmo. Ser engajado é o lado bom dele. Agora não gosto dele não é porque ele não é bom, mas pelo lado que ele é engajado que não é o meu.
    O texto “Democracia e Cultura: uma visão não culturalista” pareceu-me engajado do lado oposto ao meu. Não poderia esperar algo diferente vindo de Adam Przeworski. Ideologicamente divergi do texto. E vi fundadas razões para não me apegar aos dados que ele apresenta.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 29/09/2010

  39. Clever Mendes de Oliveira says:

    Claudio Ladeira (#120) (01/10/2010 às 08:51 pm)
    Seu comentário anterior a este (#120) com os itens 1), 2) e 3) não apareceu quando o intensedebate nao baixa. Vou transcrever a seguir para no caso de resolver respondê-lo por item que me parece mais adequado para responder a você uma vez que percebo que você não me quer entender.
    – – – – – – – – – – – – –
    “Clever,
    1) “Na verdade a nossa diferença é ideológica.”
    Não e. Primeiro, não acho que exista uma divergência ideológica importante entre nós dois (vc está me supondo tucano pq citei um artigo de um tucano como o Limongi?). Segundo, ainda que houvesse tal divergência ideológica, nossa divergência decisiva neste debate seria outra, mais importante: devemos levar a sério textos de autores dos quais divergimos ideologicamente? Eu acho que sim, vc – a julgar pelas suas críticas – não.

    2) “esta é minha ideologia refratária a Adam Przeworski. Se ficar sem ela, entretanto, eu serei um cabeça oca.”
    Não. Primeiro, você confunde duas coisas: “ter uma ideologia (posições políticas consolidadas, visões de mundo, preconceitos, boas razões, crenças etc)” não implica ser “refratário” a uma análise dos fatos quando realizada por pessoas das quais vc diverge ideologicamente. Vale a pena repetir à exaustão: eu não afirmei que a pesquisa está acima de qualquer questionamento (nem afirmei que ela é simplesmente correta), mas que vale a pena ser discutida. Você respondeu desqualificando os autores sem ao menos ler com a devida atenção o texto, afirmando que eles não devem ser lidos. O que você precisa abandonar não é necessariamente sua ideologia, mas sim esta atitude, e abandoná-la não o tornará “cabeça oca”, longe disso. Concordo que sem alguma ideologia nos tornamos “cabeças ocas”, mas separar nossas crenças ideológicas de nossos juízos sobre o mundo é só racionalidade. Nem sempre é possível, mas vale a pena tentar.

    3) “Não gosto de Bolivar Lamounier. Fico satisfeito em saber que é dele a opinião de que “No Brasil somos todos corruptos” (…) É opinião que não bate com a minha ideologia. Gosto ao contrário de Renato Janine Ribeiro. Penso que ele nunca dirá uma frase como esta que disse Bolívar Lamounier. Se dissesse eu trataria de arrumar uma ou outra desculpa.”

    Vamos por partes. Primeiro, a frase do Lamounier que você citou é de uma estupidez atroz. Embora eu não goste dele tanto quanto gosto do Przeworski, deve-se reconhecer seus méritos, é um profissional merecidamente respeitado. E ainda assim podemos dizer: que medonha tolice. O Alon Feuerwerker tem um post com esse título: “ideologia demais é burrice”. Pois foi o caso com o Lamonier, o PSDB vai perder para o “partido mais corrupto da história” pq “o povo é corrupto” e não reconhece a superioridade dos valores morais que o PSDB representa e o PT não e blablablablabla. Ou seja, excesso de ideologia entorpecendo o juízo. E neste ponto compartilhamos a felicidade: é excelente quando o adversário político analisa de modo tão ruim. Mas aqui discodo de você num ponto: a frase de Lamonier não é errada por uma questão “ideológica”: ela é falsa, não corresponde aos fatos, e pronto. Ideológico foi ele ao permitir que suas crenças ideológicas na superioridade moral dos eleitores do PSDB o levassem a tamanho ridículo.
    Em segundo lugar, quanto ao Renato Janine Ribeiro. é sem sombra de dúvidas um intelectual digno de todos os méritos. Do ponto de vista político, concordo totalmente com você, prefiro o Renato Janine Ribeiro ao Limongi e ao Lamounier. Bem, sou filiado ao PT, deve ser por isso. Mas, de verdade, se ele dissesse algo assim, você se limitaria a “arrumar uma desculpa”? Olha, essa é outra frase do Alon: é um tipo de servidão, quando o sujeito é obrigado a concordar com tudo que o aliado afirma, e discorda sempre do adversário. E, bem, pelo teus textos aqui no blog, eu não acredito que vc simplesmente arrumaria uma desculpa, acho que vc aceitaria que ele disse bobagem mesmo, e a vida seguiria. Ninguém precisa mudar de ideologia pq um aliado inteligente disse uma idiotice. Mas, só pra voltar no ponto da relevância do Przeworski, embora o Renato Janine ribeiro seja mesmo um baita intelectual, confesso os textos do Przeworski me instigam mais, como p, exmplo “capitalismo e social-democracia”. Claro que os dois tem abordagens bem diferentes, o Janine na filosofia política, não na ciência política.

    Em terceiro, sobre a relevância do Limongi, você leu a reportagem sobre ele no Valor de ontem (quinta, 30 de setembro?). Interessante: “as previsões de que a oposição vai desaparecer são absolutamente exageradas. O temor (…) de ‘mexicanização’ e ‘venezualização’ são absolutadmente equivocados”. Ok, vc dirá que isso é óbvio, e também me parece. Mas mostra que ele, ao contrário do Lamounier, não topou queimar o próprio filme com discurso panfletário idiota.”
    – – – – – – – – – – – – –
    Isso ai em cima foi o que você disse.
    Resumidamente eu poderia dizer:
    1) Sim (Concordando comigo), minha divergência com você é ideológica.
    2) Não (Discordando de você), sem ideologia eu sou um cabeça oca. Não tenho dois cerebros um para minha ideologia e outro para o meu raciocínio.
    3) Sim (concordando com você), a frase de Bolívar Lamounier é tolice, mas não (discordando de você), a tolice dele não decorre de excesso de ideologia, mas decorre mais do que eu chamo de petulância arrogante da presunção autoritária da pretensão a sapiência do tucanato e talvez (duvidando da sua assertiva) não sei até que ponto a frase de Bolívar Lamounier seja falsa, pois não vi a definição dele de corrupção, parecendo-me mais como uma frase irrelevante e praticamente impossível de ficar restrita aos brasileiros (Seria mais aceitável algo como: “Os seres humanos somos todos corruptos”)
    Outro sim (agora para Alon Feuerwerker) somos servos de nossa ideologia. Às vezes a estendemos aproximando da ideologia de outrem, às vezes a alteramos ou apagamos parte dela, mas não sabemos muito como isso ocorre (Provavelmente isso se faz como decorrência do processo de conhecimento que todos nós atravessamos pela vida). Assim como dizia o ditado americano de que a mesma notícia não soa igual em Topeka ou Nova York, a mesma frase não nos soa igual se dita por Bolívar Lamounier ou por Renato Janine Ribeiro.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 01/10/2010

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