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Resenha de Livros

Livraço: “A Failure of Capitalism”, de Richard Posner

Provavelmente não é uma boa idéia ler só um livro sobre a crise econômica; mas, se for ler só um, leia este.

Para quem não conhece o cara (que vergonha, hein?) Richard Posner é um dos maiores intelectuais conservadores americanos, um juiz federal respeitadíssimo e o cara que o Gary Becker, Nobel liberalzão, escolheu para fazer blog com ele (link aí do lado). 

Quando um cara como esse escreve um livro chamado “Um Fracasso do Capitalismo” (atenção no artigo: não é A crise do capitalismo), você tem que prestar atenção. Ninguém suspeita que o Posner esteja aproveitando a crise para promover uma agenda oportunista, ninguém suspeita que esteja tentando ganhar votos para seu partido, e não é Schadenfreude de órfão da queda do Muro de Berlim. Enquanto Sarah Palin se esforça para superar a Miss Teen South Carolina em sua análise da crise, os melhores intelectuais conservadores já notaram que é hora de repensar o projeto; até para minimizar as perdas e fazer o necessário controle de danos.

O livro tem três teses principais:

(1) A crise é fruto de agentes de mercado agindo racionalmente. Havia duas circunstâncias facilitadoras: (a) a desregulação financeira que vem desde os anos 70, e (b) as possibilidades de crédito barato – em parte pela política de Greenspan, em parte simplesmente porque países exportadores como a China colocaram suas reservas em títulos do tesouro americano. Instituições não-bancárias foram autorizadas a oferecer serviços quase iguais aos dos bancos, sem se sujeitar à mesma fiscalização e exigência de manter reservas; logo depois, os bancos foram autorizados a fazer operações semelhantes, alegando (plausivelmente) que não suportariam a concorrência com as instituições não-bancárias. Seria irracional, para uma empresa individual, correr menos risco pelo medo do risco sistêmico; ela perderia seus clientes para os mais ousados. Os incentivos oferecidos aos executivos também favoreciam a ousadia, e o tipo de trabalho de um hedge fund manager já tende a selecionar os mais risk-loving.

O mercado imobiliário move-se pelo crédito: casa é um negócio caro demais para a imensa maioria das pessoas pagar à vista. Crédito barato, naturalmente, fez a demanda por casa crescer. Mas a oferta de casa é altamente inelástica; todo mundo pode de repente querer ir morar em frente ao Central Park, mas eles não vão demolir todos os prédios e construir outros com o dobro de apartamentos da noite para o dia. Demanda cresce rápido + oferta cresce devagar = aumento de preço. No caso, um aumento dos bons.

É porque o aumento do preço foi ridículamente alto que nego sério resolveu entrar no subprime. Há um cenário em que vale a pena emprestar 100% do valor da casa que seu cunhado desempregado quer comprar: é se você acha que a casa vai aumentar de preço mais que 100%, de modo que o sujeito, só de ter a casa, vai ter a grana pra te pagar. O exemplo é extremo, mas não tão diferente assim do que aconteceu.

Mas não tinha uma hora em que todo mundo viu que era bolha? Bom, deve ter tido. Mas como é que você sabe que a bolha vai estourar agora, e não, sei lá, daqui a dois anos? Eu li na The Economist uma previsão de crise uns dois anos antes dela acontecer. Quem saiu do mercado na época perdeu grana, e se ganhar grana pros outros era sua carreira, provavelmente perdeu o emprego. Em retrospecto, é claro que todo mundo fez besteira, mas na hora não era fácil dizer.

[acho que teve uma hora que era; mas vamos continuar com o argumento do Posner]

Portanto, não é necessário postular nenhuma irracionalidade dos agentes para explicar a crise. Era só o capitalismo desregulamentado, depois de um surto de crescimento mundo afora, doing its thing. Mas, vem cá, será que o governo não fez nenhuma merda? Isso pouparia muita tinta para rever tudo que andamos dizendo sobre o mercado nos últimos anos. Não?

(2) Sim, mas não se animem. O governo cometeu vários erros ao lidar com a crise. Greenspan não deveria ter reduzido os juros no começo do milênio. Bernanke e Paulson cometeram diversos erros, em especial o de chegarem atrasado ao problema, e deixarem o Lehman quebrar. Inacreditavelmente, as duzentas agências reguladoras americanas, além de regularem menos que meu superego, não tinham um plano de contingência para uma crise sistêmica, e ainda deixaram o Madoff se safar por anos e anos.

Mas nada disso explica a crise. Os juros baixos de Greenspan ajudaram, mas a grana chegando da China provavelmente baixaria o preço do crédito de um jeito ou de outro; e a bolha começou antes. As políticas para promover a compra da casa própria davam incentivos para os bancos emprestarem, mas não os forçavam a nada, e não há motivo para crer que eles não o fariam de qualquer jeito – muito pelo contrário, pelos motivos expostos em (1).  

O erro do governo foi ter comprado a idéia de que ele não devia fazer nada. A desregulamentação financeira foi excessiva, e durante todo o processo as autoridades econômicas – maciçamente recrutadas no mercado financeiro – acreditaram que, uma hora, o mercado ia resolver o problema. Se o governo tivesse aparecido mais cedo, talvez pudéssemos estar lidando com uma recessão mais ruinzinha, ao invés de uma depressão.

E não dá para ser muito otimista com relação à influência da ideologia sobre os economistas, as autoridades, ou, enfim, os seres humanos. ATENÇÃO, ESTUDANTES DE HUMANAS (SIM, ECONOMIA É HUMANAS), ISSO É IMPORTANTE: Os problemas econômicos e sociais são muito complexos, os casos relevantes costuma ser em número insuficiente para análise estatística, quando você amplia o número de caso os contextos começam a ser muito diferentes, de modo que não há uma expectativa razoável de que cheguemos a um acordo, com base científica, sobre grande parte das questões mais importantes. Se não der pra resolver cientificamente, resolve-se ideologicamente.

O importante é reconhecer isso e ser pragmático. Daí que é uma boa coisa que Obama, como Roosevelt antes dele, está tentando vários remédios ao mesmo tempo. No final ninguém vai saber o que deu certo (ou errado), mas as brigas futuras entre os economistas são o menor de nossos problemas agora.

(3) Em outros termos, por mais que a era Tatcher tenha levado a progressos inegáveis, o pêndulo andou demais para o outro lado. Os conservadores precisam aceitar que o mercado financeiro oferece risco sistêmico, e precisa ser mais regulado. É provavelmente uma boa coisa que os PhDs de física não vão mais ter empregos no sistema financeiro mexendo com coisas complicadíssimas, e vão, enfim, voltar a descobrir e inventar coisas. É mais útil que os conservadores se preocupem com os excessos de regulação que podem vir agora do que se negar a admitir que mais regulação (talvez internacional) é necessária.

Entretanto, diz o Posner, talvez essa não seja a melhor hora para reformar o sistema: o fundamental é sair da crise; tentar reformar o negócio enquanto ainda estamos afundando é colocar tarefas demais na mão das autoridades, que devem se concentrar em fazer a economia virar de novo.

Enfim, recomendadíssimo. Ainda tenho curiosidades sobre a crise, aguardem mais posts sobre isso, mas o livro me ajudou imensamente. É óbvio que alguém devia traduzir, mas, se forem fazer isso, por favor, escutem esse apelo desesperado: caprichem, não estraguem um texto tão cuidadosamente escrito. Até agora, o melhor livro do ano.

PS: quanto tempo até alguém aparecer dizendo “mesmo um conservador como Posner admite que o capitalismo já era”?

Livraço: “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño

            

Resolvi ler esse livro porque um colega me recomendou, e porque o Tyler Cowen, que costuma dar boas dicas de literatura, adora o autor. Gostei muito, embora seja um livro bem, bem estranho.

Quer dizer, estranho no bom sentido; não é aqueles experimentos literários “(Fod)Eu zabumba, zabumba, comi a mulher do meu amigo”. É escrito que nem livro de gente, só que a história é doidona. É um experimento, mas, ao contrário da turma sem talento, Bolaño só publica experimento que deu certo.

Os personagens principais são dois poetas latino-americanos (um dos quais é o próprio autor), que, depois de criar um movimento literário chamado “realismo visceral”, saem em busca de uma poetisa perdida que pode ter sido a percursora das idéias deles.

Isso é mais ou menos a premissa do livro, mas “premissa” em um sentido beeeem livre: o livro é mais a história das maluquices em que se metem os personagens, por um período que começa nos anos 70 e vai até o começo dos 90, enquanto tentam viver de um jeito meio On the Road, meio hippie, meio estudante de faculdade de ciências sociais: fazendo bicos, escrevendo poesia de vanguarda, brigando com os escritores consagrados, se metendo em confusão por causa da mulher, vendendo maconha, perdendo grana, viajando sem ter muita idéia de como vão se sustentar quando chegarem no destino, enfim, tendo a vida típica com quem sonhavam os caras que fizeram faculdade no IFCH da UNICAMP entre 70 e 80 (alguns dos quais se formaram depois de mim, que entrei em 91). E isso por seiscentas páginas.

O formato da maior parte do livro (excetuados o começo e o final) é o de uma série de depoimentos, dados como se a um detetive um um pesquisador, das pessoas que encontraram os protagonistas em diferentes momentos, e tiveram diferentes tipos de contato com eles.

Ou seja: essa porra de livro tinha tudo para dar errado. Mas dá espetacularmente certo. Quem sabe, sabe.

O livro deve ser muito mais legal para quem conhece literatura latino-americana (não é meu caso), porque é cheio de citações e personagens baseados em personagens reais. Agora, uma coisa me chamou a atenção: que eu me lembre (posso ter deixado passar) não tem um mané de um escritor brasileiro citado em um livro que é praticamente um censo dos escritores modernos latino-americanos do século XX.

Faz um mês que eu acabei de ler, li animadão, mas não consguia escrever um post. Resolvi dar uma olhada nas resenhas na Internet, e vi que todas enfatizam o aspecto “tinha um lado maneiríssimo nos sonhos da juventude de 60-70, e vejam como dói ver isso tentando resistir contra tudo e contra todos”. E isso está no livro, sim, e é bonito, e, muitas vezes, triste.

Mas tem um problema: você tem a nítida sensação de que não é só isso que está se passando, que há uma mensagem maior nas coisas que acontecem (tem pelo menos uma passagem de ressonâncias religiosas óbvias), e uma hora os caras vão parar em Israel de um jeito meio estranho, e uma hora um personagem fala mesmo que há mais na história dos dois do que parece.

Aí agora descobri que saiu uma continuação, escrita pouco antes do cara morrer. Por isso essa resenha é só pra recomendar um puta livro bem escrito (mas não muito recomendável para quem não aguentar história de poeta de vanguarda maluco fazendo bico de trabalhador braçal), e dizer que, quando acabar de ler a continuação, que ainda nem saiu no Brasil, escrevo um resenhão grande, se conseguir.

Enquanto isso, um culto se forma em torno do autor: a continuação, “2666”, é o livro do ano da Time. Um sujeito ouvido pela The Economist fala de “Harry Potter para adultos”. E depois eram os estudantes de ciências sociais que eram malucos.

Livraço do Ano: As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, de Michael Chabon


(quer dizer, eu li esse ano; o livro é de 2001)

Se eu fosse escolher cinco livros que eu gostaria de ter escrito, esse seria um deles. É bonzão, mesmo. Bom, ganhou o Pulitzer, então vocês não precisam que eu diga isso, mas, enfim.

Eu já tinha lido do autor o Sindicato dos Policiais Ídiches, e, quando estava procurando informação sobre a adaptação para o cinema dos policiais ídiches, vi uma resenha que dizia, “ó, é bem legal, mas não é nenhum Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay”. Fiquei curioso. Até que um dia, saindo do trabalho, vi em uma banca da paulista (perto da padre João Manuel) uns livros sendo vendidos a preço de banana, e lá estavam As Aventuras, novinhas, por 12 pratas.

Imaginem a história daqueles dois caras que inventaram o super-homem e morreram na miséria. Agora imaginem que um deles era refugiado do nazismo, especialista em mágica e envolvido com a lenda do Golem. Usem esse pano de fundo para contar na cabeça de vocês a história do surgimento das histórias em quadrinhos, o que eram os EUA na época da segunda guerra mundial, a guerra, o meio cultural nova-iorquino dos anos 30, duzentos e cinquenta historinhas sobre gibi, e imaginem que isso tudo está sendo contado por um cara talentosíssimo e engraçadíssimo.

Tudo começa quando Joe Kavalier, um jovem tcheco apaixonado por mágica e pintura, precisa fugir dos nazistas que acabaram de chegar em Praga. Chegando em Nova Iorque, encontra seu primo Sam Clay, ligeiramente picareta, pobre, filho de um picareta pobre que trabalhava no circo. Sam está começando a achar que esse negócio de gibi tem futuro, ou, pelo menos, mais futuro que seu atual emprego em uma fábrica de almofadas que peidam.

Quando encontra seu primo, um legítimo artista plástico formado pela Europa Central do começo do século XX (não fazem mais como faziam, não), vê a chance de escrever suas próprias histórias em quadrinhos. Kavalier e Clay então criam o Escapista, um super-herói capaz de sair das maiores roubadas, no qual eles projetam suas frustrações, seu desejo de que os EUA entrem na guerra para fazer o que o escapista está fazendo na capa do livro, e sua vontade de sair da pindaíba.

Daí em diante é impossível contar sem estragar a diversão de quem for ler, mas não posso deixar de recomendar enfaticamente que vocês leiam isso aqui. Além de todo o aspecto criativo que vocês podem depreender do dito acima, esse livro é muito, muito bonito. Fazia tempo (desde Na Praia, do Ian McEwan) que eu não me emocionava tanto com o final de um livro quanto eu me emocionei com esse. É realmente magnífico, realmente espetacular, como é que o miserável me escreve esse livro ao invés de me dar a idéia e me transferir o talento para que eu o fizesse?

PS: não sei o quanto da graça é reduzida para quem não suporta quadrinhos, mas não creio que seja tanto assim. Agora, se você, como eu, gosta da oitava arte, é um senhor bônus.

UPDATE: O Cosmo aí nos comentários indica uma boa matéria sobre o Chabon no NYT, que, entretanto, talvez contenha alguns spoilers.

UPDATE 2: Olhem que legal, depois do livro uns caras feras de quadirnho, como os fenomenais Howard Chaykin e Bill Sienkiewicz, fizeram mesmo o quadrinho do Escapista!